quarta-feira, 6 de março de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS (Capítulo XX)



Quando Jesus vai ao mar com os pescadores, Maria de Magdala fica à espera dele, em geral sentada numa pedra à borda da água, ou num cômoro elevado, se os há, donde melhor possa acompanhar a rota e seguir a navegação. As pescas, agora, não são demoradas, nunca houve neste mar tal cópia de peixe, diriam os desprevenidos, é como pescar à mão num balde cheio, mas logo observam que as facilidades não são iguais para todos, o balde está como sempre, pouco menos que vazio, se Jesus anda por outras paragens e as mãos e os braços cansam-se a lançar a atarrafa e desanimam vendo-a voltar apenas com um peixe aqui outro além presos nas malhas. Por isso é que todo o mundo pescador da margem ocidental do mar da Galileia anda a pedir Jesus, a reclamar Jesus, a exigir Jesus, e já em alguns lugares tem acontecido receberem-no com festas, palmas e flores como se em domingo de Ramos estivéssemos. Mas, sendo o pão dos homens aquilo que é, uma mistura de inveja e de malícia, alguma caridade às vezes, onde fermenta um fermento de medo que faz crescer o que é mau e atabafar-se o que é bom, também sucedeu brigarem companhas e companhas, aldeias e aldeias, porque todos queriam ter Jesus só para eles, os outros que se governassem conforme pudessem. Quando tal acontecia, Jesus retirava-se para o deserto e só de lá voltava quando os desordeiros arrependidos iam rogar-lhe que lhes perdoasse os excessos, que tudo era uma consequência do muito que lhe queriam. O que para todo o sempre vai ficar por explicar é por que razão os pescadores da margem oriental nunca despacharam delegados ao lado de cá com vista à discussão e estabelecimento de um pacto justo que a todos beneficiasse por igual, excepto os gentios de vária tinta e crença que por aqui não faltam. Também poderiam os da outra banda, em flotilha de batalha naval, armados de redes e piques, e a coberto de uma noite sem lua, ter vindo roubar Jesus ao ocidente, deixando o ocidente outra vez condenado a um passadio de necessidades, ele que se habituou a uma pitança farta.
Este é ainda o dia em que Tiago e José vieram pedir a Jesus que tornasse à casa que era a sua, virando costas à vida de vagabundagem, por muito que dela se estivesse aproveitando a indústria das pescas e derivados. A estas horas, os dois irmãos, cada qual com seu sentimento, um Tiago furioso, um choroso José, vão em passo acelerado por esses montes e vales, caminho de Nazaré, onde a mãe se pergunta pela centésima vez se, tendo visto sair dali dois filhos, irá ver entrar três, porém, duvida. A estrada de regresso que os irmãos tiveram de tomar, por ser a que mais próxima estava do ponto da costa onde haviam encontrado Jesus, fê-los passar por Magdala, cidade de que Tiago conhecia pouco e José nada, mas que, a julgar pelas aparências, não merecia nem detença nem desfrute. Refrescaram-se pois à passagem os dois irmãos e seguiram adiante. Saindo do povoado, palavra que usamos aqui apenas porque exprime uma oposição lógica e clara ao deserto que tudo rodeia, viram adiante, à mão esquerda, uma casa com sinais de incêndio, mostrando apenas as quatro paredes no ar. A porta do pátio, sem dúvida meio destroçada por um arrombamento, não ardera, o fogo, que tudo arrasara, fora todo dentro. Em casos como este, o passante, quem quer que ele seja, sempre pensa que debaixo dos escombros poderá ter ficado algum tesouro, e, se crê que não há perigo de cair-lhe uma trave em cima, entra para tentar a sua sorte, avança cautelosamente, remexe com a ponta do pé umas cinzas, umas pontas de tições, uns carvões mal ardidos, na ideia de ver surgir de repente, a luzir, a moeda de ouro, o incorruptível diamante, o diadema de esmeraldas. A Tiago e José só a curiosidade os fez entrar, não são ingênuos a ponto de imaginarem que os vizinhos cobiçosos não vieram aqui à procura do que os habitantes da casa não tivessem podido salvar, o provável, porém, sendo a casa tão pequena, é que os bens mais preciosos tenham sido levados, ficando apenas as paredes, que em qualquer lugar se podem levantar outras novas. A abóbada do forno, dentro do que fora a casa, desabou, os ladrilhos do chão, estalados, soltaram-se do cimento e estalam debaixo dos pés, Não há nada, vamo-nos embora, disse Tiago, mas José perguntou, E aquilo ali, que é. Aquilo era uma espécie de estrado de madeira de que tinham ardido as pernas, meio carbonizado todo ele, lembrando um trono largo e comprido, ainda com uns restos pendentes de trapos queimados, É uma cama, disse Tiago, há quem durma em cima dessas coisas, os ricos, os senhores, A nossa mãe também dorme numa, Pois dorme, mas não tem comparação com o que esta deve ter sido, Não parece de ricos uma casa assim, As aparências enganam muito, disse Tiago, argutamente. Ao saírem, José viu que na porta do pátio estava dependurada, para o lado de fora, uma roca de cana, dessas que se usam para colher os figos das figueiras, decerto teria sido mais comprida no tempo da sua utilidade, mas deviam tê-la cortado. Que faz isto aqui, perguntou, e sem esperar resposta, própria sua ou do irmão, despendurou a agora inútil cana e levou-a consigo, recordação de um incêndio, de uma casa queimada, de gente desconhecida. Ninguém os vira entrar, ninguém os viu sair, são só dois irmãos que vão para casa levando as túnicas enfarruscadas e uma negra notícia. A um deles, para se distrair, propôs-lhe o pensamento, e ele aceitou-a, a lembrança de Maria de Magdala, o pensamento do outro é mais activo e menos frustrante, espera encontrar uma maneira de meter a amputada roca nas suas brincadeiras.
Sentada na pedra, à espera de que Jesus volte da pesca, Maria de Magdala pensa em Maria de Nazaré. Até este dia em que estamos, a mãe de Jesus, para ela, fora só isso, mãe de Jesus, agora sabe, porque depois o perguntou, que o seu nome também é Maria, coincidência, em si mesma, de mínima importância, uma vez que são muitas as Marias na terra, e mais hão-de vir a ser se a moda pega, mas nós aventurar-nos-íamos a supor que exista um sentimento de mais próxima fraternidade entre os que levam nomes iguais, é como imaginamos que se sentirá José quando se lembra do outro José que foi seu pai, não filho, mas irmão, o problema de Deus é esse, ninguém tem o nome que ele tem. Levadas a semelhante extremo, não parecem ser tais reflexões produto de um discernimento como o de Maria de Magdala, ainda que não nos falte informação de que o tem muito capaz doutras de não menor alcance, o que elas vão é em direcções diferentes, por exemplo, no caso de agora, uma mulher ama um homem e pensa na mãe desse homem. Maria de Magdala não conhece, de experiência sua, o amor da mãe pelo seu filho, conheceu, enfim, o amor da mulher pelo seu homem, depois de tudo, antes, haver aprendido e praticado do amor falso, dos mil modos de não amor. Quer a Jesus como mulher, mas desejaria querê-lo também como mãe, talvez porque a sua idade não esteja tão longe assim da idade da mãe verdadeira, a que mandou recado para que o filho voltasse, e o filho não voltou, uma pergunta faz Maria de Magdala, que dor irá sentir Maria de Nazaré quando lho disserem, porém não é a mesma coisa que imaginar o que ela própria sofreria se Jesus lhe faltasse, faltar-lhe-ia o homem, não o filho, Senhor, dá-me, juntas, as duas dores, se tiver de ser, murmurou Maria de Magdala esperando Jesus. E quando o barco se aproximou e foi puxado para terra, quando os cestos carregados de peixe escorrendo começaram a ser transportados, quando Jesus, com os pés na água, ajudava ao trabalho e ria como uma criança, Maria de Magdala viu-se a si mesma como se fosse Maria de Nazaré e, levantando se donde estava, desceu até à borda do mar, entrou na água para estar com ele e disse, depois de beijá-lo no ombro, Meu filho. Ninguém ouviu que Jesus tivesse dito, Minha mãe, pois já se sabe que as palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler. Das mãos do arrais do barco receberam Maria e Jesus o cesto de peixe com que lhes era pago o serviço, e, como sempre faziam, recolheram-se os dois à casa onde pernoitariam, porque a sua vida era isto, não ter casa própria, ir de barco em barco e de esteira em esteira, algumas vezes, ao princípio, Jesus disse a Maria, Esta vida não te convém, busquemos uma casa que seja nossa e eu irei estar contigo sempre que seja possível, ao que Maria respondeu, Não quero esperar-te, quero estar onde estiveres. Um dia, Jesus perguntou-lhe se não tinha parentes que pudessem recebê-la, e ela disse que tinha um irmão e uma irmã vivendo na aldeia de Betânia de Judeia, ela Marta, ele Lázaro, mas que os deixara quando se prostituíra e, para que não se envergonhassem dela, fora para longe, de terra em terra, até chegar a Magdala. Então o teu nome deveria ser Maria de Betânia, se lá nasceste, disse Jesus, Sim, foi em Betânia que nasci, mas em Magdala é que me encontraste, por isso de Magdala quero continuar a ser, A mim não me chamam Jesus de Belém, apesar de em Belém ter nascido, de Nazaré não sou porque nem me querem eles nem os quero eu, talvez devesse chamar-me Jesus de Magdala, como tu, pela mesma razão, Lembra-te de que queimamos a casa, Mas não a memória, disse Jesus. De voltar Maria a Betânia não se falou mais, esta borda do mar é para eles o mundo inteiro, onde quer que o homem esteja, estará com ele a obrigação.
Diz o povo, dizemo-lo nós, provavelmente dizem-no os povos todos, sendo como é a experiência dos males tão geral e universal, que debaixo dos pés se levantam os trabalhos. Um tal dito, se não nos enganamos, só podia tê-lo inventado um povo da terra, à custa de tropeções e de topadas, de percalços, esperas e puas assassinas. Depois, em virtude da generalidade e da universalidade já assinaladas, ter-se-á espalhado por todo o orbe, fazendo lei, mas, ainda assim, supomos que com alguma relutância por parte da gente marítima e piscatória que sabe existirem fundíssimas funduras entre os seus pés e o chão, e não poucas vezes abissais abismos. Para o povo do mar os trabalhos não se levantam do chão, para o povo do mar os trabalhos caem do céu, chamam-se vento e ventania, e é por causa deles que se erguem as ondas e as vagas, se geram as tempestades, se rompe a vela, se quebra o mastro, se afunda o frágil lenho, e estes homens da pesca e da navegação onde morrem, verdadeiramente, é entre o céu e a terra, o céu que as mãos não alcançam, o chão a que os pés não chegam. O mar da Galileia é quase sempre um tranquilo, manso e comedido lago, mas lá vem o dia em que as fúrias oceânicas se desmandam para estes lados e é um salve-se quem puder, às vezes, desgraçadamente, nem todos podem. De um caso destes haveremos nós de falar, mas antes é preciso que regressemos a Jesus de Nazaré e a algumas recentes preocupações suas que mostram quanto o coração do homem é um eterno insatisfeito e o simples dever cumprido, afinal, não dá tanta satisfação como nos vêm dizendo os que com pouco se contentam. Sem dúvida, pode-se dizer que graças ao contínuo sobe e desce de Jesus, entre o rio Jordão de cima e o rio Jordão de baixo, não há penúria, nem sequer ocasionais faltas, em toda a margem ocidental, tendo-se até chegado ao ponto de beneficiarem da abundância os próprios que não eram pescadores, pois a fartura do peixe fez baixar os preços, o que, evidentemente, veio a resultar em mais gente a comer mais e mais barato. É verdade que houve uma ou outra tentativa de manter os preços altos pelo conhecido método corporativo de lançar ao mar uma parte do produto da pesca, mas Jesus, de quem em última instância dependia a maior ou menor sorte dos lanços, ameaçou ir-se dali a outra parte, e os prevaricadores da lei nova vieram pedir-lhe desculpa, até ver. Toda a gente, portanto, parece ter razões para sentir-se feliz, mas Jesus não. Pensa ele que não é vida andar constantemente acima e abaixo, a embarcar e a desembarcar, sempre os mesmos gestos, sempre as mesmas palavras, e que, sendo certo que o poder de fazer aparecer o peixe é do Senhor que lhe vem, não se vê razão para que o mesmo Senhor queira que a sua vida se consuma nesta monotonia até que chegue o dia em que for servido chamá-lo, como prometeu. Que o Senhor esteja consigo, não o duvida Jesus, pois o peixe nunca deixa de vir quando o chama, e esta circunstância, por um processo dedutivo inevitável de que aqui não julgamos necessário fazer a demonstração e apresentar a sequência, acabou por levá-lo, com o tempo, a perguntar-se se não haveria acaso outros poderes que o Senhor estivesse disposto a ceder-lhe, não por delegação ou outorga, claro está, apenas emprestados, e com a condição de fazer deles bom uso, o que, como temos visto, Jesus estava em condições de garantir, haja vista o trabalho a que meteu ombros, sem mais que a intuição a ajudá-lo. A maneira de saber era fácil, tão fácil como dizer ai, bastava fazer a experiência, se ela resultasse, era porque Deus estava a favor, se não resultasse, Deus manifestava que estava contra. Simplesmente, havia uma questão prévia a resolver, e essa questão era a da escolha. Não sendo possível consultar directamente o Senhor, Jesus teria de arriscar, seleccionar entre os poderes possíveis o que parecesse oferecer menos resistência e que não desse demasiado nas vistas, porém não tão discreto que passasse despercebido a quem dele viesse a beneficiar e ao mundo, com o que padeceria a glória do Senhor, que em tudo deve prevalecer. Mas Jesus não se decidia, tinha medo de que Deus escarnecesse dele, o humilhasse, como no deserto fizera e podia ter feito depois, ainda hoje se sentia estremecer à lembrança da vergonha que teria sido, quando pela primeira vez disse Lançai a rede deste lado, vê-la subir vazia. Tanto o ocupavam estes pensamentos que uma noite sonhou que alguém lhe dizia ao ouvido, Não temas, lembra-te de que Deus precisa de ti, mas quando acordou teve dúvidas sobre a identidade do conselheiro, podia ser um anjo, dos muitos que andam a fazer os recados do Senhor, podia ser um demônio, dos outros tantos que a Satã servem para tudo, ao seu lado Maria de Magdala parecia dormir profundamente, por isso não podia ter sido ela, nem Jesus pensou que o fosse. Estava-se nisto, e, um dia, que pelos indícios em nada mostrava ir ser diferente dos outros, Jesus foi ao mar para o milagre do costume. O tempo estava carregado, de nuvens baixas, a ameaçar chuva, mas por esse pouco não vai ficar um pescador em casa, bem estaríamos nós se tudo na vida fosse regalos e bem-estar. Calhou a barca ser a de Simão e André, aqueles dois irmãos pescadores que testemunharam o primeiro prodígio, e com ela, de conserva, vai também a dos filhos de Zebedeu, o Tiago e o João, pois que, não sendo o efeito miraculoso igual, sempre o barco que está perto aproveita alguma parte do peixe que vier. O vento forte leva-os rapidamente para o meio do mar e aí, descidas as velas, começam os pescadores, num barco e noutro, a desdobrar as redes, à espera de que Jesus diga para que lado as devem lançar. Estão nisto, quando de repente se levantam os trabalhos na forma de uma tempestade que caiu do céu sem prevenir, porque como prevenção não se podia ter entendido um simples céu coberto, e foi de maneira tal que as vagas eram como as do mar verdadeiro, da altura de casas, empurradas por um vento doido, ora cá, ora lá, e no meio aquelas casquinhas de noz baloiçando sem governo, que a manobra nada podia contra a fúria dos elementos à solta. A gente que estava na margem, vendo o perigo em que se achavam as pobres criaturas já sem