sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS (Capítulo XV)




Muito se tem falado das coincidências de que a vida é feita, tecida e composta, mas quase nada dos encontros que, dia por dia, vão acontecendo nela, e isso não obstante serem os ditos encontros, quase sempre, os que a mesma vida orientam e determinam, embora, em defesa daquela percepção parcial das contingências vitais, fosse possível argumentar que um encontro é, no seu mais rigoroso sentido, uma coincidência, o que não significa, claro está, que todas as coincidências tenham de ser encontros. No geral dos casos deste evangelho tem havido coincidências avonde, e, quanto aos particulares da vida de Jesus propriamente dita, sobretudo desde que, tendo ele saído de casa, passamos a prestar-lhe uma atenção exclusiva, pode-se observar que não lhe têm faltado os encontros. Deixando de lado a infortunada peripécia com os ladrões de estrada, por não serem ainda futuráveis os efeitos que em futuro próximo e distante ela possa vir a ter, esta primeira viagem independente de Jesus tem-se mostrado assaz rica de encontros, como foi o aparecimento providencial do fariseu filantropo, graças ao qual, não só o por fim fortunoso rapaz logrou tirar a barriga de misérias, como, por ter levado a comer nem mais nem menos que o tempo que levou, chegou ao Templo a boas horas de ouvir as perguntas e escutar as respostas que, por assim dizer, iriam fazer cama à questão que de Nazaré trouxera, sob-responsabilidades e culpas, se ainda estamos lembrados. Dizem os entendidos nas regras de bem contar contos que os encontros decisivos, tal como sucede na vida, deverão vir entremeados e entrecruzar-se com mil outros de pouca ou nula importância, a fim de que o herói da história não se veja transformado em um ser de excepção a quem tudo poderá acontecer na vida, salvo vulgaridades. E também dizem que é esse o processo narrativo que melhor serve o sempre desejado efeito de verossimilhança, pois se o episódio imaginado e descrito não é nem poderá tornar-se nunca em facto, em dado da realidade, e nela tomar lugar, ao menos que seja capaz de o parecer, não como no relato presente, em que de modo tão manifesto se abusou da confiança do leitor, levando-se Jesus a Belém para, sem tir-te nem guar-te, dar de caras, mal chegou, com a mulher que esteve de aparadeira no seu nascimento, como se já não tivessem passado das marcas o encontro e os lamirés adiantados pela outra que vinha de filho ao colo, ali de propósito colocada para as primeiras informações. Porém, o mais difícil de acreditar ainda está para vir, depois que a escrava Zelomi tiver acompanhado Jesus até à cova e o deixar lá, que assim o pediu ele, sem contemplações, Deixa-me só, entre estas escuras paredes, quero, neste grande silêncio, escutar o meu primeiro grito, se os ecos podem durar tanto, estas foram as palavras que a mulher julgou ter ouvido e por isso aqui se registram, embora sejam, em tudo, uma ofensa mais à verossimilhança, devendo nós imputá-las, por precaução lógica, à evidente senilidade da anciã. Foi-se embora Zelomi no seu vacilante andar de velha, passo a passo palpando a firmeza do chão com o cajado seguro a mãos ambas, ora, mais bonita acção teria sido a do rapaz se tivesse ajudado a pobre e sacrificada criatura a regressar a casa, mas a juventude é assim, egoísta, presunçosa, e Jesus, que ele saiba, não tem motivos para ser diferente dos da sua idade.