defesa, começou em desabalados gritos, havia ali esposas e mães, e irmãs, e filhos pequeninos, alguma sogra de bom feitio, e era um clamor que não se sabe como não chegou ao céu, Ai, o meu querido marido, Ai, o meu querido filho, Ai, o meu querido irmão, Ai, o meu genro, Maldito sejas tu, ó mar, Senhora dos Aflitos, valei-nos, Senhora da Boa Viagem, acudi-lhes, os meninos só sabiam chorar, mas nem assim. Maria de Magdala estava também ali e murmurava, Jesus, Jesus, porém não era por ele que o dizia, pois sabia que o Senhor o tinha guardado para outra altura, não para uma vulgar tormenta no mar, sem mais consequências que morrerem uns tantos afogados, dizia Jesus, Jesus, como se dizê-lo pudesse valer de alguma coisa aos pescadores, que esses, sim, parecia que se lhes ia cumprir ali a sorte. Ora, Jesus, lá na barca, vendo o desânimo e o desbarato que ia nas tripulações em redor, e que as ondas saltavam por cima da borda e alagavam tudo dentro, e que os mastros se partiam levando-os pelos ares as velas soltas, e que a chuva caía em torrentes que só elas chegariam para afundar uma nave do imperador, Jesus, vendo tudo isto, disse consigo mesmo, Não é justo que morram estes homens, ficando eu com vida, sem contar que o Senhor me ralharia de certeza Podias ter salvo os que estavam contigo e não os salvaste, já não te bastou teu pai, a dor desta lembrança fez saltar Jesus, e então, de pé, firme e seguro como se debaixo de si o suportasse um sólido chão, gritou, Cala-te, e isto era para o vento, Aquieta-te, e isto era para o mar, palavras não eram ditas acalmaram se o mar e o vento, as nuvens no céu apartaram-se e o sol apareceu como uma glória, que o é e sempre há-de ser, ao menos para quem vive menos do que ele. Não se imagina o que foi a alegria naqueles barcos, os beijos, os abraços, os choros de alegria em terra, os daqui não sabiam por que tinha acabado assim tão súbito a tempestade, os de além, como ressuscitados, não pensavam senão na vida salva, e se alguns exclamaram, Milagre, milagre, naqueles instantes primeiros não se deram conta de que alguém tinha de ter sido o autor dele. Mas de repente fez-se o silêncio no mar, os outros barcos rodeavam o de Simão e André, e os pescadores todos olhavam Jesus, calados de assombro, apesar do estrondo da tempestade tinham ouvido os gritos, Cala-te, Aquieta-te, e ali estava ele, Jesus, o homem que gritara, o que ordenava aos peixes que saíssem das águas para os homens, o que ordenava às águas que não levassem os homens para os peixes. Jesus tinha-se sentado no banco dos remadores, de cabeça baixa, com uma difusa e contraditória impressão de triunfo e de desastre, como se, tendo subido ao ponto mais alto duma montanha, no mesmo instante começasse a melancólica e inevitável descida. Mas agora, ali postos em círculo, os homens esperavam uma palavra sua, não era bastante ter dominado o vento e amansado as águas, tinha de explicar-lhes como o pudera fazer um simples galileu filho de carpinteiro, quando o próprio Deus parecia tê-los abandonado ao frio abraço da morte. Levantou-se Jesus então e disse, Isto que acabais de ver não o cometi eu, as vozes que afastaram a tempestade não foram dadas por mim, foi o Senhor que falou pela minha boca, eu apenas sou a língua de que Deus se serviu para falar, lembrai-vos dos profetas. Disse Simão, que na mesma barca estava, Assim como fez vir a tempestade, o Senhor podia tê-la mandado embora, e nós apenas diríamos O Senhor a trouxe, o Senhor a levou, mas foram a tua vontade e a tua palavra que nos restituíram a vida salva quando, diante dos olhos de Deus, a críamos perdida, Deus o fez, torno a dizer, não eu. Disse então João, o filho menor de Zebedeu, provando desta maneira que não era tão simples de espírito, Sem dúvida o fez Deus, pois nele moram toda a força e todo o poder, mas fê-lo por intermédio de ti, donde tiro eu a conclusão de que Deus quer que te conheçamos, Já me conhecíeis, De apareceres aqui vindo não sabemos donde, de nos encheres as nossas barcas de peixe não sabemos como, Sou Jesus de Nazaré, filho de um carpinteiro que morreu crucificado pelos romanos, durante um tempo pastor do maior rebanho de ovelhas e cabras que já se viu, agora, convosco, e porventura até à hora da minha morte, pescador. Disse André, o irmão de Simão, Nós outros, sim, é que devemos estar contigo, porque se a um homem comum, como tu dizes ser, foram dados tais poderes e o poder de os usar, pobre de ti, que a solidão te será mais pesada do que uma pedra ao pescoço. Disse Jesus, Ficai comigo, se o coração vo-lo pedir, mas não digais a ninguém nada do que aqui se passou, porque o tempo ainda não é chegado de confirmar o Senhor a vontade que quer executar em mim, se, como diz João, quer Deus que me conheçais. Disse então Tiago, o filho maior de Zebedeu, tão pouco simples, afinal, como seu irmão, Não penses que o povo se vai calar, olha-os além na margem, vê como te esperam para aclamar-te, e alguns, de impaciência, já empurram barcos para a água para virem juntar-se a nós, mas ainda que conseguíssemos moderar-lhes o entusiasmo, ainda que os convencêssemos a guardar, quanto possam, o segredo, terás tu a certeza de que, em qualquer momento, mesmo não o desejando tu, não se manifestará Deus, mais do que na tua presença, por teu intermédio. Jesus deixou pender a cabeça, era uma representação viva da tristeza e do abandono, e disse, Estamos todos nas mãos do Senhor, Tu mais do que nós, disse Simão, porque ele te preferiu, porém nós estaremos contigo, Até ao fim, disse João, Até quando não nos queiras, disse André, Até onde pudermos, disse Tiago. Aproximavam-se os barcos que tinham vindo da margem, acenavam com os braços os que vinham dentro, multiplicavam-se as bênçãos e os louvores, e Jesus, resignado, disse, Vamos, o vinho está no vaso, é preciso bebê-lo. Não procurou Maria de Magdala, sabia que ela o esperava em terra, como sempre, que nenhum milagre alteraria a constância dessa espera, e um contentamento grato e humilde pacificou-lhe o coração. Quando desembarcou, mais do que abraçá-la, abraçou-se nela, escutou, sem surpresa, o que Maria de Magdala lhe disse num murmúrio, rente à orelha, o rosto contra a barba molhada, Perderás a guerra, não tens outro remédio, mas ganharás todas as batalhas, e depois, juntos, saudando ele a um lado e a outro os circunstantes que o festejavam, como um general que regressasse vencedor do seu primeiro combate, subiram, acompanhados dos amigos, o íngreme caminho que levava a Cafarnaúm, a aldeia sobranceira ao mar onde viviam Simão e André, em casa de quem, por esta ocasião, moravam.
Tivera razão Tiago quando augurou mal da esperança de Jesus de que o conhecimento público do milagre da tempestade acalmada pudesse ficar circunscrito aos que o testemunharam. Em poucos dias, não se falava doutra coisa por aqueles arredores, embora, caso estranho, não sendo este mar, como tem sido dito, uma imensidão, podendo, de um ponto alto e com limpeza dos ares, ser visto, por inteiro, de margem a margem e de extremo a extremo, aconteceu que em Tiberíades, por exemplo, ninguém dera pelo temporal, e quando alguém ali chegou com a nova de que um que estava com os pescadores de Cafarnaúm fizera cessar, à sua voz, uma tempestade, a resposta que recebeu foi, Qual tempestade, o que deixou sem fala o informador. Que, porém, houvera tempestade, não se pode duvidar, aí estava para afirmá-lo e jurar o susto que tinham apanhado os protagonistas do episódio, directos e indirectos, nestes se incluindo uns almocreves de Safed e Caná que lá se encontravam por motivo do seu negócio. Foram eles que levaram a notícia para o interior, matizada segundo os arrebatos de imaginação de cada um, mas, enfim, não puderam alcançar a toda a parte, e isto de notícias, sabemos como é, vão perdendo a convicção com o tempo e a distância, e quando a nova, que já tão pouco o era, chegou a Nazaré, não se sabia se o milagre o havia sido realmente, ou apenas uma feliz coincidência entre uma palavra que fora lançada ao vento e um vento que se cansara de soprar. Coração de mãe, porém, não se engana, e a Maria bastaram os quase extintos ecos de um prodígio de que já se começava a duvidar, para, em seu coração, ter a certeza de que o obrara o filho ausente. Chorou pelos cantos o orgulho da sua ínfima autoridade materna, que a fizera ocultar de Jesus o aparecimento do anjo e as revelações de que fora portador, fiando-se de que um simples recado de meia dúzia de palavras reticentes faria regressar a casa quem dela saíra com o seu próprio coração sangrando. Não tinha Maria ao pé de si, para desafogar-se de tristezas tão amargas e dolorosas, a sua filha Lísia, que neste meio201 tempo se casara e fora viver para a aldeia de Caná. A Tiago não ousaria falar, esse viera espumando fúrias do encontro com o irmão, não se calando com a mulher que com ele estava, Podia ser mãe dele, minha mãe, e o ar que ela tinha, de muita experiência da vida e outras coisas que não menciono, ainda que, manda a verdade dizer-se, seja a própria experiência de Tiago escassíssima em termos de comparação, neste buraco do mundo que é a sua aldeia. Desabafou pois Maria com José, esse filho que, pelo nome e parecenças, mais lhe recordava o marido, mas ele não a pôde consolar, Minha mãe, estamos pagando o que fizemos, e o meu temor, eu que vi a Jesus e o ouvi, é que seja para sempre, que de lá onde está não volte nunca, Sabes o que dele se diz, que falou com uma tempestade e ela se acalmou, ouvindo-o, Também sabíamos que com o seu poder enchia de peixe as barcas dos pescadores, a nós o disseram os próprios, Tinha razão o anjo, Que anjo, perguntou José, e Maria contou-lhe tudo quanto com eles havia acontecido, desde o aparecimento do mendigo que lançara na tigela a terra luminosa até ao anjo do seu sonho. Esta conversa não tiveram-na em casa, que aí não era possível, sendo a família ainda tão numerosa, esta gente, sempre que quer falar de assuntos sigilosos, vai para o deserto, onde, calhando, até pode encontrar Deus. Estavam assim conversando quando, em certa altura, viu José passar ao longe, nas colinas a que a mãe virava as costas, um rebanho de ovelhas e cabras com o seu pastor. Pareceu-lhe que o rebanho não era grande, nem alto o pastor, por isso viu e calou. E quando a mãe disse, Nunca mais vejo Jesus, respondeu, pensativo, Quem sabe.
Tinha razão José. Passados uns tempos, coisa de um ano, veio um recado de Lísia para a mãe, convidando-a, em nome dos sogros, a ir a Caná, ao casamento duma sua cunhada, irmã do marido, e que levasse consigo quem entendesse, que todos seriam bem-vindos. Sendo ela a convidada, tinha o direito de escolher quem a deveria acompanhar, mas como, por respeito, não queria tornar-se pesada, posto que poucas coisas serão tão deprimentes como uma viúva com muitos filhos, resolveu levar apenas dois, o agora seu preferido José, e Lídia, a quem, sendo rapariga, nunca festas e distracções sobrariam. Caná não está longe de Nazaré, pouco mais de uma hora de caminho das nossas, e, por este tempo de suave outono, sempre teria sido um passeio dos mais aprazíveis, mesmo que o objectivo final da viagem não fosse um casamento. Saíram de casa mal o sol acabara de nascer para poderem chegar a Caná ainda a tempo de ajudar Maria às últimas tarefas de um acto cerimonial e festivo em que o trabalho está na directa proporção do quanto a gente se alegra e diverte. Veio Lísia ao encontro da mãe e dos irmãos com afectuosas mostras, de um lado se tomaram informações sobre o bem-estar e a saúde, do outro sobre a saúde e a felicidade, e, porque o trabalho urgia, foram logo dali, ela e Maria, para a casa do noivo, onde, segundo o costume, se celebraria a festa, iam a cuidar dos caldeiros com as demais mulheres da família. José e Lídia ficaram no pátio, de brincadeira com os da sua idade, os meninos jogando com os meninos, as meninas dançando com as meninas, até ao momento em que deram fé de que a cerimônia começava. Correram todos, agora sem maior discriminação dos sexos, atrás dos homens que acompanhavam o noivo, os amigos dele, que levavam os archotes da tradição, e isto numa manhã como esta, de tão resplandecente luz, o que, pelo menos, poderá servir para demonstrar que uma luzinha mais, mesmo de archote, nunca é de desprezar, por muito que brilhe o sol. Os vizinhos, com alegre semblante, apareciam a saudar às portas, guardando as bênçãos para daqui a pouco, quando o cortejo regressar trazendo já a noiva. Não chegaram José e Lídia, porém, a ver o resto, de todo o modo nunca seria novidade completa para eles, porquanto haviam tido em seu tempo um casamento na família, o noivo a bater à porta e a pedir para ver a noiva, ela a aparecer rodeada das suas amigas, também estas com luzes, ainda que modestas, simples lamparinas como a mulheres convém, que um archote é coisa de homem pelo fogo e pela dimensão, e depois o noivo a levantar o véu da noiva e a dar um grito de júbilo perante o tesouro que tinha encontrado, como se nestes últimos doze meses, que tantos eram os que o noivado durava, não a tivesse visto mil vezes e com ela ido para a cama quantas lhe apeteceu. Não viram José e Lídia estes números porque, num súbito instante, olhando ele, casualmente, pelo enfiamento duma rua, viu aparecerem lá ao fundo dois homens e uma mulher, e, com a sensação de estar a viver por segunda vez, reconheceu seu irmão Jesus e a mulher que com ele andava. Gritou para a irmã, Olha, é Jesus, ambos correram naquela direcção, mas de repente José parou, lembrara-se da mãe, lembrou-se também da dureza com que o irmão o recebera lá no mar, não a ele, é certo, ao recado que com Tiago fora mandado levar, e, pensando que depois teria de explicar a Jesus por que estava assim procedendo, voltou para trás. Ao virar a esquina da rua, olhou ainda, e, mordido de ciúme, viu o irmão levantar Lídia nos braços como uma pena voando e ela cobrir-lhe a cara de beijos, enquanto a mulher e o outro homem sorriam. Com os olhos nublados de lágrimas de frustração, José correu, correu, entrou na casa, atravessou o pátio aos saltos para evitar pisar as toalhas e as vitualhas dispostas no chão e nas mesas baixinhas, chamou, Mãe, mãe, o que nos salva é termos cada um a nossa voz, não faltariam mães a olharem para um filho que não era o seu, olhou apenas Maria, olhou e compreendeu, quando José lhe disse, Vem aí Jesus, ela já o sabia. Empalideceu, corou, sorriu, ficou séria e pálida outra vez, e o resultado de todas estas alterações foi levar uma mão ao peito como se o coração lhe faltasse e recuar dois passos como se tivesse batido contra um muro. Quem vem com ele, perguntou, porque tinha a certeza de que alguém o acompanhava, Um homem e uma mulher, e a Lídia, que lá ficou, A mulher é a que tu viste, Sim, mãe, mas ao homem não o conheço. Aproximou-se Lísia, apenas curiosa, mal adivinhando, Que é, minha mãe, Teu irmão está aqui e vem ao casamento, Jesus está em Caná, Viu--o José. Não foram tão manifestos os alvoroços de Lísia, mas abriu-se-lhe no rosto um sorriso que parecia não ter de acabar e murmurou, O meu irmão, note-se, para quem o não souber, que é isto o comprazimento, um sorriso como o de Lísia e um murmúrio que vale outro tanto, Vamos ao encontro dele, disse, Vai tu, eu fico aqui, defendeu-se a mãe, e para José, Vai com a tua irmã. Mas José não quis ser segundo nos abraços em que Lídia fora primeira e, porque Lísia sozinha não se atrevia, ali ficaram os três, como culpados à espera duma sentença, incertos sobre a misericórdia do juiz, se as palavras juiz e misericórdia podem ter cabimento neste caso.