Está sentado numa pedra, ao lado, em cima doutra pedra, a candeia acesa alumia debilmente as paredes rugosas, a mancha mais escura dos carvões no sítio da fogueira, as mãos caídas, frouxas, o rosto sério, Nasci aqui, pensava, dormi naquela manjedoura, nesta pedra em que me sento sentaram-se meu pai e minha mãe, aqui estivemos escondidos enquanto na aldeia os soldados de Herodes andavam a matar as crianças, por mais que faça não conseguirei ouvir o grito de vida que dei ao nascer, tão-pouco ouço os gritos de morte dos meninos e dos pais que os viam morrer, nada vem romper o silêncio desta cova onde se juntaram um princípio e um fim, pagam os pais pelas culpas que tiverem, os filhos pelas que vierem a ter, assim me foi explicado no Templo, mas se a vida é uma sentença e a morte uma justiça, então nunca houve no mundo gente mais inocente que aquela de Belém, os meninos que morreram sem culpa e os pais que essa culpa não tiveram, nem gente mais culpada terá havido que meu pai, que se calou quando deveria ter falado, e agora este que sou, a quem a vida foi salva para que conhecesse o crime que lhe salvou a vida, mesmo que outra culpa não venha a ter, esta me matará. Na meia escuridão da caverna, Jesus levantou se, parecia que queria fugir, mas não deu mais que dois incertos passos, foram-se-lhe abaixo de repente as pernas, as mãos acudiram-lhe aos olhos para suster as lágrimas que rebentavam, pobre rapaz, ali enroscado e torcendo-se no pó como se sentisse uma infinita dor, eis que o vemos sofrendo o remorso daquilo que não fez, mas de que há-de ser, enquanto viva, ó insanável contradição, o primeiro culpado. Este rio de agônicas lágrimas, digamo-lo já, irá deixar para sempre nos olhos de Jesus uma marca de tristeza, um contínuo, úmido e desolado brilho, como se, em cada momento, tivesse acabado de chorar. Passou o tempo, lá fora o sol foi descaindo, tornaram-se mais longas as sombras da terra, prenunciando a grande sombra que do alto descerá com a noite, e a mudança do céu até no interior da caverna podia ser notada, as trevas já cercam e sufocam a pequeníssima amêndoa luminosa da candeia, é certo que se lhe está acabando o azeite, assim também será quando o sol estiver para apagar-se, então os homens dirão uns para os outros, Estamos a perder a vista, e não sabem que os olhos já não lhes servem de nada. Jesus dorme agora, rendeu-o o misericordioso cansaço destes dias, a morte terrível do pai, a herança do pesadelo, a confirmação resignada da mãe, e depois a penosa viagem até Jerusalém, o Templo assustador, as palavras sem consolação proferidas pelo escriba, a descida para Belém, o destino, a escrava Zelomi vinda do fundo do tempo para lhe trazer o conhecimento final, não admira que o corpo extenuado tivesse feito tombar consigo o mísero espírito, ambos pareciam repousar, mas já o espírito se move e em sonho faz levantar-se o corpo para que vão ambos a Belém, e ali, no meio da praça, confessem a tremenda culpa, Eu sou, dirá o espírito pela voz do corpo, aquele que trouxe a morte aos vossos filhos, julgai-me, condenai este corpo que aqui vos trago, o corpo de que sou o ânimo e a alma, para que o possais atormentar e torturar, pois sabido é que só pelo castigo e pelo sacrifício da carne se poderá alcançar a absolvição e o prêmio do espírito. No sonho estão as mães de Belém com os filhos mortos nos braços, só um deles está vivo e a mãe é aquela mulher que apareceu a Jesus com o filho ao colo, é ela quem responde, Se não podes restituir-lhes a vida, cala-te, diante da morte não se querem palavras. O espírito, humilhando-se, recolheu-se em si mesmo como uma túnica dobrada três vezes, entregando o corpo inerme à justiça das mães de Belém, mas Jesus não virá a saber que poderia levar dali o corpo salvo, era o que a mulher que ainda tinha ao colo o filho vivo se preparava para anunciar-lhe, Tu não tens culpa, vai-te, quando o que a ele pareceu um repentino e ofuscante clarão inundou a caverna e o despertou de golpe, Onde estou, foi o seu primeiro pensamento, e erguendo a custo, do chão pulverulento, os olhos lacrimosos, viu