Assomou Jesus à porta, trazia Lídia ao colo, e vinha Maria de Magdala atrás, mas antes entrara André, que era ele o outro homem da companhia, parente do noivo como logo se percebeu, dizia para os que acudiram, risonhos, a recebê-lo, Pois não, Simão não pôde vir, e enquanto este encontro de família a uns estava tão felizmente ocupando, outros, ali, olhavam-se por cima de um abismo, perguntando-se qual deles seria o primeiro a pôr um pé na delgada e frágil ponte que, apesar de tudo, ainda unia um lado ao outro lado. Não diremos, como um poeta disse, que o melhor do mundo são as crianças, mas é graças a elas que às vezes os adultos conseguem dar, sem desdouro de orgulho, certos difíceis passos, ainda que depois se venha a ver que o caminho não passou daí. Lídia escorregou dos braços de Jesus e correu para a mãe, e foi como no teatro de fantoches, um movimento obrigou a outro, os dois a um terceiro, Jesus avançou para a mãe e saudou-a, conjuntamente aos irmãos, com as palavras de quem todos os dias se encontra, sóbrias e sem emoção. Feito isso seguiu adiante, deixando Maria como uma transida estátua de sal, e, perdidos, os irmãos. Maria de Magdala foi atrás dele, passou ao lado de Maria de Nazaré, e as duas mulheres, a honesta e a impura, num relance, olharam-se sem hostilidade nem desprezo, antes com uma expressão de mútuo e cúmplice reconhecimento que só aos entendidos nos labirínticos meandros do coração feminino é dado compreender. Já vinha perto o cortejo, ouviam-se os gritos e as palmas, o ruído trêmulo e vibrante das pandeiretas, os sons esparsos e finos das harpas, o ritmar das danças, um vozear de gente falando ao mesmo tempo, no instante após o pátio ficou cheio, os noivos entraram como de empurrão entre vivas e aplausos e foram adiante a receber as bênçãos dos pais e dos sogros, que os esperavam. Maria, que ali ficara, também os abençoou, como abençoara tempos atrás a sua filha Lísia, agora, como então, sem ter a seu lado nem marido nem primogénito que lhe ocupasse, em poder e autoridade, o lugar. Sentaram-se todos, a Jesus foi logo oferecido um lugar de importância porque André, à boca pequena, informara os parentes de que aquele é que era o homem que atraía os peixes às redes e domava as tempestades, mas Jesus recusou a honra e foi sentar-se com os outros, ficando no extremo duma das filas de convidados. A Jesus servia-o Maria de Magdala, que ninguém ali perguntou quem fosse, alguma vez se acercou Lísia, e ele, nos modos, não fez diferenças entre uma e outra. Maria atendia noutro lado, com frequência, nas idas e vindas, cruzava-se com Maria de Magdala, trocavam o mesmo olhar, porém não falavam, até que a mãe de Jesus fez à outra sinal para chegar-se a um recanto do pátio, e disse-lhe, sem preâmbulo, Cuida do meu filho, que um anjo me disse que o esperam grandes trabalhos, e eu não posso nada por ele, Cuidarei, defendê-lo-ia com a minha vida se ela merecesse tanto, Como te chamas, Sou Maria de Magdala e fui prostituta até conhecer o teu filho. Maria ficou calada, na sua mente ordenavam-se, um a um, certos factos do passado, o dinheiro e o que acerca dele haveriam querido insinuar as meias palavras de Jesus, o relato irritado do filho Tiago e as suas opiniões sobre a mulher que acompanhava o irmão, e, agora tudo sabendo, disse, Eu te abençoo, Maria de Magdala, pelo bem que a meu filho Jesus fizeste, hoje e para sempre te abençoo. Maria de Magdala aproximou-se para beijar-lhe o ombro em sinal de respeito, mas a outra Maria lançou-lhe os braços, apertou-a contra si e as duas ficaram abraçadas, em silêncio, até que se separaram e voltaram ao trabalho, que não podia esperar.
A festa continuava, das cozinhas, em correnteza contínua, vinha a comida, das ânforas corna o vinho, a alegria soltava-se em cantos e danças, quando, de repente, um alarme correu secretamente do mordomo até aos pais dos noivos, Que se nos acaba o vinho, avisava. O pesar e a confusão caíram sobre eles como se o tecto lhes tivesse desabado em cima, E agora, que vamos fazer, como diremos aos nossos convidados que se acabou o vinho, amanhã não se falará doutra coisa em Caná, A minha filha, lamentava-se a mãe da noiva, a troça que não vão fazer dela daqui em diante, que no seu casamento até o vinho faltou, não merecíamos esta vergonha, que mau começo de vida. Nas mesas escorripichavam-se os últimos fundos dos copos, alguns convidados já olhavam em redor à procura de quem devia estar a servi-los, e eis que Maria, agora que já transmitira a outra mulher os encargos, deveres e obrigações que o filho recusava receber das suas mãos, quis, num relâmpago de inteligência, ter a sua prova própria dos anunciados poderes de Jesus, posto o que poderia depois recolher-se a casa e ao silêncio, como quem já terminou a sua missão no mundo e só espera que dele o venham retirar. Procurou com os olhos Maria de Magdala, viu-a cerrar lentamente as pálpebras e fazer um gesto de assentimento, e, sem mais demora, chegou-se ao filho e disse-lhe, no tom de quem está certo de não ter de dizer tudo para ser entendido, Não têm vinho. Jesus voltou lentamente a cara para a mãe, olhou a como se ela lhe tivesse falado de muito longe, e perguntou, Mulher, que há entre ti e mim, palavras estas, tremendas, que as ouviu quem ali estava, mas o assombro, a estranheza, a incredulidade, Um filho não trata desta maneira a mãe que lhe deu o ser, farão que o tempo, as distâncias e as vontades busquem para elas traduções, interpretações, versões, matizes que mitiguem a brutalidade e, se tal é possível, deem o dito por não dito ou o ponham a dizer o seu contrário, assim se escreverá no futuro que Jesus disse, Por que vens incomodar-me com isso, ou, Que tenho eu que ver contigo, ou, Quem te mandou meter-te nisto, mulher, ou, Que temos nós com isso, mulher, ou, Deixa-me proceder, não é preciso que mo peças, ou, Por que não mo pedes abertamente, continuo a ser o filho dócil de sempre, ou, Farei como queres, entre nós não há desacordo. Maria recebeu o choque em pleno rosto, suportou o olhar que a repelia, e, desta maneira colocando o filho entre a espada e a parede, rematou o desafio dizendo aos servidores, Fazei o que ele vos disser. Jesus viu a mãe afastar-se, não disse uma palavra, não fez um gesto para a reter, compreendera que o Senhor se havia servido dela como antes se serviu da tempestade ou da necessidade dos pescadores. Levantou o seu copo, onde ainda algum vinho ficara, e disse para os servidores, Enchei de água aquelas talhas, eram seis talhas de pedra que serviam para a purificação, e eles encheram-nas até cima, que cada uma delas levava duas ou três medidas, Chegai-mas cá, disse, e eles assim fizeram. Então Jesus verteu em cada talha uma parte do vinho que tinha no copo, e disse, Levai-as ao mordomo. Ora o mordomo, que não sabia donde lhe vinham as talhas, depois de provar a água que a pequena quantidade de vinho nem chegara a tingir, chamou o noivo e disse-lhe, Toda a gente serve primeiro o vinho bom, e, quando os convidados já beberam bem, serve então o pior, tu, porém, guardaste o vinho bom até agora. O noivo, que nunca em sua vida vira aquelas talhas servirem a vinho e, aliás, de mais sabia ele que o vinho se acabara, provou também e fez cara de quem, com mal fingida modéstia, se limita a confirmar o que tinha por certo, a excelente qualidade do néctar, por assim dizer um vintage. Se não fosse a voz do povo, representada, no caso, por uns servidores que no dia seguinte deram com a língua nos dentes, teria sido um milagre frustrado, pois o mordomo, se desconhecedor estava da transmutação, desconhecedor continuaria, ao noivo convinha, evidentemente, abotoar-se com o feito alheio, Jesus não era pessoa para andar dizendo por aí, Eu fiz os milagres tais e tais, Maria de Magdala, que desde o princípio participara do enredo, não iria pôr-se a fazer publicidades, Ele fez um milagre, ele fez um milagre, e Maria, a mãe, ainda menos, porque a questão fundamental era entre ela e o filho, o mais que aconteceu foi por acréscimo, em todos os sentidos da palavra, digam os convidados se não é assim, eles que voltaram a ter os copos cheios.
Maria de Nazaré e o filho não se falaram mais. Pelo meio da tarde, sem se despedir da família, Jesus foi-se embora com Maria de Magdala pelo caminho de Tiberíades. Escondidos da vista dele, José e Lídia seguiram-no até à saída da aldeia e ali ficaram a olhá-lo até que desapareceu numa curva da estrada.

terça-feira, 5 de março de 2013

Rachel Sheherazade e Sua Diarreia Mental (parodiando Yuri Grecco)



No dia 04 de março de 2013, foi exibida uma matéria sobre a cura de uma menina que nasceu com AIDS no estado do Mississipi, ao Sul Estados Unidos no jornal SBT Brasil às 20h20min. Segundo a reportagem, a cura para o vírus só aconteceu devido ao tratamento precoce ao qual foi a criança foi submetida, portanto, não devemos nos alegrar muito: provavelmente essa cura só aconteceu porque o vírus ainda não havia se “escondido” no organismo da criança. É o segundo caso de cura da AIDS no mundo: o primeiro foi um tanto quanto mais perigoso e caro – um homem recebera uma doação de medula cujo doador possuía algum tipo de resistência sobre o vírus. Sem dúvida alguma é um momento de comemorarmos e torcermos para que mais crianças sejam agraciadas com a cura desta doença para, em seguida, os adultos também serem tratados.
Tudo estava indo às mil maravilhas, até que aquela mulher totalmente desequilibrada (que eu não sei o que está fazendo em rede nacional) abriu a boca para soltar sua opinião ridícula e inflamada de preconceito: sim, eu estou falando dela, a mulher que equivale ao Malafaia e ao Ratinho juntos – Rachel Sheherazade.
No começo do ano, a metralhadora de esterco de Sheherazade se voltou contra os ateus, que queriam a retirada da expressão “Deus seja louvado” das cédulas de real. Segundo a mula jornalista, isso seria “pura falta do que fazer”, se esquecendo de que o principal argumento que favorecia a ação para retirar a expressão era a defesa da Laicidade do Estado – porque o Brasil é sim um Estado Laico. Mas até ai, ok, tudo bem: era uma opinião que, acredito, não fez grandes males a ninguém. Agora, porém, a coisa mudou, e muito, de figura: o alvo foram pessoas que já são fragilizadas (não todas) por estarem portando uma doença que é muitas vezes mal vista, a AIDS (Acquired Immunodeficiency Syndrome – Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). Não sejamos hipócritas: pessoas sem instrução – e algumas vezes pessoas instruídas também – pensam que pegar AIDS é como pegar gripe, basta estar no mesmo lugar, beijar, apertar a mão, abraçar, etc. NÃO! PRA VOCÊ QUE PENSA ASSIM, PARA AGORA DE LER ISSO E VAI LER ALGO SOBRE O ASSUNTO!!
A primeira coisa que esta coisa cidadã disse foi que os heróis da geração da década de 1980 morreram de AIDS. MINHA FILHA, SUA DESEQUILIBRADA: ninguém morre de AIDS, no máximo a pessoa morre com AIDS – percebeu a diferença? Não? Vou dar um exemplo simples: imagine que uma pessoa está com uma unha encravada e sofre um acidente que a leva a óbito. Esta pessoa morreu de unha encravada? NÃO, ela morreu com a unha encravada. Sim, eu sei que não é a mesma coisa, mas é só para ter uma ideia do que eu quero dizer aqui. O HIV é uma doença que provoca uma queda no sistema imunológico, a partir disso, doenças oportunistas vão acometendo a pessoa infectada, levando-a, muitas vezes, a óbito. Por exemplo, uma pessoa com AIDS pode pegar uma gripe que pode evoluir para uma tuberculose. Só então a pessoa morre – simples assim: a pessoa morre com AIDS, mas o que matou a pessoa é a tuberculose. Percebeu agora a diferença?
A segunda coisa que ela disse foi que nos anos 1980 ser diagnosticado com AIDS era praticamente uma sentença de morte. E era mesmo, mas preste atenção na conjugação do verbo: ERA, isso quer dizer que NÃO É MAIS. Realmente, nos anos 80 estar com AIDS era igual a ser homossexual e estar no corredor da morte, mas eu tenho uma surpresa para você, Sheherazade:
NÓS ESTAMOS EM 2013!!!!!
Hoje em dia qualquer pessoa pode ter AIDS (tanto que na reportagem fala-se que metade das pessoas que têm o vírus não sabe disso), mas isso não quer dizer que a pessoa vai morrer e que ela é homossexual. Se formos ter essa visão retrógrada da vida, mulheres não poderiam votar e nem trabalhar, negros seriam ainda considerados uma “raça inferior” e nós seriamos uma sociedade que não avança nenhum passo em décadas. Legal né?
A terceira coisa que ela disse foi que: “criou-se a ilusão que AIDS não mata”, mas como eu já disse, a pessoa não morre de AIDS, mas sim com AIDS.
4°: “As pessoas acham que é possível namorar com AIDS e ter filhos sem AIDS”. PUTA QUE ME PARIU! Então agora quem tem AIDS não pode ter vida? É isso mesmo produção? Ter o vírus é sinônimo de ficar engaiolado dentro de casa sem poder ver ninguém? É o equivalente a ter lepra? NÃO PORRA! Está certo: é uma doença difícil, que não tem uma cura definitiva, mas vamos tocar o barco, sabe? Tem gente com AIDS que vive muito bem, e eu vou dar um exemplo: Valéria Piazza Polizzi, vão atrás do nome desta mulher no Google que você vão ver como ela vive, detalhe, desde os 15 anos (acho) ela é portadora do vírus e não morreu. Inclusive, ela chegou a escrever um livro, “Depois Daquela Viajem”, onde ela fala de como ela contraiu, descobriu e aprendeu a conviver com o vírus.
5°: “Criou-se a ilusão de que é possível viver muito e bem mesmo com AIDS” – bom, segundo a Medicina, e eu confio muito mais no que diz a ciência do que no que esta desequilibrada fala, o tempo para se desenvolverem os sintomas é de até 10 anos, mais o tempo que ela vive com a ajuda do tratamento. Não sei para vocês, mas eu acho que 10 anos é um tempo considerável, não é mesmo? Além do mais, ela disse, viver bem. O que é viver bem? eu conheço pessoas que tem AIDS que saem, trabalham, brincam, comem, dormem, dão risada... se isso não é viver bem eu não sei o que é. Quem não deve viver bem é ela, com essa vontade descontrolada de chamar atenção das pessoas com seus discursos histéricos e ridículos.
6°: “A nova geração baixou a guarda” – nisso eu tenho que concordar; vejo pessoas indo a certos lugares, tendo certo padrão de vida que não é nenhum pouco saudável: se for para ser promíscuo, seja esperto, use camisinha ;)
7°: “Viver com AIDS não é vida, é sobrevida” – quem é ela para dizer o que é vida e o que não é? (¬¬)
8°: “A AIDS faz sofrer” – eu gostaria muito de que a própria Sheherazade estivesse lendo isso, para eu dizer o seguinte: comentários como o seu também fazem. Como eu já havia dito, já há uma fragilização nos portadores do vírus, alguns têm depressão, medo da exclusão, raiva, culpa, e uma série de outros sentimentos. Ouvindo esta imbecil dizer coisas deste nível, como vocês acham que portadores vão se sentir? A pessoa já está em depressão, e ainda ouve falarem que não pode ser feliz com AIDS e tal... O QUE É ISSO MINHA GENTE?
Era aqui que eu queria chegar: uma pessoa com um blog modesto como eu pode-se dar o direito de passar pelo ridículo de expor uma opinião tão idiota sobre um assunto tão sério; mas Sheherazade está em plena televisão, pessoas assistem ao jornal, muitas pessoas. Se quem assiste o jornal é racional o bastante para ver o quão ridícula é a afirmação desta mulher, é uma coisa; mas existem pessoas sem o mínimo senso crítico, que seguem cegamente tudo o que veem e ouvem na televisão, e é por isso que eu tenho medo. Medo de pessoas como Rachel Sheherazade e Silas Malafaia ganharem muito espaço na mídia, de influenciarem pessoas a seguirem o que eles dizem, de ferirem pessoas que são os alvos de suas setas.
Encerro este post emergencial dizendo: estudem, analisem todas as propostas que vocês recebem diariamente – e quando eu digo proposta, quero dizer inclusive ideologias. Verifiquem sempre se o que é dito procede, abram os olhos e a mente. Sejam críticos: evoluam.
 
INDICAÇÕES:
·         Link falando um pouco da história e o que é AIDS/HIV: http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_da_imunodefici%C3%AAncia_adquirida;
·         Vídeo do Yuri Grecco sobre Rachel Sheherazade (sobre a retirada da expressão “Deus seja louvado”):
·         Link com uma pequena biografia da Valéria Piazza Polizzi (aidética desde os 16 anos):
·         Resumo do livro “Depois Daquela Viagem”:
·         Comprem o livro, é barato e vale a pena.


segunda-feira, 4 de março de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS (Capítulo XIX)




Passados meses, numa chuvosa e fria noite de inverno, um anjo entrou em casa de Maria de Nazaré, e foi o mesmo que se não tivesse entrado ninguém, pois a família assim como estava assim se deixou ficar, só Maria deu pela chegada do visitante, que nem teria podido ela dar-se por desentendida, uma vez que o anjo lhe dirigiu directamente a palavra, e foi assim, Deves saber, ó Maria, que o Senhor pôs a sua semente de mistura com a semente de José na madrugada em que concebeste pela primeira vez, e que, por conseguinte e consequência, dela, da do Senhor, e não da do teu marido, ainda que legítimo, é que foi engendrado o teu filho Jesus. Ficou Maria muito assombrada com a notícia, cuja substância, felizmente, não se perdeu na elocução confusa do anjo, e perguntou, Então Jesus é filho de mim e do Senhor, Mulher, que falta de educação, deves ter cuidado com as hierarquias, com as precedências, do Senhor e de mim é que deverias dizer, Do Senhor e de ti, Não, do Senhor e de ti, Não me baralhes a cabeça, responde-me ao que te perguntei, se Jesus é filho, Filho, o que se chama filho, é só do Senhor, tu, para o caso, não passaste de ser uma mãe portadora, Então, o Senhor não me escolheu, Qual quê, o Senhor ia só a passar, quem estivesse a olhar tê-lo-ia percebido pela cor do céu, mas reparou que tu e José eram gente robusta e saudável, e então, se ainda te lembras de como estas necessidades se manifestavam, apeteceu-lhe, o resultado foi, nove meses depois, Jesus, E há a certeza, o que se chame certeza, de que tenha sido mesmo a semente do Senhor que engendrou o meu primeiro filho, Bom, a questão é melindrosa, o que tu estás a pretender de mim é, sem tirar nem pôr, uma investigação de paternidade, quando a verdade é que, nestes conúbios mistos, por muitas análises, por muitos testes, por muitas contagens de glóbulos que se façam, certezas nunca as podemos ter absolutas, Pobrezinha de mim, que cheguei a imaginar, ouvindo-te, que o Senhor me havia escolhido para ser a sua esposa naquela madrugada, e afinal foi tudo obra de um acaso, tanto poderá ser que sim como poderá ser que não, digo-te até que melhor seria não teres descido aqui na Nazaré para vires deixar-me nesta dúvida, aliás, se queres que te fale com franqueza, um filho do Senhor, mesmo tendo-me a mim como mãe, dávamos por ele logo ao nascer, e quando crescesse teria, do mesmo Senhor, o porte, a figura e a palavra, ora, ainda que se diga que o amor de mãe é cego, o meu filho Jesus não satisfaz as condições, Maria, o teu primeiro grande engano é julgares que eu vim cá apenas para te falar desse antigo episódio da vida sexual do Senhor, o teu segundo grande engano é pensares que a beleza e a facúndia dos homens existem à imagem e semelhança do Senhor, quando o sistema do Senhor, digo-to eu que sou da casa, é ele ser sempre o contrário de como os homens o imaginam, e, aqui muito em confidência, eu até acho que o Senhor não saberia viver doutra maneira, a palavra que mais vezes lhe sai da boca não é o sim, mas o não, Sempre ouvi eu dizer que o Diabo é que é o espírito que nega, Não, minha filha, o Diabo é o espírito que se nega, se no teu coração não deres pela diferença, nunca saberás a quem pertences, Pertenço ao Senhor, Pois é, dizes que pertences ao Senhor e caíste no terceiro e maior dos enganos, que foi o de não teres acreditado no teu filho, Em Jesus, Sim, em Jesus, nenhum dos outros viu Deus, ou alguma vez o verá, Diz-me, anjo do Senhor, é mesmo verdade que meu filho Jesus viu Deus, Sim, e, como uma criança que encontrou o seu primeiro ninho, veio a correr mostrar-to, e tu, céptica, e tu, desconfiada, disseste que não podia ser verdade, que se ninho havia estava vazio, que se ovos tinha, eram goros, e que se os não tinha, comera-os a serpente, Perdoa-me, meu anjo, por ter duvidado, Agora não sei se estás a falar comigo, ou com o teu filho, Com ele, contigo, com ambos, que posso eu fazer para emendar o mal feito, Que é que te aconselharia o teu coração de mãe, Que fosse procurá-lo, dizer-lhe que creio nele, pedir que me perdoe e volte para casa, aonde o Senhor o virá chamar, em chegando a hora, Francamente, não sei se vais a tempo, não há nada mais sensível do que um adolescente, arriscas-te a ouvir más palavras e a levar com a porta na cara, Se tal acontecer, a culpa tem-na aquele demônio que o embruxou e perdeu, nem sei como o Senhor, sendo pai, lhe consentiu tais liberdades, tanta rédea solta, De que demônio falas, Do pastor com quem o meu filho andou durante quatro anos, a governar um rebanho que ninguém sabe para que serve, Ah, o pastor, Conhecê-lo, Andamos na mesma escola, E o Senhor permite que um demônio como ele perdure e prospere, Assim o exige a boa ordem do mundo, mas a última palavra será sempre a do Senhor, só não sabemos é quando a proferirá, mas vais ver que uma manhã destas acordamos e descobrimos que não há mal no mundo, e agora devo ir-me, se tens mais algumas perguntas a fazer, aproveita, Só uma, óptimo, Para que quer o Senhor o meu filho, Teu filho é uma maneira de dizer, Aos olhos do mundo Jesus é meu filho, Para que o quer, perguntas tu, pois olha que é uma boa pergunta, sim senhor, o pior é que não sei responder-te, a questão, no estado actual, é toda entre eles dois, e Jesus não creio que saiba mais do que a ti te terá dito, Disse-me que terá poder e glória depois de morrer, Dessa parte também estou informado, Mas que irá ele ter de fazer em vida para merecer as maravilhas que o Senhor lhe prometeu, Ora, ora, tu crês, ignorante mulher, que essa palavra exista aos olhos do Senhor, que possa ter algum valor e significado o que presunçosamente chamais merecimentos, em verdade não sei que é que vos julgais, quando não passais de míseros escravos da vontade absoluta de Deus, Nada mais direi, sou realmente a escrava do Senhor, cumpra-se em mim segundo a sua palavra,diz-me só, depois de todos estes meses passados, onde poderei encontrar o meu filho, Procura-o, que é a tua obrigação, ele também foi à procura da ovelha perdida, Para matá-la, Sossega, que a ti não te matará, mas tu, sim, o matarás a ele, não estando presente na hora da sua morte, Como sabes que não morrerei eu primeiro, Estou bastante próximo dos centros de decisão para sabê-lo, e agora adeus, fizeste as perguntas que querias, talvez não tenhas feito alguma que devias, mas isso é assunto que já não me diz respeito, Explica-me, Explica-te tu a ti própria. Com a última palavra, o anjo desapareceu e Maria abriu os olhos. Todos os filhos dormiam, os rapazes em dois grupos de três, Tiago, José e Judas, os mais velhos, a um canto, noutro canto os mais novos, Simão, Justo e Samuel, e com ela, uma de cada lado, como de costume Lísia e Lídia, mas os olhos de Maria, perturbados ainda pelos anúncios do anjo, arregalaram-se-lhe de repente, estarrecidos, ao ver que Lísia estava toda descomposta, praticamente nua, a túnica arregaçada por cima dos seios, e dormia profundamente, e suspirava sorrindo, com o brilho de um leve suor na testa e sobre o lábio superior, que parecia mordido de beijos. Se não fosse a certeza de ter estado ali apenas um anjo conversador, os sinais mostrados por Lísia fariam gritar e clamar que um demônio íncubo, desses que acometem maliciosamente as mulheres adormecidas, andara a fazer das suas no desprevenido corpo da donzela, enquanto a mãe se deixava distrair com a conversa, provavelmente foi sempre assim e nós que não o sabíamos, andarem estes anjos aos pares para onde quer que vão, e enquanto um, para entreter e fazer costas, se põe a contar histórias da Carochinha, o outro, calado, opera o actus nefandus, maneira de dizer, que nefando em rigor não é, tudo indicando que na vez seguinte se trocarão as funções e as posições para que não se perca, nem no sonhador nem no sonhado, o beneficioso sentido da dualidade da carne e do espírito. Maria cobriu a filha como pôde, puxando-lhe a túnica até à altura do que é impróprio estando descoberto, e, quando a teve decente, acordou-a e perguntou-lhe em voz baixa, por assim dizer à queima-roupa, Que estavas a sonhar. Apanhada de surpresa, Lísia não podia mentir, respondeu que sonhara com um anjo, mas que o anjo nada lhe dissera, apenas olhara para ela, e era um olhar tão meigo e tão doce que melhores não poderão ser os olhares no paraíso. Não te tocou, perguntou Maria, e Lísia respondeu, Ó minha mãe, os olhos não servem para isso. Sem bem saber se devia tranquilizar-se ou preocupar-se com o que se passara a seu lado, Maria, em voz ainda mais baixa, disse, Eu também sonhei com um anjo, E o teu, falou, ou também esteve calado, perguntou Lísia, inocentemente, Falou para me dizer que teu irmão Jesus dissera a verdade quando nos anunciou que tinha visto Deus, Ai, minha mãe, que mal fizemos então, não acreditamos na palavra de Jesus, e ele tão bom, que, de zangado, até podia ter levado o dinheiro do meu dote, e não o fez, Agora temos de ver como o remediaremos, Não sabemos onde está, notícias não deu, o anjo é que bem podia ter ajudado, sabem tudo, os anjos, Pois não, não ajudou, só me disse que procurássemos o teu irmão, que era esse o nosso dever, Mas, ó minha mãe, se afinal foi verdade que o mano Jesus esteve com o Senhor, então a nossa vida, daqui por diante, vai ser diferente, Diferente, talvez, mas para pior, Porquê, Se nós não acreditamos em Jesus nem na sua palavra, como esperas que os outros acreditem, com certeza não quererás que vamos aí pelas ruas e praças de Nazaré a apregoar Jesus viu o Senhor Jesus viu o Senhor, seríamos corridas à pedrada, Mas o Senhor, visto que o escolheu, nos defenderia, que somos a família, Não estejas tão certa disso, quando o Senhor fez a sua escolha, nós não estávamos lá, para o Senhor não há pais nem filhos, lembra-te de Abraão, lembra-te de Isaac, Ai, mãe, que aflição, O mais prudente, filha, é guardarmos estas coisas nos nossos corações e falarmos delas o menos possível, Então, que faremos, Amanhã mandarei Tiago e José a procurar Jesus, Mas onde, se a Galileia é imensa, e a Samaria, se para lá foi, ou a Judeia, ou a Idumeia, que essa está no cabo do mundo, O mais provável é teu irmão ter ido para o mar, recorda-te do que ele nos disse quando veio, que tinha andado com uns pescadores, E não teria antes voltado para o rebanho, Esse tempo acabou, Como sabes, Dorme, que a manhã ainda vem longe, Pode ser que tornemos a sonhar com os nossos anjos, Pode ser. Se o anjo de Lísia, acaso tendo fugido à companhia do parceiro, veio habitar-lhe outra vez o sono, não se chegou a perceber, mas o anjo do anúncio, mesmo se se esqueceu de algum pormenor, não pôde voltar, porque Maria esteve sempre de olhos abertos na meia escuridão da casa, o que sabia sobrava-lhe, o que adivinhava temia.