um homem alto, gigantesco, com uma cabeça de fogo, mas logo percebeu que o que julgara ser cabeça era um archote levantado na mão direita quase até ao tecto da cova, a cabeça verdadeira estava um pouco mais abaixo, pelo tamanho podia ser a de Golias, porém a expressão do rosto não tinha nada de furor guerreiro, antes era o sorriso comprazido de quem, tendo procurado, achou. Jesus levantou-se e recuou até à parede da caverna, agora podia ver melhor a cara do gigante, que afinal não o era assim tanto, apenas um palmo mais alto que os homens mais altos de Nazaré, as ilusões de óptica, sem as quais não há prodígios nem milagres, não são uma descoberta da nossa época, basta ver que o próprio Golias só não foi para jogador de basquetebol por ter nascido antes do tempo. Tu quem és, perguntou o homem, mas percebia-se que era só para meter conversa. Entalou o archote numa fenda da rocha, encostou à parede dois paus que trazia consigo, um polido pelo uso, de grossos nós, outro que parecia ter sido acabado de cortar da árvore, ainda com a casca, e depois foi sentar-se na pedra maior, compondo sobre os ombros o vasto manto em que se envolvia. Sou Jesus de Nazaré, respondeu o rapaz, Que vieste aqui fazer, se és de Nazaré, Sou de Nazaré, mas nasci nesta cova, vim cá para ver o sítio onde nasci, Onde tu nasceste mesmo foi na barriga da tua mãe, e aí não poderás ir jamais. Por não ouvidas antes, assim cruas, as palavras fizeram corar Jesus, que se calou. Fugiste de casa, perguntou o homem. O rapaz hesitou, como se estivesse a procurar no seu íntimo se poderia realmente chamar-se fuga a sua saída, e acabou por responder, Sim, Não te entendias com os teus pais, Meu pai já morreu, Ah, fez o homem, mas Jesus experimentou uma estranha e indefinível impressão, a de que ele já o saberia, e não só isto, mas todo o mais, o que fora já dito e o que ainda estava por dizer. Não respondeste à pergunta, tornou o homem, Qual, Se não te entendias com os teus pais, É assunto da minha vida, Fala-me com respeito, rapaz, ou tomo o lugar do teu pai para castigar-te, aqui, não te ouviria nem Deus, Deus é olho, orelha e língua, vê tudo, ouve tudo, e só por não querer é que não diz tudo, Que sabes tu de Deus, moço, O que aprendi na sinagoga, Na sinagoga nunca ouviste dizer que Deus é um olho, uma orelha e uma língua, A conclusão foi minha, se Deus isso não fosse não seria Deus, E por que achas tu que Deus é um olho e uma orelha e não dois olhos e duas orelhas como os temos tu e eu, Para que um olho não pudesse enganar o outro olho, e uma orelha a outra orelha, para a língua não é preciso, é uma só, A língua dos homens também é dúplice, tanto serve para a verdade como para a mentira, A Deus não é permitido mentir, Quem lho impede, O mesmo Deus, ou então negar-se-ia a si mesmo, Já o viste, A quem, A Deus, Alguns o viram e anunciaram. O homem esteve calado a olhar o rapaz como se nele buscasse umas feições conhecidas, e depois disse, Sim, é certo, alguns julgaram vê-lo. Fez uma pausa, e prosseguiu, agora com um sorriso de malícia, Não chegaste a responder-me, A quê, Se te davas mal com os teus pais, Saí de casa porque quis conhecer mundo, A tua língua conhece a arte de mentir, moço, mas eu sei bem quem és, nasceste filho de um carpinteiro de obra grossa chamado José e de uma cardadora de lã chamada Maria, Como o sabes, Um dia soube-o e não o esqueci, Explica-te melhor, Sou pastor, há muitos anos que ando por aí com as minhas ovelhas e cabras, e o bode e o carneiro da cobrição, calhou estar nestes sítios quando vieste ao mundo, e ainda por cá andava quando vieram matar os meninos de Belém, conheço-te desde sempre, como vês. Jesus olhou o homem com temor e perguntou, Que nome é o teu, Para as minhas ovelhas não tenho nome, Não sou uma ovelha tua, Quem sabe, Diz-me como te chamas, Se fazes tanta questão de dar-me um nome, chama-me Pastor, é o suficiente para que me tenhas, se me chamares, Queres levar me contigo, de ajudante, Estava à espera de que mo pedisses, E então, Recebo-te no meu rebanho. O homem levantou-se, tomou o archote e saiu para o ar livre. Jesus seguiu-o. Era noite fechada, a lua ainda não nascera. Juntas à entrada da caverna, sem mais ruído que o leve tilintar das campainhas de algumas, as ovelhas e as cabras, tranquilas, pareciam ter estado à espera da conclusão da conversa entre o seu pastor e o ajuda novo. O homem levantou o archote para mostrar as cabeças negras das cabras, os focinhos alvacentos das ovelhas, os lombos secos e escorridos dumas, as redondas e felpudas garupas doutras, e disse, Este é o meu rebanho, cuida tu de não vires a perder um só destes animais. Sentados à boca da caverna, sob a luz instável do archote, Jesus e o pastor comeram do queijo e do pão duro dos alforjes. Depois o pastor foi dentro e trouxe o pau novo, o que ainda estava encascado. Acendeu uma fogueira e, aos poucos, movendo habilmente o pau entre as chamas, foi-lhe queimando a casca até fazê-la sair em longas tiras, depois alisou-lhe toscamente os nós. Deixou-o a arrefecer por um bocado e tornou a metê-lo no lume, agora movendo-o mais depressa, sem dar tempo a que as labaredas o queimassem, desta maneira escurecendo e enrijecendo a epiderme da madeira, como se sobre a jovem vergôntea se tivessem antecipado os anos. Quando chegou ao fim do trabalho, disse, Aqui tens, forte e direito, o teu cajado de pastor, é o teu terceiro braço. Apesar de não ser de mãos delicadas, Jesus teve de largar o pau para o chão, tão quente estava. Como pôde ele aguentar, pensou, e não encontrava a resposta. Quando, finalmente, a lua nasceu, entraram na cova para dormir. Umas poucas ovelhas e cabras entraram também e deitaram-se ao lado deles. Alvorecia o primeiro luzeiro da manhã, quando o pastor sacudiu Jesus, dizendo-lhe, Levanta-te, rapaz, chega de dormir, o meu gado tem fome, daqui em diante o teu trabalho vai ser levá-lo ao pasto, nunca em tua vida farás coisa mais importante. Lentamente, porque o que regulava a marcha era o passo miudinho e travado do rebanho, posto o pastor lá adiante, o ajuda atrás, foram-se dali todos, os humanos e os animais, numa fresca e transparente madrugada que parecia não ter pressa de fazer nascer o sol, ciosa de uma claridade que era como a de um mundo apenas começado. Bem mais tarde, uma mulher idosa, que a custo caminhava ajudando-se com um bordão como uma terceira perna, veio das escondidas casas de Belém e entrou na caverna. Não ficou muito admirada por não estar ali Jesus, provavelmente já nada teriam para dizer um ao outro. Na meia escuridão habitual da cova brilhava a amêndoa luminosa da candeia, que o pastor reabastecera de azeite.
Daqui a quatro anos Jesus encontrará Deus. Ao fazer esta inesperada revelação, quiçá prematura à luz das regras do bem narrar antes mencionadas, o que se pretende é tão só bem dispor o leitor deste evangelho a deixar-se entreter com alguns vulgares episódios de vida pastoril, embora estes, adianta-se desde já para que tenha desculpa quem for tentado a passar à frente, nada de substancioso venham trazer ao principal da matéria. No entanto, quatro anos sempre são quatro anos, mormente numa idade de tão grandes mudanças físicas e mentais, ele é o corpo que cresce desta desatinada maneira, ele é a barba que começa a sombrear uma pele já de si morena, ele é a voz que se torna funda e grossa como uma pedra rolando pela aba da montanha, ele é a tendência para o devaneio e o sonhar acordado, sempre censuráveis, mormente quando há deveres de vigilância a cumprir, é o caso das sentinelas nos quartéis, castelos e acampamentos, por exemplo, ou, para não sairmos da história, deste novel ajudante de pastor a quem foi dito que não pode largar de vista as cabras e as ovelhas do patrão. Que, a bem dizer, não se sabe quem seja. Pastorear, neste tempo e nestes lugares, é trabalho para servo ou escravo bruto, obrigado, sob pena de castigo, a dar constantes e pontuais contas do leite, do queijo e da lã, sem falar do número de cabeças de gado, o qual sempre deverá estar em aumento, para que possam dizer os vizinhos que os olhos do Senhor contemplam com benignidade o piedoso proprietário de bens tão profusos, o qual, se quer estar conforme com