Nasceu o dia, enrolaram-se as esteiras, e Maria, diante da família reunida, fez saber que tendo pensado muito nos últimos tempos sobre o modo como haviam procedido com Jesus, A começar por mim, que, sendo a mãe, deveria ter sido mais benévola e compreensiva, cheguei a uma conclusão muito clara e justa, de que deveremos ir procurá-lo e pedir-lhe que torne a casa, pois nele cremos e, querendo-o o Senhor, viremos a crer no que nos disse, foram estas as palavras de Maria, que não deu fé de estar a repetir o que havia dito o seu filho José, ali presente, na hora dramática da rejeição, quem sabe se Jesus ainda aqui não estaria hoje se aquele murmúrio discreto, que o foi, de facto, embora na altura não o tivéssemos feito notar, se tivesse tornado em voz de todos. Maria não falou de anjo nem de anúncio de anjo, apenas do simples dever de todos para com o primogénito. Não ousou Tiago pôr em dúvida os pontos de vista novos, ainda que, lá no íntimo, não arredasse pé da convicção de que o irmão estava falho do juízo, ou, quando muito, eventualidade sempre a ter em conta, fora objecto duma repugnante mistificação de gente ímpia. Prevendo já a resposta, perguntou, E quem, dos que aqui estão, irá procurar o mano Jesus, Tu irás, que és o irmão a seguir, e José irá contigo, juntos andareis mais seguros, Por onde começaremos a procurar, Pelo mar da Galileia, tenho a certeza de que aí o encontrareis, Quando partimos, Passaram meses depois que Jesus se foi, não devemos perder nem mais um dia, Chove muito, minha mãe, o tempo não está bom para viagem, Filho, a ocasião pode sempre criar uma necessidade, mas se a necessidade é forte, terá de ser ela a fazer a ocasião. Os filhos de Maria olharam-na surpreendidos, em verdade não estavam habituados a ouvir da boca da mãe sentenças tão acabadas, ainda são muito novos para saberem que a frequentação dos anjos produz destes e doutros ainda melhores resultados, a prova, sem que os de mais o suspeitem, está Lísia a dá-la neste mesmo momento, pois outra coisa não significa o seu lento, sonhador movimento afirmativo de cabeça. Terminou o conselho de família, Tiago e José foram ver se os meteoros do ar estavam de feição, que, tendo eles de ir à descoberta de um irmão em tempo tão ruim, ao menos que pudessem sair ao campo numa estiada, ora foi o caso tal que pareceu que estivera a ouvi-los o céu, pois justamente do lado do mar da Galileia se estava agora abrindo um azul aguado que parecia prometer uma tarde aliviada da chuva. Feitas as despedidas dentro da casa, discretamente, por entender Maria que não tinham os vizinhos que saber mais do que convinha, partiram enfim os dois irmãos, não pelo caminho que a Magdala levava, pois não tinham motivo para pensar que Jesus seguira essa direcção, mas por um outro, o que, directamente, e com maior comodidade, os levaria à nova cidade de Tiberíades. Iam descalços porque, com os caminhos transformados num lamaçal, em pouco tempo se lhes cairiam desfeitas dos pés as sandálias, agora a salvo nos alforjes, à espera de tempo mais benigno. Duas boas razões teve Tiago para escolher a estrada de Tiberíades, sendo a primeira a sua própria curiosidade de aldeão que ouvira falar de palácios, templos e outras grandezas similares em construção, e a segunda estar situada a cidade, segundo ouvira contar, entre os extremos norte e sul da margem de cá, mais ou menos a meio caminho. Como teriam de ganhar a vida enquanto durasse a busca, esperava Tiago que fosse fácil arranjarem trabalho nas obras da cidade, apesar do que diziam os judeus devotos de Nazaré, que o local era impuro por causa dos ares malsãos e das águas sulfurosas que havia ali por perto. Não puderam chegar a Tiberíades ainda nesse dia porque as promessas do céu, afinal, não se cumpriram, não passara ainda uma hora de caminho começou a chover, e muita sorte foi terem encontrado uma cova onde felizmente couberam e se abrigaram antes que a chuva tivesse maneira de levá-los de enxurrada. Ali dormiram, e, na manhã do dia seguinte, tornados desconfiados pela experiência, tardaram a convencer-se de que o tempo melhorara para valer e de que poderiam chegar a Tiberíades com a roupa do corpo mais ou menos enxuta. O trabalho que arranjaram nas obras foi o de acarretar pedra, que para mais não dava o saber de um e do outro, felizmente que ao cabo de uns poucos dias encontraram que já tinham ganho o suficiente, não porque o rei Herodes Ântipas fosse generoso pagador, mas porque, sendo tão poucas e tão pouco instantes as necessidades, com elas se podia viver sem ter de satisfazê-las por completo. Logo nesta Tiberíades perguntaram se ali estivera ou por ali tinha passado um tal Jesus de Nazaré, que é nosso irmão, de figura assim assim, modos assim assado, se anda acompanhado, isso é que nós não sabemos. Disseram-lhes que naquela obra não, e eles deram a volta a todos os estaleiros da cidade, até se certificarem de que Jesus nunca aqui havia estado, o que nem era tanto para admirar, pois se o irmão decidira regressar ao seu começado ofício de pescador, com certeza não ia deixar-se ficar, tendo o mar ali à vista, a penar entre duras pedras e duríssimos capatazes. Com o dinheiro ganho, ainda que escasso, a questão que tinham de resolver agora era se a busca ao longo da margem, povoado a povoado, companha a companha, barco a barco, deveria continuar para o norte ou para o sul. Tiago acabou por escolher o sul por lhe parecer ser mais fácil caminho, quase raras as margens, enquanto para norte a orografia se tornava mais acidentada. O tempo estava seguro, o frio suportável, fora-se a chuva, e quaisquer sentidos da natureza mais experientes do que os destes dois moços seriam mesmo capazes de perceber, pelo cheiro dos ares e palpitar do chão, uns primeiros tímidos indícios de primavera. A busca do irmão pelos irmãos, por razões superiores ordenada, estava a transformar-se em excursão amável e egoísta, passeio ao campo, férias na praia, pouco parecia faltar já para que Tiago e José se esquecessem do que tinham vindo fazer para estes lados, quando, de repente, logo nos primeiros pescadores que encontraram, souberam notícias de Jesus, e ainda por cima dadas da mais estranha maneira, pois estas foram as palavras dos homens, Vimo-lo, sim, e conhecemo-lo, e se andais em busca dele dizei-lhe, se o encontrardes, que aqui o estamos esperando como quem espera o pão de cada dia. Assombraram-se os dois irmãos e não puderam acreditar que os pescadores estivessem a falar da pessoa de Jesus, ou então seria outro o Jesus que eles conheciam, Pelos sinais que nos destes, responderam os pescadores, é o mesmo Jesus, se veio de Nazaré não sabemos, que ele não o disse, E por que dizeis que o esperais como ao pão de cada dia, perguntou Tiago, Porque, estando ele dentro de um barco, sempre o peixe vem às redes como nunca em tempo nenhum se viu, Mas o nosso irmão não tem artes bastantes de pescador, logo não é o mesmo Jesus, Nem nós dissemos que este Jesus tem arte de pescador, ele não pesca, apenas diz Lançai a rede deste lado, e nós lançamos e a rede vem cheia, Sendo assim, por que não está ele convosco, Porque se vai embora passados uns dias, diz que tem de ir ajudar outros pescadores, e realmente assim é, pois connosco já esteve três vezes e de cada vez disse que voltava, E agora, onde está ele, Não sabemos, da última vez que aqui esteve foi para o sul, mas também pode ser que tenha ido para o norte sem que nós nos apercebêssemos, ele aparece e desaparece segundo a sua vontade. Disse Tiago para José, Vamos nós então para o sul, pelo menos já sabemos que o nosso irmão anda por esta borda do mar. Parecia fácil, mas há que atender que, ao passarem, Jesus podia estar ao largo numa barca, entregue a uma das suas miraculosas pescas, em geral não damos importância a estes pormenores, mas o destino não é nada do que julgamos, pensamos que está tudo determinado desde um princípio qualquer, quando a verdade é muito diferente, repare-se que para que possa cumprir-se o destino de um encontro de umas pessoas com outras, como no caso de agora, é preciso que elas consigam encontrar-se num mesmo ponto e à mesma hora, o que custa não pouco trabalho, bastava que nos demorássemos, pouco que fosse, a olhar uma nuvem no céu, a escutar o canto duma ave, a contar as entradas e saídas de um formigueiro, ou, pelo contrário, que por distracção não olhássemos nem ouvíssemos nem contássemos e seguíssemos adiante, e lá se deitava a perder o que tão bem ensejado parecia, o destino é o mais difícil que há no mundo, mano José, já verás quando chegares à minha idade. Postos assim de sobreaviso, os dois irmãos iam olhando com mil olhos, faziam paragens no caminho à espera de ver regressar um barco que se demorava, e algumas vezes voltaram subitamente para trás, na mira de surpreenderem pelas costas um possível aparecimento de Jesus em local inesperado. Assim chegaram ao fim do mar. Passaram o rio Jordão para o outro lado e aos primeiros pescadores que encontraram perguntaram por Jesus. Tinham ouvido falar, sim senhor, dele e da sua magia, mas por ali não aparecera. Tornaram Tiago e José sobre os seus passos, rumo ao norte, redobrando de atenção, também eles como pescadores que fossem levando uma rede de arrasto, na esperança de levantarem o rei dos peixes. Uma noite que dormiram no caminho, fizeram quartos de sentinela, não fosse aproveitar Jesus a claridade do luar para ir de um sítio para outro, pela calada. Andando e perguntando chegaram à altura de Tiberíades, aonde não precisaram subir a buscar trabalho, pois ainda não se lhes acabara o dinheiro, para o que concorrera a hospitalidade dos pescadores que lhes davam peixe, o que fez dizer uma vez a José, Mano Tiago, já pensaste que este peixe que estamos a comer pode ter sido pescado pelo nosso irmão, e Tiago respondeu, Não sabe melhor por isso, palavras más que não se esperariam de um amor fraternal, mas que a irritação de quem anda à procura de uma agulha num palheiro, salvo seja, justifica.