as regras do mundo, mais deverá fiar-se da benevolência do Senhor do que da força genesíaca dos cobridores do seu rebanho. Estranho, porém, é que Pastor, que assim quis ele que lhe chamássemos, não pareça ter um amo que o governe, pois nestes quatro anos não virá ninguém ao deserto a recolher a lã, o leite ou o queijo, nem o maioral deixará o gado para ir dar contas do seu múnus. Tudo estaria certo se o pastor fosse, no sentido conhecido e costumado da palavra, o dono destas cabras e destas ovelhas, mas é muito difícil acreditar que o seja, realmente, quem, como ele, deita a perder quantidades de lã que excedem toda a imaginação, quem, pelos vistos, só tosquia para que não se sufoquem de calor as ovelhas, quem aproveita o leite, se o aproveita, apenas para fabricar o queijo de cada dia e trocar o que sobra por figos, tâmaras e pão, quem, finalmente, e enigma dos enigmas, não vende cordeiro ou cabrito do seu rebanho, nem mesmo na altura da Páscoa, quando, por via da procura, alcançam tão bom preço. Não admira, portanto, que o rebanho cresça sem parar, como se, afincadamente, e com o entusiasmo de quem sabe garantida uma duração justa de vida, cumprisse aquela famosa ordem que o Senhor deu, talvez pouco confiante na eficácia dos doces instintos naturais, Crescei e multiplicai-vos. Nesta grei insólita e vagabunda morre-se de velhice, e é o próprio Pastor, em pessoa, quem, serenamente, ajuda a morrer, matando os, os animais que, por doença ou senilidade, já não podem acompanhar o rebanho. Jesus, a primeira vez que tal aconteceu depois que começara a trabalhar para o pastor, protestou contra a fria crueldade, mas ele respondeu-lhe simplesmente, Ou os mato, como sempre tenho feito, ou os deixo abandonados para morrerem sozinhos nesses desertos, ou detenho o rebanho e fico aqui à espera de que morram, sabendo que, se levarem dias a morrer, acabará o pasto por não chegar para os que ainda estão vivos, diz-me tu como procederias se estivesses no meu lugar, se, como eu, fosses senhor da vida e da morte do teu rebanho. Jesus não soube que responder e, para mudar de assunto, perguntou, Se não vendes a lã, se temos mais leite e mais queijo do que precisamos para viver, se não fazes comércio dos anhos e dos cabritos, para que queres tu o rebanho e o deixas viver e fazes crescer assim, a ponto de um dia, se continuas, ele cobrir todos estes montes e encher a terra inteira, e Pastor respondeu, O rebanho estava aqui, alguém tinha de cuidar dele, defendê-lo das cobiças, calhou ser eu, Aqui, onde, Aqui, além, em toda a parte, Quererás dizer, se não me engano, que o rebanho sempre esteve, sempre foi, Mais ou menos, Foste tu que compraste a primeira ovelha e a primeira cabra, Não, Quem foi, então, Encontrei-as, não sei se foram compradas, e já eram rebanho quando as encontrei, Deram-tas, Ninguém mas deu, eu encontrei-as, elas encontraram-me, Então, és o dono, Não sou o dono, nada do que existe no mundo me pertence, Porque tudo pertence ao Senhor, devias sabê-lo, Tu o dizes, Há quanto tempo és pastor, Já o era quando nasceste, Desde quando, Não sei, talvez cinquenta vezes a idade que tens, Só os patriarcas de antes do dilúvio viveram tantos ou mais anos, nenhum homem dos de agora pode esperar ter tão longa vida, Bem o sei, Se o sabes, mas insistes que viveste todo esse tempo, admitirás que eu pense que não és homem, Admito. Ora, se Jesus, que tão bem encaminhado vinha na ordem e sequência do interrogatório, como se na cartilha socrática tivesse aprendido as artes da maiêutica analítica, se Jesus perguntasse, Que és então, já que homem não és, era muito provável que Pastor condescendesse em responder-lhe com um ar de quem não quer dar extrema importância ao assunto, Sou um anjo, mas não o digas a ninguém. Acontece isto muitas vezes, não fazemos as perguntas porque ainda não estávamos preparados para ouvir as respostas, ou por termos, simplesmente, medo delas. E, quando encontramos coragem para lançá-las, não é raro que não nos respondam, como virá a fazer Jesus quando um dia lhe perguntarem, Que é a verdade. Então se calará até hoje.
Como quer que seja, o que Jesus já sabe, sem precisar de perguntar, é que o seu enigmático companheiro não é um anjo do Senhor, pois os anjos do Senhor cantam em todos os momentos do dia e da noite as glórias do Senhor, não são como os homens, que só o fazem por obrigação e nas ocasiões regulamentares, também é certo que os anjos têm razões mais próximas e justificadas para cantarem tanto, pois que com o dito Senhor vivem eles no céu, por assim dizer de casa-e-pucarinho. O que primeiro Jesus estranhou de todo foi que, saídos da caverna para a madrugada, não tivesse Pastor procedido como ele procedera, bendizendo a Deus por aquelas coisas que sabemos, haver-lhe restituído a alma, haver dado inteligência ao galo, e, porque tivera precisão de ir atrás daquela fraga a mijar e dar de corpo, agradecer-lhe os orifícios e vasos existentes no organismo humano, providenciais no sentido absoluto da palavra, pois que sem eles. Pastor olhou o céu e a terra como faz qualquer um depois de sair da cama, murmurou algumas palavras sobre o bom tempo que os ares prometiam e, levando dois dedos à boca, soltou um assobio estridente que pôs todo o rebanho de pé como um só homem. Nada mais. Pensou Jesus que teria sido um caso de esquecimento, sempre possível quando uma pessoa anda com o espírito ocupado, por exemplo, estar Pastor a pensar na melhor maneira de ensinar o rude ofício a um moço habituado aos confortos duma oficina de carpinteiro. Ora, nós sabemos que, numa situação normal, entre gente comum, Jesus não iria ter de esperar muito para se inteirar do grau efectivo de religiosidade do seu maioral, uma vez que os judeus do tempo emitiam bênçãos aí umas trinta vezes ao dia, por dá cá aquela palha, como bastantemente ao longo deste evangelho se viu, sem necessidade de melhor demonstração agora. Passou-se o dia e nada de bênçãos, veio a noite, dormida ao relento, num descampado, e nem a majestade do céu de Deus foi capaz de acordar na alma e na boca de Pastor uma só palavrinha de louvor e gratidão, afinal o tempo podia estar de chuva e não estava, o que era, a todos os títulos, tanto os humanos como os divinos, sinal indubitável de que o Senhor velava pelas suas criaturas. Na manhã seguinte, depois de comer, e quando o maioral se preparava para dar uma volta ao rebanho em jeito de reconhecimento, a ver se alguma irrequieta cabra não resolvera ir de aventura pelos arredores, Jesus anunciou numa voz firme, Vou-me embora. Pastor parou, olhou-o sem mudar de expressão, apenas disse, Boa viagem, não preciso dizer-te que não és meu escravo nem há contrato legal entre nós, podes partir quando entenderes, Não queres saber por que me vou, A minha curiosidade não é tão forte que me obrigue a perguntar-to, Parto porque não devo viver ao lado duma pessoa que não cumpre as suas obrigações para com o Senhor, Que obrigações, As mais elementares, as que se exprimem pelas bênçãos e pelas graças. Pastor ficou calado, com um meio sorriso que se revelava mais nos olhos que na boca, depois disse, Não sou judeu, não tenho de cumprir obrigações que não são minhas. Jesus recuou um passo, escandalizado. Que a terra de Israel fervilhasse de estrangeiros e seguidores de deuses falsos, por de mais o sabia, mas nunca lhe sucedera dormir ao lado de um deles, comer do seu pão e beber do seu leite. Por isso, como se segurasse diante de si uma lança e um escudo protector, exclamou, Só o Senhor é Deus. O sorriso de Pastor apagou-se, a boca ganhou de súbito um vinco amargo, Sim, se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco, Deus é uno, completo e indivisível, clamou Jesus, e quase chorava de piedosa indignação, ao que o outro respondeu, Não