Encontraram Jesus aí a uma hora de caminho, hora das nossas, queremos dizer, depois de Tiberíades. O primeiro a avistá-lo foi José, que tinha uns olhos finíssimos a ver ao longe, É ele, além, exclamou. Realmente vêm nesta direcção duas pessoas, mas uma é mulher, e Tiago diz, Não é ele. Um irmão mais novo nunca teima com um irmão mais velho, mas José, de contentamento, não está disposto a respeitar normas nem conveniências, Digo-te que é ele, Mas vem lá uma mulher, Vem lá uma mulher, e vem um homem, e o homem é Jesus. Pelo carreiro ao longo da margem, num campo que aqui era plano, entre duas colinas cujos sopés quase tocavam a água, vinham caminhando Jesus e Maria de Magdala. Tiago parou, à espera, e disse a José que ficasse com ele. O moço obedeceu, contrariado, porque o seu desejo era correr para o irmão finalmente encontrado, abraçá-lo, saltar-lhe ao pescoço. A Tiago perturbava-o a criatura que vinha com Jesus, quem seria, não queria acreditar que o irmão já conhecesse mulher, mas sentia que essa simples probabilidade o colocava, a si, a uma distância infinita do primogénito, como se Jesus, que se gloriara de ter visto Deus, só por esta razão, afinal, de conhecer mulher, é que pertencesse a um mundo definitivamente outro. De uma reflexão se vai à seguinte, e muitas vezes chega-se lá sem dar pelo caminho que uniu as duas, é como ir de uma margem à outra de um rio por uma ponte coberta, vínhamos andando e não víamos para onde, passamos um rio que não sabíamos existir, assim foi que Tiago, sem perceber como, se achou a pensar que não era próprio ter-se deixado ali ficar parado, como se ele é que fosse o primogênito a quem o irmão devesse vir saudar. O seu movimento libertou José, que correu para Jesus de braços abertos, com gritos de pura alegria, fazendo levantar um bando de aves que, escondidas pelas ervas altas da margem, catavam no lodo o sustento. Tiago apressou o passo para impedir que José tomasse à sua conta recados que só a si pertenciam, em pouco tempo estava diante de Jesus e dizia, Graças dou ao Senhor por haver querido que encontrássemos o irmão que buscávamos, e Jesus respondeu, Graças dou por vos ver de boa saúde. Maria de Magdala parara, um pouco atrás. Jesus perguntou, Que viestes fazer a estes lugares, irmãos, e Tiago disse, Afastemo-nos um pouco a esta parte para que em sossego possamos falar, Em sossego já estamos, respondeu Jesus, e se por causa desta mulher é que o disseste, fica sabendo que tudo quanto tenhas para informar-me, e eu queira ouvir de ti, o pode ouvir ela também como se fosse eu próprio. Houve um silêncio tão denso, tão alto, tão profundo que parecia que era um silêncio do mar e dos montes concertados, e não o de quatro simples pessoas frente a frente, tomando forças. Jesus parecia ainda mais homem do que antes, mais escuro de pele, mas quebrara-se-lhe a febre do olhar, e o rosto, sob a espessa barba negra, mostrava-se apaziguado, tranquilo, apesar da visível crispação causada pelo encontro inesperado. Quem é essa mulher, perguntou Tiago, Chama-se Maria e está comigo, respondeu Jesus, Casaste-te, Sim, mas não, não, mas sim, Não compreendo, Nem eu contava que compreendesses, Devo falar-te, Fala, então, Trago recado da nossa mãe, Estou a ouvir-te, Preferia dar-to a sós, Ouviste o que eu disse. Maria de Magdala deu dois passos, Posso retirar-me para onde não vos oiça, disse, Não há na minha alma um pensamento que não conheças, é portanto justo que saibas que pensamentos teve minha mãe a meu respeito, assim poupar-me-ás o trabalho de tos contar depois, respondeu Jesus. A irritação fez subir o sangue à cara de Tiago, que deu um passo atrás, como para retirar-se, ao mesmo tempo em que lançava a Maria de Magdala um olhar de cólera, mas onde se percebia também um sentimento confuso, de cobiça e rancor. No meio dos dois, José estendia as mãos para retê-los, era tudo quanto podia fazer. Enfim, Tiago acalmou-se, e, após uma pausa de concentração mental, para recordar-se, recitou, Mandou-nos a nossa mãe procurar-te para te pedir que tornes a casa, pois em ti cremos e, querendo-o o Senhor, viremos a crer no que nos disseste, Só isso, Foram estas as suas palavras, Queres então dizer que, por vós, nada fareis para crer no que vos contei, que apenas ficareis à espera de que o Senhor mude o vosso entendimento, Entender, ou não entender, tudo está nas mãos do Senhor, Enganas-te, o Senhor deu-nos pernas para que andássemos e nós andamos, que eu saiba nunca homem algum esperou que o Senhor lhe ordenasse Caminha, com o entendimento é o mesmo, se o Senhor no-lo deu foi para que o usássemos segundo o nosso desejo e a nossa vontade, Não discuto contigo, Fazes bem, não ganharias a discussão, Que resposta devo levar à nossa mãe, Diz-lhe que as palavras do seu recado chegaram tarde de mais, que essas mesmas palavras as soube dizer a tempo José e ela não as tomou para si, e que ainda que um anjo do Senhor lhe apareça a confirmar tudo quanto eu vos narrei, convencendo-a enfim a ela a vontade do Senhor, a casa não tornarei, Caíste em pecado de orgulho, Uma árvore geme se a cortam, um cão gane se lhe batem, um homem cresce se o ofendem, É tua mãe, somos teus irmãos, Quem é a minha mãe, quem são os meus irmãos, meus irmãos e minha mãe são aqueles que creram na minha palavra na mesma hora em que eu a proferi, meus irmãos e minha mãe são aqueles que em mim confiam quando vamos ao mar para do que lá pescam comerem com mais abundância do que comiam, minha mãe e meus irmãos são aqueles que não precisem esperar a hora da minha morte para se apiedarem da minha vida, Não tens outro recado para levar, Outro recado não tenho, mas ouvireis falar de mim, respondeu Jesus, e, virando-se para Maria de Magdala, disse, Vamo-nos, Maria, os barcos estão a sair para a pesca, os cardumes reúnem-se, é tempo de ceifar esta seara. Já se afastavam quando Tiago gritou, Jesus, tenho de dizer à nossa mãe quem é essa mulher, Diz-lhe que está comigo e se chama Maria, e a palavra ecoou entre as colinas e sobre o mar. Estendido no chão, José chorava de desgosto.


sexta-feira, 1 de março de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS (Capítulo XVIII)




Acabara de pôr-se o sol quando Jesus tornou a pisar o chão de Nazaré, quatro longos anos contados, mais semana menos semana, sobre aquele dia em que daqui fugiu, criança ainda, afligido por um mortal desespero, para ir pelo mundo à procura de alguém que o ajudasse a entender a primeira verdade insuportável da sua vida. Quatro anos, mesmo arrastados, podem não ser o bastante para sarar uma dor, mas, no geral, adormecem-na. Perguntara no Templo, refizera os caminhos da montanha com o rebanho do Diabo, encontrara Deus, dormira com Maria de Magdala, este homem que para cá vem não parece já sofrer, tirando aquela umidade dos olhos de que temos falado, mas que, se bem ponderarmos as causas possíveis, também poderia ser um efeito tardio do fumo dos sacrifícios, ou um arrebato da alma produzido pelos horizontes das altas pastagens, ou o medo de quem sozinho no deserto ouviu dizer Eu sou o Senhor, ou, enfim, quiçá o mais provável por mais próximo estar, a ânsia e a lembrança de um corpo ainda há poucas horas deixado, Confortai-me com uvas passas, fortalecei-me com maçãs, porque desfaleço de amor, esta doce verdade poderia vir dizê-la Jesus a sua mãe e seus irmãos, mas o passo suspendeu-se-lhe no limiar da porta, Quem são minha mãe e meus irmãos, pergunta, não é que ele o não saiba, a questão é se sabem eles quem ele é, aquele que perguntou no Templo, aquele que contemplou os horizontes, aquele que encontrou Deus, aquele que conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem. Neste mesmo sítio, em frente da porta, esteve em tempos um mendigo que disse ser um anjo e que, podendo, se anjo era, irromper pela casa dentro, levando consigo o tufão das suas revoltas asas, preferiu bater, e com palavras de mendigo pedir esmola. A porta está fechada apenas com a tranqueta. Jesus não vai precisar chamar como teve de fazer lá em baixo em Magdala, entrará tranquilamente nesta casa que é sua, veja-se como vem curado da chaga do pé, é certo que são as mais fáceis de curar, as de sangue e de pus. Não precisava bater, mas bateu. Ouvira vozes por trás do muro, reconheceu, mais distante, a da mãe, mas não teve ânimo de empurrar simplesmente a porta e anunciar, Aqui estou, como alguém que, sabendo-se desejado, quer fazer a surpresa que a todos irá tornar felizes. Quem veio abrir foi uma menina pequena, de uns oito ou nove anos, que não reconheceu o visitante, a voz do sangue não lhe acudiu a dizer, Este homem é teu irmão, não te lembras, o Jesus, o primogénito, foi ele quem disse, apesar dos quatro anos acrescentados à idade de um e do outro e do lusco-fusco da hora, Chamas-te Lídia, e ela respondeu, Sim, pronta a maravilhar-se por um desconhecido saber o seu nome, mas ele quebrou os encantamentos todos, dizendo, Sou o teu irmão Jesus, deixa-me passar. No pátio, junto à casa e debaixo do alpendre, viu vultos que eram como sombras, seriam os seus irmãos, e agora olhavam na direcção da porta, dois deles, os mais velhos dos rapazes, Tiago e José, aproximavam-se, não tinham ouvido o que Jesus dissera, mas não merecia a pena virem identificar o visitante, Lídia já gritava, entusiasmada, É Jesus, é o nosso irmão, então todas as sombras se moveram e à porta da casa apareceu Maria, estava Lísia com ela, a outra filha, quase tão alta como a mãe, e ambas exclamaram, que parece que o disseram com a mesma voz, Ai o meu filho, Ai o meu irmão, no instante seguinte estavam todos abraçados ali no meio do pátio, era, verdadeiramente, a alegria das famílias reencontradas, acontecimento em geral notável, sobretudo, como é o caso, quando foi o próprio primogénito quem regressou aos nossos carinhos e cuidados. Jesus saudou a mãe, saudou cada um dos irmãos, por todos eles foi saudado com calorosas expressões de boas-vindas, Mano Jesus, que bom ver-te, Mano Jesus, julgávamos que te tinhas esquecido de nós, um pensamento não se ouviu, Mano Jesus, não parece que venhas rico. Entraram em casa e sentaram-se a cear, que para isso se estava preparando a família quando ele bateu à porta, aqui se diria, vindo Jesus donde vem, de excessos de carne pecadora e má frequentação moral, aqui se diria, com a rude franqueza da gente simples que viu reduzir-se-lhe de repente a ração, À hora de comer, sempre o diabo traz mais um. Não o disseram estes, e mal pareceria se o dissessem, que ao coro das mastigações só uma boca viera acrescentar-se, nem se nota a diferença, onde comeriam nove, comem dez, e este tem mais direito. Enquanto ceavam quiseram os irmãos mais novos saber de aventuras, que os três mais velhos e a mãe logo perceberam que não houvera mudança de profissão desde o encontro de Jerusalém, tanto mais que do peixe havia-se perdido antes o cheiro, e dos aromas pecaminosos de Maria de Magdala deram conta o vento, as horas de caminhada e o pó, salvo se chegássemos bem o nariz à túnica de Jesus, mas, se a tanto nem a família se atreveria, que faríamos nós. Jesus contou que andara de pastor no maior de todos os rebanhos alguma vez visto, que nos últimos tempos estivera no mar pescando e ajudara a fazer sair dele grandes e maravilhosas pescarias, e também que lhe sucedera a mais extraordinária aventura que podia caber na imaginação e na esperança dos homens, mas que dela só poderia falar noutra ocasião, e não a todos. Estava-se nisto, os mais pequenos insistindo, Conta, conta, quando o do meio, Judas chamado, perguntou, mas não o fez por mal, De tanto tempo, que dinheiro trazes, e Jesus respondeu, Nem três moedas, nem duas, nem uma, nada, e, para prová-lo, porque a todos devia estar parecendo impossível uma tal penúria depois de quatro anos de contínuo trabalho, ali mesmo esvaziou o alforje, na verdade nunca se viu maior pobreza de bens e petrechos, uma faca de lâmina gasta e torcida, uma ponta de baraço, um troço de pão duríssimo, dois pares de sandálias feitas em pedaços, o que restara dos rasgões duma túnica velha, É a do teu pai, disse Maria, tocando-lhe, e, tocando as sandálias maiores, Eram do vosso pai. Baixaram-se as cabeças dos irmãos, uma saudade recordou o triste passamento do progenitor, depois Jesus fez voltar ao alforje o mísero conteúdo, quando de súbito deu por que uma ponta da túnica fazia um nó volumoso e percebeu que o nó era pesado e, sendo-o, ao pensá-lo subiu-lhe o sangue à cara, só podia conter dinheiro, esse mesmo que negara possuir, e que o dinheiro fora ali posto por Maria de Magdala, ganho portanto, não com o suor do rosto, como manda a dignidade, mas com gemidos falsos e suores suspeitos. A mãe e os irmãos olharam a denunciadora ponta da túnica, depois, como se tivessem combinado o movimento, olharam-no a ele, e Jesus, entre disfarçar e ocultar a prova da sua mentira e exibi-la sem poder dar uma explicação que a moralidade da família condescendesse em aceitar, tomou o partido mais difícil, desatou o nó e fez sair o tesouro, vinte moedas como nunca as tinham visto nesta casa, e disse, Não sabia que tinha este dinheiro. A reprovação silenciosa da família passou no ar como um sopro escaldante do deserto, que vergonha, um primogénito mentiroso. Jesus reflectia em seu coração e não encontrava nele qualquer irritação contra Maria de Magdala, só uma infinita gratidão pela sua generosidade, por essa delicadeza de querer dar-lhe um dinheiro que sabia que ele teria pejo em aceitar da mão dela directamente, pois uma coisa é ter dito, A tua mão esquerda está debaixo da minha cabeça, e a tua direita abraça-me, e outra coisa seria não pensar que outras mãos esquerdas e outras mãos direitas te abraçaram, sem quererem saber se alguma vez a tua cabeça desejou um simples amparo. Agora é Jesus quem olha a família, desafiando-a a aceitar a sua palavra, Não sabia que tinha este dinheiro, verdade, sem dúvida, mas que é, ao mesmo tempo, inteira e incompleta, desafiando-a também, em silêncio, a fazer-lhe a pergunta irreplicável, Se não sabias que o tinhas, como explicas que o tenhas, a isto não pode ele responder, Pô-lo aqui uma prostituta com quem dormi nestes últimos oito dias e que o ganhou dos homens com quem dormiu antes. Sobre a túnica suja e esgarçada do homem que morreu crucificado há quatro anos e cujos ossos conheceram a ignomínia duma vala comum, brilham as vinte moedas, como a terra luminosa que uma noite assombrou esta mesma casa, mas aqui não virão hoje os anciãos da sinagoga dizer, Enterrem-nas, como também ninguém aqui perguntará, Donde vieram, para que a resposta não nos obrigue a rejeitá-las, contra vontade e necessidade. Jesus recolhe as moedas na concha das duas mãos, torna a dizer, Não sabia que tinha este dinheiro, como quem oferece ainda uma última oportunidade, e depois, olhando a mãe, Não é dinheiro do Diabo. Estremeceram de horror os irmãos, mas Maria respondeu, sem alterar-se, Tão pouco veio de Deus. Jesus fez saltar as moedas, uma, duas vezes, brincando, e disse, tão simplesmente como se anunciasse que no dia seguinte voltaria à banca de carpinteiro, Minha mãe, de Deus falaremos amanhã, e, para os irmãos Tiago e José, Também convosco falarei, acrescentou, ora, é bom que não se pense ter sido uma deferência de primogénito dizê-lo, aqueles dois já entraram na maioridade religiosa, têm, por direito próprio, acesso aos assuntos reservados. Entendeu porém Tiago que, tendo em conta a superior importância do tema, algo devia ser adiantado já sobre os motivos da prometida conversa, não é chegar aqui um irmão, por muito primogénito que seja, e dizer, Temos de ter uma conversa acerca de Deus, por isso, com um sorriso insinuante, disse, Se, como nos disseste, andaste quatro anos de pastor por esses montes e vales, não há-de ter sido muito o tempo que te sobrou para frequentares sinagogas e aprender nelas, ao ponto de, mal tornado a casa, nos dizeres que nos queres falar do Senhor. Jesus sentiu a hostilidade por baixo da blandícia e respondeu, Ai, Tiago, quão pouco sabes tu de Deus se ignoras que não precisamos andar à procura dele se ele estiver decidido a encontrar-nos, Se bem estou a entender-te referes-te a ti próprio, Não me faças perguntas até amanhã, amanhã falarei do que tiver de falar. Murmurou Tiago palavras que não se ouviram, mas que deviam ter sido um comentário ácido sobre aqueles que presumem de saber tudo. Maria disse com ar cansado para Jesus, Amanhã dirás, ou depois de amanhã, ou quando quiseres, mas agora diz-me, e aos teus irmãos, o que tencionas fazer com esse dinheiro, que aqui estamos passando muita necessidade, Não queres saber como o tenho, Disseste que não sabias que o tinhas, E é verdade, mas pensei e sei já por que o tenho, Se não está mal nas tuas mãos, também não o estará nas da tua família, É tudo quanto tens a dizer acerca deste dinheiro, Sim, Então gastá-lo-emos, como é justo, no governo da casa. Ouviu-se um murmúrio geral de aprovação, o próprio Tiago fez um sinal de congratulação amistosa, e Maria disse, Se não te importasses, guardaríamos uma parte dele para o dote da tua irmã, Ainda não me havíeis dito que Lísia já tem casamento aprazado, Sim, vai ser na primavera, Dir-me-ás quanto necessitas, Não sei o que valem essas moedas. Jesus sorriu e disse, Também não sei quanto valem, só sei o valor que têm. Riu alto e destemperado, como se tivesse achado graça às suas próprias palavras, e toda a família o olhou, confundida. Apenas Lísia baixara os olhos, tem quinze anos e o pudor intacto, todas as misteriosas intuições da idade, e é, de quantos aqui estão, aquela que mais fortemente se perturba com este dinheiro que ninguém quer saber a quem pertenceu, donde veio nem como foi ganho. Jesus entregou uma moeda à mãe e disse, Amanhã a cambiarás, então saberemos o seu valor, Decerto me vão perguntar como me entrou tanta riqueza em casa, pois quem uma moeda destas pode mostrar, outras mais terá guardadas, Dizes apenas que o teu filho Jesus voltou da viagem, e que não há riqueza maior que o regresso do filho pródigo.
Nessa noite Jesus sonhou com o pai. Fora deitar-se no pátio, debaixo do alpendre, porque, ao ver aproximar-se a hora de ir para a cama, sentiu que não suportaria a promiscuidade da casa, aquelas dez pessoas espalhadas pelos cantos à procura dum recolhimento impossível, não era como no tempo em que não se notava grande diferença entre isto e um rebanho de cordeirinhos, agora sobram pernas, braços, contactos e incompatibilidades. Antes de adormecer, Jesus pensou em Maria de Magdala e em todas as coisas que tinham feito juntos, e, se é certo que tais pensamentos o alteraram ao ponto de por duas vezes se ter levantado da palha para dar uma volta no pátio a fim de refrescar o sangue, também é certo que, entrado finalmente no sono, o dormir acabou por lhe chegar liso e manso, de criança inocente, como um corpo que fosse rio abaixo, abandonado à corrente vagarosa, vendo passar por cima da cabeça os ramos e as nuvens, e um pássaro sem voz que aparecia e desaparecia. O sonho de Jesus começou quando ele imaginou ter sentido um leve choque, como se o seu corpo, vogando, tivesse roçado outro corpo. Pensou que era Maria de Magdala e sorriu, sorrindo voltou a cabeça para ela, mas quem ali ia, levado na mesma água, debaixo do mesmo céu e dos mesmos ramos, sob o esvoaçar da ave silenciosa, era seu pai. O antigo grito de pavor começou a formar-se-lhe na garganta, mas suspendeu-se logo, o sonho não era o do costume, ele não estava, criança, numa praça de Belém com outras crianças à espera da morte, não se ouviam passos e relinchos de cavalos nem tilintar e ranger de armas, apenas o sedoso deslizar da água, os dois corpos como se fossem uma jangada, o pai, o filho, levados no mesmo rio. Nesse instante, o medo desapareceu da alma de Jesus e, em seu lugar, explodiu, irreprimível, como um rapto patético, um sentimento de exultação, Meu pai, disse ele, sonhando, Meu pai, repetiu, já acordado, mas agora estava a chorar porque percebeu que se encontrava sozinho. Quis regressar ao sonho, repeti-lo desde o primeiro momento, para tornar a sentir, já a esperando, a surpresa daquele choque, ver outra vez o pai e deixar-se ir com ele na corrente, até ao fim das águas e dos tempos. Não o conseguiu nesta noite, mas o antigo sonho não voltará mais, daqui em diante, em vez do medo vir-lhe-á a exultação, em vez da solidão terá a companhia, em vez da morte adiada a vida prometida, expliquem agora, se tal podem, os sábios da Escritura que sonho foi este que Jesus teve, que significam o rio e a corrente, e os ramos suspensos e as nuvens vogando, e a ave calada, e por que é que graças a tudo isto, reunido e posto por ordem, se puderam juntar o pai e o filho, apesar da culpa de um não ter perdão e a dor do outro não ter remédio.
No dia seguinte, Jesus quis ajudar Tiago no trabalho da carpintaria, mas logo ali ficou demonstrado que os seus bons propósitos não bastariam para suprir a ciência que faltava e que, até aos últimos tempos da aprendizagem, em vida do pai, nunca chegara a merecer nota de suficiente. Para as necessidades da clientela, Tiago tornara-se num carpinteiro bastante sofrível, e o próprio José, apesar de não ter mais que catorze anos, conhecia já destas artes da madeira o bastante para poder dar lições ao irmão mais velho, se um tal atentado às precedências da idade fosse consentido na rígida hierarquia familiar. Tiago ria-se da falta de jeito de Jesus e dizia-lhe, Quem te fez pastor, perdeu-te, palavras estas simples, de simpática ironia, que não se podia imaginar que cobrissem um pensamento reservado ou sugerissem um segundo sentido, mas que fizeram com que Jesus se afastasse de modo brusco da banca e Maria dissesse ao segundo filho, Não fales de perdição, não chames o diabo e o mal à nossa casa. E Tiago, estupefacto, Mas eu não chamei nada, minha mãe, eu só disse, Sabemos o que disseste, cortou Jesus, a nossa mãe e eu sabemos o que disseste, quem juntou na sua cabeça pastor e perdição foi ela, não tu, e as razões tu não as sabes, mas ela sim, Eu avisei-te, disse Maria, com força, Avisaste-me quando o mal estava feito, se mal foi, que eu olho para mim e não o encontro, respondeu Jesus, Não há cego tão cego como aquele que não quer ver, disse Maria. Estas palavras enfadaram muito Jesus, que respondeu, repreensivo, Cala-te, mulher, se os olhos do teu filho viram o mal, viram-no depois de ti, mas estes mesmos olhos, que para ti parece que estão cegos, viram também o que nunca viste e com certeza não verás. A autoridade de filho primogénito e a dureza do tom, além das enigmáticas palavras finais, fizeram ceder Maria, mas a sua resposta ainda levou uma última advertência, Perdoa-me, não foi minha intenção ofender-te, queira o Senhor guardar-te sempre a luz dos olhos e a luz da alma, disse. Tiago olhava a mãe, olhava o irmão, percebia que havia ali um conflito, mas não imaginava que antigas causas pudessem explicá-lo, já que para causas novas não parecia que tivesse chegado a haver tempo. Jesus dirigiu-se para a casa, mas, no limiar da porta, virou-se para trás e disse à mãe, Manda os teus filhos que saiam e se distraiam fora, preciso falar-te a sós, mais a Tiago e a José. Saíram os irmãos, e a casa, um minuto antes atravancada de gente, ficou de repente vazia, apenas quatro pessoas sentadas no chão, Maria entre Tiago e José, Jesus diante deles. Houve um longo silêncio, como se todos, de comum acordo, estivessem dando tempo aos indesejados ou não merecedores para que se afastassem até onde nem o eco de um grito pudesse chegar, enfim Jesus disse, deixando cair as palavras, Eu vi Deus. O primeiro sentimento legível nos rostos da mãe e dos irmãos foi de temor reverencial, o segundo de incredulidade cautelosa, depois, entre um e outro, perpassou algo como uma expressão de desconfiança malévola em Tiago, um assomo de excitação deslumbrada em José, um traço de amargor resignado em Maria. Nenhum deles falou, e Jesus repetiu, Eu vi Deus. Se um súbito instante de silêncio é, no dizer popular, consequência de ter passado um anjo, aqui não acabavam de passar, Jesus já dissera tudo, os parentes não sabiam que dizer, não tarda que se levantem e vá cada um à sua vida, perguntando-se se realmente teriam sonhado um sonho assim, tão impossível de acreditar. Tem, porém, o silêncio, se lhe dermos tempo, aquela virtude, que aparentemente o nega, de obrigar a falar. Por isso, quando já não se podia aguentar mais a tensão da espera, Tiago fez uma pergunta, a mais inócua de todas, pura e gratuita retórica, Tens a certeza. Jesus não respondeu, apenas o olhou como provavelmente Deus o olhara a ele de dentro da nuvem, e pela terceira vez disse, Eu vi Deus. Maria não fez perguntas, só disse, Terá sido uma ilusão tua, Mãe, as ilusões existem, mas as ilusões não falam, e Deus falou-me, respondeu Jesus. Tiago recobrara a presença de espírito, o caso parecia-lhe mais uma história de loucos, um irmão seu a falar com Deus, imagine-se o disparate, Quem sabe, então, se não foi o Senhor quem te pôs o dinheiro no alforje, e sorriu quando o disse, ironicamente. Jesus corou, mas respondeu com secura, Do Senhor nos vem tudo, sempre ele encontra e abre os caminhos para chegar até nós, e esse dinheiro, que em verdade não veio dele, por ele é que veio, E que foi que te disse o Senhor, onde estavas quanto o viste, dormias ou vigiavas, Estava no deserto, procurava uma ovelha e ele chamou-me, Que te disse, se te é permitido repeti-lo, Que um dia me pedirá a minha vida, Todas as vidas pertencem ao Senhor, Isso lhe disse, E ele, Que em troca da vida que lhe hei-de dar, terei poder e glória, Terás poder e glória depois de morreres, perguntou Maria, que julgara ter ouvido mal, Sim, mãe, Que glória, que poder poderá ser dado a alguém que morreu, Não sei, Estavas a sonhar, Estava acordado e procurava a minha ovelha no deserto, E quando te vai pedir o Senhor a tua vida, Não sei, mas disse-me que tornarei a encontrá-lo quando estiver preparado. Tiago olhou o irmão com expressão inquieta, depois lançou uma dúvida, O sol do deserto fez-te mal à cabeça, foi o que foi, e Maria inesperadamente, E a ovelha, que aconteceu à ovelha, O Senhor mandou-me que lha sacrificasse como um sinal de aliança. Estas palavras indignaram Tiago, que protestou, Ofendes o Senhor, o Senhor fez uma aliança com o seu povo, não a ia fazer agora com um simples homem como tu, filho de carpinteiro, pastor e sabe-se lá que mais. Maria, pela expressão do seu rosto, parecia que estivera seguindo, com muito cuidado, um fio de pensamento, como se temesse vê-lo partir-se diante dos seus olhos, mas ao fim dele encontrou a pergunta que tinha de fazer, Que ovelha era essa, Era o cordeiro que eu tinha comigo quando nos encontramos em Jerusalém, na porta de Ramalá, afinal, o que eu tinha querido negar ao Senhor, o Senhor mo tomou das mãos, E Deus, como era Deus quando o viste, Uma nuvem, Fechada ou aberta, perguntou Tiago, Uma coluna de fumo, Estás louco, irmão, Se estou louco o Senhor me enlouqueceu, Estás em poder do Diabo, disse Maria; e o seu dizer era um grito, Não foi o Diabo que eu encontrei no deserto, foi o Senhor, e se for verdade que em poder do Diabo estou, o Senhor o quis, O Diabo está contigo desde que nasceste, Tu o sabes, Sim, sei-o, viveste com ele e sem Deus durante quatro anos, E ao fim de quatro anos com o Diabo encontrei-me com Deus, Estás a dizer horrores e falsidades, Sou o filho que tu puseste no mundo, crê em mim, ou rejeita-me, Não creio em ti, E tu, Tiago, Não creio em ti, E tu, José, que tens o nome do nosso pai, Eu creio em ti, mas não no que dizes. Jesus levantou-se, olhou-os do alto e disse, Quando em mim se cumprir a promessa que o Senhor fez, sereis obrigados a acreditar no que então de mim se disser. Foi buscar o alforge e o cajado, calçou as sandálias. Já à porta, dividiu o dinheiro em duas partes e disse, Este é o dote de Lísia, para a sua vida de casada, e dispô-lo no chão, moeda ao lado de moeda, na soleira da porta, o resto voltará às mãos donde veio, talvez lá se torne também em dote. Virou-se para a porta, ia sair sem despedir-se, e Maria disse, Reparei que não trazes no teu alforge uma tigela para servir-te, Tive-a, mas partiu-se, Estão aí quatro, escolhe uma e leva-a. Jesus ainda hesitou, queria ir de mãos vazias, mas foi ao forno, onde, postas umas sobre as outras, estavam as quatro tigelas. Escolhe uma, repetiu Maria. Jesus olhou, escolheu, Levo esta, que é a mais velha, Escolheste como te convinha, disse Maria, Porquê, Tem a cor da terra negra, não se parte nem se gasta. Jesus meteu a tigela no alforge, bateu com o cajado no chão, Dizei outra vez que não me creis, Não te cremos, disse a mãe, e agora menos que antes, porque escolheste o sinal do Diabo, De que sinal falas, Essa tigela. Neste momento, vindas do fundo profundo da memória, chegaram aos ouvidos de Jesus as palavras de Pastor, Terás uma outra tigela, mas essa não se há-de quebrar enquanto vivas. Uma corda parecia que fora estendida e esticada em todo o seu comprimento, e afinal o que temos aqui é um círculo, fechado com um nó que acaba de ser dado. Por segunda vez, Jesus saía de sua casa, mas agora não disse, Duma maneira ou doutra, sempre voltarei. O que pensava, enquanto, voltadas as costas a Nazaré, ia descendo a primeira encosta da montanha, era bem mais simples e melancólico, se também Maria de Magdala não acreditaria nele.