sei como pode Deus viver, a frase não passou daqui porque Jesus, com a autoridade de um mestre de sinagoga, cortou, Deus não vive, é, Nessas diferenças não sou entendido, mas o que te posso dizer é que não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada, Ofendes a Deus com esses pensamentos ímpios, Não valho tanto, Deus não dorme, um dia te punirá, Ainda bem que não dorme, dessa maneira evita os pesadelos do remorso, Por que me falas tu de pesadelos e remorso, Porque estamos a falar do teu deus, E o teu, quem é, Não tenho deus, sou como uma das minhas ovelhas, Ao menos dão filhos para os altares do Senhor, E eu digo-te que como lobos uivariam essas mães se o soubessem. Jesus ficou pálido, sem resposta. Agora o rebanho rodeava-os, atento, num grande silêncio. O sol já nascera e a sua luz toucava de vermelho-rubi o velo das ovelhas e os cornos das cabras. Jesus disse, Vou-me embora, mas não se moveu. Apoiado ao cajado, tão calmo como se soubesse ter todo o tempo futuro à sua disposição, Pastor esperava. Enfim, Jesus deu alguns passos, abrindo caminho entre as ovelhas, mas parou de repente e perguntou, Que sabes tu de remorso e pesadelos, Que és o herdeiro de teu pai. Estas palavras não as pôde suportar Jesus. No mesmo instante dobraram-se-lhe os joelhos, escorregou-lhe do ombro o alforje, donde, por obra de acaso ou de necessidade, lhe saltaram as sandálias do pai, ao mesmo tempo que se ouvia o ruído da tigela do fariseu ao partir-se. Jesus começou a chorar como uma criança abandonada, porém Pastor não se aproximou, apenas disse lá donde estava, Lembrar-te-ás sempre de que conheço tudo a teu respeito desde que foste concebido, e agora decide-te de uma vez, ou partes, ou ficas, Diz me primeiro quem és, Ainda não é tempo de o saberes, E quando o souber, Se ficares, arrepender-te-ás de não teres partido, se partires, arrepender-te-ás de não ter ficado, Mas se eu me fosse embora não viria a saber quem és, Enganas-te, a tua hora há-de chegar e nessa altura estarei presente para to dizer, posto isto basta já de conversa, o rebanho não pode ficar aqui o dia todo à espera de que tu te resolvas. Jesus recolheu os cacos da tigela, olhou os como se lhe custasse separar-se deles, em verdade não havia motivo para isso, ontem, a esta hora, ainda nem tinha encontrado o fariseu, além disso as tigelas de barro são assim, partem-se com grande facilidade. Largou os fragmentos para o chão como se os semeasse, e foi então que Pastor disse, Terás uma outra tigela, mas essa não se quebrará enquanto vivas. Jesus não o ouviu, tinha as sandálias de José na mão e pensava se não deveria calçá-las, é certo que, tão pouco tempo passado, os pés não podiam ter-lhe crescido à medida, mas o tempo, bem o sabemos, é consoante, parecia a Jesus que andara com as sandálias do pai no alforje durante uma eternidade, forte surpresa era se ainda lhe estivessem largas. Calçou-as e, sem saber por que o fazia, guardou as suas. Disse Pastor, Pés que cresceram não voltam a encolher, e tu não terás filhos que de ti herdem a túnica, o manto e as sandálias, mas Jesus não as lançou fora, o peso delas ajudava o alforje quase vazio a segurar-se no ombro. A resposta que Pastor pedira não precisou ser dada, Jesus tomou o seu lugar atrás do rebanho, divididos os sentimentos entre uma indefinível impressão de terror, como se a sua alma estivesse em perigo, e outra, ainda mais indefinível, de sombria fascinação. Hei-de saber quem tu és, murmurava Jesus enquanto, em meio do pó levantado pelo rebanho, fazia avançar uma ovelha retardatária, e desta maneira se explicava, cria ele, o motivo por que finalmente resolvera ficar com o enigmático pastor.