Este homem, que traz em si uma promessa de Deus, não tem outro sítio aonde ir se não a casa duma prostituta. Não pode regressar ao rebanho, Vai-te, disse-lhe Pastor, nem tornar à sua própria casa, Não te cremos, disse-lhe a família, e agora os seus passos hesitam, tem medo de ir, tem medo de chegar, é como se estivesse novamente no meio do deserto, Quem sou eu, os montes e os vales não lhe respondem, nem o céu que tudo cobre e tudo devia saber, se agora a casa voltasse e a pergunta repetisse, sua mãe dir-lhe-ia, És meu filho, mas não te creio, ora, sendo assim, é tempo de que Jesus se sente nesta pedra que aqui está à sua espera desde que o mundo é mundo, e nela sentado chore lágrimas de abandono e de solidão, quem sabe se o Senhor não resolverá aparecer-lhe outra vez, mesmo que seja em figura de fumo e de nuvem, a questão é que lhe diga, Homem, o caso não é para tanto, lágrimas, soluços, que é isso, todos nós temos os nossos maus bocados, mas há um ponto importante de que nunca falamos, digo-to agora, na vida, percebes, tudo é relativo, uma coisa má até pode tornar-se sofrível se a compararmos com uma coisa pior, portanto enxuga-me essas lágrimas e porta-te como um homem, já fizeste as pazes com o teu pai, que mais queres, e essa cisma da tua mãe, eu me encarrego quando chegar a altura, o que não me agradou muito foi a história com a Maria de Magdala, uma puta, mas enfim, estás na idade, aproveita, uma coisa não empata a outra, há um tempo para comer e um tempo para jejuar, um tempo para pecar e um tempo para ter medo, um tempo para viver e um tempo para morrer. Jesus enxugou as lágrimas às costas da mão, assoou-se sabe Deus a quê, em verdade não valia a pena ficar ali o dia todo, o deserto é como se vê, rodeia-nos, cerca-nos, de algum modo protege-nos, mas dar, não dá nada, apenas olha, e se o sol se cobriu de repente e por causa disso dizemos, O céu acompanha a minha dor, tolos somos, que o céu, nisso, é de uma perfeita imparcialidade, nem se alegra com as nossas alegrias nem se entristece com as nossas tristezas. Vem gente nesta direcção, a caminho de Nazaré, e Jesus não quer dar pasto aos risos, um homem inteiro e de barba na cara a chorar como uma criança que pede colo. Cruzam-se na estrada os raros viajantes, uns que sobem, outros que descem, saúdam-se com a conhecida exuberância, mas só depois de certificados da bondade das intenções, porque, nestas paragens, quando se fala de bandidos, tanto pode ser de uns como pode ser de outros. Há-os da espécie gatuna e salteadora, como aqueles malvados escarninhos que roubaram este mesmo Jesus vai para cinco anos, quando o pobre ia procurar em Jerusalém alívio para as suas penas, e há-os da digna espécie guerrilheira que, sendo certo não fazerem da estrada seu trânsito habitual, às vezes por aí aparecem, disfarçados, a espreitar as deslocações dos contingentes militares dos romanos, com vista à próxima emboscada, ou então, de cara descoberta, para deixarem sem ouro nem prata, nem valor que se aproveite, os ricaços colaboracionistas, a quem, em geral, nem as nutridas escoltas que trazem conseguem livrar do enxovalho. Não teria Jesus os seus dezoito anos se alguns devaneios de bélica aventura não lhe perpassassem na imaginação diante destas solenes montanhas em cujas ravinas, grutas e desvãos se ocultam os continuadores das grandes lutas de Judas o Galileu e dos seus companheiros, e então pôs- se a futurar que decisão tomaria se lhe saísse ao caminho um destacamento de guerrilheiros a desafiá-lo para que se juntasse a eles, trocando as amenidades da paz, mesmo necessitada, pela glória das batalhas e pelo poder de vencedor, pois escrito está que um dia a vontade do Senhor suscitará um Messias, um Enviado, para que, de uma vez, fique o seu povo liberto das opressões de agora e fortalecido para os combates do futuro. Uma lufada de louca esperança e de irresistível orgulho sopra, como um sinal do Espírito, a fronte de Jesus, e o filho do carpinteiro vê-se, pelo tempo de uma rápida vertigem, capitão, general e mando supremo, de espada ao alto, espavorindo, com a sua simples aparição, as legiões romanas, lançadas aos precipícios como varas de porcos possessos de todos os demônios, senatus populusque romanus, pois então. Ai de nós, que no instante seguinte se lembrou Jesus de que o poder e a glória lhe estão prometidos, sim, mas para depois da sua morte, posto o que o melhor é que aproveite a vida, e se tivesse de ir à guerra, uma condição lhe poria, que, havendo tréguas, pudesse ir-se das fileiras para estar uns dias com Maria de Magdala, salvo se nas hostes dos patriotas se admitem vivandeiras de um soldado só, que mais do que isso seria prostituição, e Maria de Magdala já disse que se acabou. Esperemos que sim, porque a Jesus lhe entraram renovadas forças com a lembrança dessa mulher que o curou de uma dolorosa chaga, pondo no seu lugar a insofrida ferida do desejo, e a pergunta é esta, como vai ele enfrentar-se com a porta fechada e assinalada, sem a certeza certa de que por trás dela só encontrará o que imagina ter deixado, alguém que alimenta uma exclusiva espera, a do seu corpo e da sua alma, que Maria de Magdala não aceita uma coisa sem outra. A tarde descai, as casas de Magdala já se veem ao longe, reunidas como um rebanho, mas a de Maria é como a ovelha que se afastou, não é possível distingui-la daqui, entre as grandes pedras que ladeiam o caminho, curva após curva. Por momentos, Jesus lembrou-se da ovelha, aquela que teve de matar para selar com sangue a aliança que o Senhor lhe impôs, e o seu espírito, agora desligado de batalhas e triunfos, todo se comoveu à ideia de que a estava procurando outra vez, a sua ovelha, não para a matar, não para a levar de novo ao rebanho, mas para juntos subirem aonde se encontram as pastagens virgens, que as há ainda, se procurarmos bem, no vasto e cruzado mundo, e, nas ovelhas que somos, os desfiladeiros indevassados, se procurarmos melhor. Jesus parou diante da porta, com mão discreta verificou que está fechada por dentro. O sinal continua dependurado, Maria de Magdala não recebe. A Jesus bastaria chamar, dizer, Sou eu, e de dentro ouvir-se-ia o canto jubiloso, Esta é a voz do meu amado, ei-lo que veio saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros, ei-lo atrás dos nossos muros, atrás desta porta, sim, mas Jesus preferirá bater nela com o punho, uma vez, duas vezes, sem falar, e esperar que lhe venham abrir, Quem é e o que quer, perguntaram de dentro, foi então que Jesus teve uma má ideia, disfarçar a voz e proceder como cliente que trouxesse dinheiro e urgência, dizer, por exemplo, Abre, flor, que não te arrependerás, nem do pago, nem do serviço, e é certo que a fala lhe saiu mentirosa, porém as palavras tiveram de ser as verdadeiras, Sou Jesus, de Nazaré. Tardou Maria de Magdala a vir abrir, por suspeita da voz que não condizia com o anúncio, mas também por lhe parecer impossível que já estivesse de volta, passada apenas uma noite, passado um dia, o homem que lhe prometera, Um dia destes virei visitar-te, de Nazaré a Magdala não é longe, quantas vezes se disseram coisas assim, só para comprazer a quem nos ouve, um dia destes poderá significar daqui por três meses, mas nunca amanhã. Maria de Magdala abre a porta, lança-se aos braços de Jesus, nem quer acreditar em tamanha felicidade, e a sua comoção é tal que a leva, absurdamente, a imaginar que ele voltou por se lhe ter aberto novamente a chaga do pé, e é a pensar nisto que o conduz para dentro, que o senta e aproxima uma luz, O teu pé, mostra-me o teu pé, mas Jesus diz-lhe, O meu pé está curado, não vês. Maria de Magdala poderia ter-lhe respondido, Não, não vejo, porque essa era a verdade extrema dos seus olhos rasos de lágrimas. Precisou tocar com os lábios o dorso do pé coberto de poeira, desatar cuidadosamente os atilhos que cingiam a sandália ao tornozelo, afagar com a ponta dos dedos a fina pele renovada, para confirmar-se nas esperadas virtudes lenitivas do unguento e, no mais íntimo dos pensamentos, admitir que o seu amor alguma parte podia ter tido na cura.
Enquanto cearam, Maria de Magdala não fez perguntas, quis apenas saber, e isso, escusado seria dizê-lo, não era perguntar, se lhe correra bem a viagem, se tivera maus encontros no caminho, trivialidades, coisas assim. Terminada a refeição, calou-se, abriu e manteve um espaço de silêncio, porque já não era a sua vez de falar. Jesus olhou-a fixamente, como se estivesse no alto duma rocha a medir as suas forças com o mar, não por temer que na lisa superfície se ocultassem animais devorantes ou recifes rasgadores, mas como quem, simplesmente; interroga a sua própria coragem de saltar. Conhece esta mulher há uma semana, tempo e vida bastantes para saber que se for para ela encontrará uns braços abertos e um corpo oferecido, mas amedronta-o revelar-lhe, porque o momento sem dúvida é chegado, o que ainda há tão poucas horas foi objecto de rejeição por aqueles que, sendo da sua carne, deveriam ser também do seu espírito. Jesus hesita, procura o caminho por onde há-de levar as palavras e o que lhe sai não é a longa explicação necessária, mas uma frase para ganhar tempo, se não é mais exacto dizer perdê-lo, Não estranhaste ter eu vindo tão cedo, Comecei a esperar-te quando partiste, não contei o tempo entre ires e voltares, como também não o contaria se tivesses demorado dez anos. Jesus sorriu, fez um movimento com os ombros, já devia saber que para esta mulher não serviam fingimentos ou palavras evasivas. Estavam sentados no chão, frente a frente, com uma luz no meio, o que sobrara da comida. Jesus tomou um pedaço de pão, partiu-o em duas partes, e disse, dando uma delas a Maria, Que este seja o pão da verdade, comamo-lo para que creiamos e não duvidemos, seja o que for que aqui dissermos e ouvirmos, Assim seja, disse Maria de Magdala. Jesus acabou de comer o pão, esperou que ela terminasse também, e disse, pela quarta vez, as palavras, Eu vi Deus. Maria de Magdala não se alterou, apenas as mãos que tinha cruzadas no regaço se moveram um pouco, e perguntou, Era isso o que tinhas para dizer-me se nos voltássemos a encontrar, Sim, e mais quanto me aconteceu desde que de casa saí, há quatro anos, que estas coisas me parece que estão todas ligadas uma às outras, mesmo não sabendo eu explicar porquê nem para quê, Sou como a tua boca e os teus ouvidos, respondeu Maria de Magdala, o que disseres estarás a dizê-lo a ti mesmo, eu apenas sou a que está em ti. Agora Jesus já pode começar a falar, porque ambos comeram do pão da verdade, e em verdade não são muitas na vida as horas como esta. A noite tornou-se madrugada, a luz da candeia duas vezes morreu e duas vezes ressuscitou, toda a história de Jesus que já conhecemos foi ali narrada, incluindo, até, certos pormenores que então não achamos que merecessem a pena, e muitos e muitos pensamentos que deixamos escapar, não porque Jesus no-los disfarçasse, mas simplesmente porque não podíamos, nós, evangelista, estar em todo o lado. Quando, numa voz que de repente se tornara cansada, Jesus ia começar a dizer o que sucedera depois do seu regresso a casa, o desgosto fê-lo hesitar, como lá o fizera parar aquele obscuro pressentimento antes de bater à porta, e Maria de Magdala, rompendo pela primeira vez o silêncio, perguntou, contudo no tom de quem antecipadamente conhece a resposta, Tua mãe não acreditou em ti, Assim é, respondeu Jesus, E por isso voltaste a esta outra casa, Sim, Quem me dera poder mentir-te, para te dizer que também não acredito, Porquê, Porque tornarias a fazer o que fizeste, ir-te-ias daqui como te foste de tua casa, e eu, não te crendo, não teria de seguir-te, Isso não responde à minha pergunta, Tens razão, não responde, Então, Se eu não acreditasse em ti, não teria de viver contigo as coisas terríveis que te esperam, E como podes saber tu que me esperam coisas terríveis, Não sei nada de Deus, a não ser que tão assustadoras devem ser as suas preferências como os seus desprezos, Onde foste buscar tão estranha ideia, Terias de ser mulher para saberes o que significa viver com o desprezo de Deus, e agora vais ter de ser muito mais que um homem para viveres e morreres como seu eleito, Queres assustar-me, Vou-te contar um sonho que tive, uma noite apareceu-me em sonho um menino, de repente apareceu vindo de parte nenhuma, apareceu e disse Deus é medonho, disse-o e desapareceu, não sei quem fosse aquela criança, donde veio e a quem pertencia, Sonhos, Ninguém menos do que tu pode dizer a palavra nesse tom, E depois, que aconteceu, Depois comecei a ser prostituta, Já deixaste tal vida, Mas o sonho não foi desmentido, nem mesmo depois que te conheci, Diz-me outra vez, como foram as palavras, Deus é medonho. Jesus viu o deserto, a ovelha morta, o sangue na areia, ouviu a coluna de fumo suspirando de satisfação, e disse, Talvez, talvez, porém uma coisa é ouvi-lo em sonho, outra será vivê-lo em vida, Prouvera a Deus que o não viesses a saber, Cada um tem de viver o seu destino, E do teu já tu recebeste o primeiro aviso solene. Sobre Magdala e o mundo, gira lentamente a cúpula de um céu crivado de estrelas. Em algum lugar do infinito, ou infinitamente o preenchendo, Deus faz avançar e recuar as peças doutros jogos que joga, é demasiado cedo para preocupar-se com este, agora só tem de deixar que os acontecimentos sigam naturalmente o seu curso, apenas uma vez ou outra dará com a ponta do dedo mindinho um toque a propósito para que algum acto ou pensamento desgarrados não quebrem a implacável harmonia dos destinos. Por isto é que não cura de interessar-se pelo resto da conversa que Jesus e Maria de Magdala prosseguem, E agora, que pensas fazer, perguntou ela, Disseste que irias comigo para onde eu fosse, Disse que estaria contigo onde tu estivesses, Qual é a diferença, Nenhuma, mas podes ficar aqui pelo tempo que quiseres, se não te importa viver comigo na casa onde fui prostituta. Jesus pensou, ponderou, finalmente disse, Buscarei onde trabalhar em Magdala e viveremos juntos como marido e mulher, Prometes demasiado, já é bastante que me deixes estar ao pé de ti.
Trabalho, Jesus não teve, mas teve o que deveria ter esperado, risos, chufas e insultos, realmente o caso não era para menos, um homem, pouco mais do que adolescente na idade, a viver com a Maria de Magdala, aquela gaja, Deixem vocês passar uns dias e ainda o vamos ver sentado à porta de casa, à espera que saia o cliente. Duas semanas se aguentou a troça, mas ao cabo Jesus disse a Maria, Vou-me embora daqui, Para onde, Para a borda do mar. Partiram de madrugada, e os habitantes de Magdala não chegaram a tempo de aproveitar alguma coisa na casa que ardia.