Este foi o primeiro dia. De assuntos de crença e impiedade, de vida, morte e propriedade, não se voltou a falar, mas Jesus, que passara a observar mesmo os mais simples movimentos e atitudes de Pastor, notou que, coincidindo quase sempre com as vezes em que ele próprio bendizia o Senhor, o seu companheiro baixava-se e assentava suavemente as palmas das duas mãos na terra, curvando a cabeça e fechando os olhos, sem dizer uma palavra. Um dia, quando era ainda menino pequeno, Jesus ouvira contar a uns velhos viajantes que passaram por Nazaré que no interior do mundo existiam enormíssimas cavernas onde se encontravam, como à superfície, cidades, campos, rios, bosques e desertos, e que esse mundo inferior, em tudo cópia e reflexo deste em que vivemos, tinha sido criado pelo Diabo depois de o ter precipitado Deus das alturas do céu, em castigo da sua revolta. E como o Diabo, de quem Deus ao princípio fora amigo, e ele favorito de Deus, comentando-se mesmo no universo que desde os tempos infinitos nunca se vira uma amizade igual àquela, como o Diabo, diziam os velhos, estivera presente no acto do nascimento de Adão e Eva, e tinha podido aprender como se fazia, então repetiu no seu mundo subterrâneo a criação de um homem e de uma mulher, com a diferença, ao contrário de Deus, de não lhes ter proibido nada, razão por que não teria havido, no mundo do Diabo, pecado original. Um dos velhos atreveu-se mesmo a dizer, E como não houve pecado original, também não houve nenhum outro. Depois de os velhos se terem ido embora, expulsos, com a ajuda de algumas pedradas persuasivas, por nazarenos furiosos que enfim tinham percebido aonde queriam os ímpios chegar com a insidiosa conversa, houve um rápido abalo sísmico, coisa ligeira, nada mais que um sinal confirmador vindo das entranhas profundíssimas da terra, foi o que então ocorreu a Jesus pensar, já muito capaz, este pequeno, de ligar um efeito à sua causa, apesar da pouca idade. E agora, perante o pastor ajoelhado, de cabeça baixa, as mãos assim pousadas no chão, de leve, como para tornar mais sensível o contacto de cada grão de areia, de cada pequena pedra, de cada radícula subida à superfície, a lembrança da antiga história despertou na memória de Jesus, e ele acreditou, por momentos, ser este homem um habitante do oculto mundo criado pelo Diabo à semelhança do mundo visível, Que terá vindo cá fazer, pensou, mas a sua imaginação não teve ânimos para ir mais longe. Então, quando Pastor se levantou, perguntou-lhe, Por que fazes isso, Certifico-me de que a terra continua por baixo de mim, Não te chegam os pés para teres a certeza, Os pés não percebem nada, o conhecimento é próprio das mãos, quando tu adoras o teu Deus não é os pés que levantas para ele, mas as mãos, e contudo podias levantar qualquer parte do corpo, até o que tens entre as pernas, se não és um eunuco. Jesus corou violentamente, a vergonha e uma espécie de susto sufocaram-no, Não ofendas o Deus que não conheces, exclamou por fim, e Pastor, acto contínuo, Quem criou o teu corpo, Deus foi quem me criou, Tal como é e com tudo o que tem, Sim, Há alguma parte do teu corpo que tenha sido criada pelo Diabo, Não, não, o corpo é obra de Deus, Então todas as partes do teu corpo são iguais perante Deus, Sim, Poderia Deus rejeitar como obra não sua, por exemplo, o que tens entre as pernas, Suponho que não, mas o Senhor, que criou Adão, expulsou-o do paraíso, e Adão era obra sua, Responde-me direito, rapaz, não me fales como um doutor da sinagoga, Queres obrigar-me a dar-te as respostas que te convêm, e eu recito-te, se for preciso, todos os casos em que o homem, porque assim o ordenou o Senhor, não poderá, sob pena de contaminação e morte, descobrir uma nudez alheia ou a sua própria, prova de que essa parte do corpo é, por si mesma, maldita, Não mais maldita do que a boca quando mente e calunia, e ela serve-te para louvares o teu Deus antes da mentira e depois da calúnia, Não te quero ouvir, Tens de ouvir-me, que mais não seja para atenderes à pergunta que te fiz, Que pergunta, Se Deus poderá rejeitar como obra não sua o que levas entre as pernas, diz sim ou não, Não pode, Porquê, Porque o Senhor não pode não querer o que antes quis. Pastor acenou a cabeça lentamente e disse, Por outras palavras, o teu Deus é o único guarda duma prisão onde o único preso é o teu Deus. Ainda o último eco da tremenda afirmação vibrava nos ouvidos de Jesus quando Pastor, agora num tom de falsa naturalidade, voltou a falar, Escolhe uma ovelha, disse, Quê, perguntou Jesus desnorteado, Digo-te que escolhas uma ovelha, a não ser que prefiras uma cabra, Para quê, Vais precisar dela, se realmente não és um eunuco. A compreensão atingiu o rapaz com a força de um murro. Porém, pior que tudo foi a vertigem de uma horrível voluptuosidade que do afogamento da vergonha e da repugnância num rápido instante emergiu e prevaleceu. Tapou a cara com as mãos e disse numa voz rouca, Esta é a palavra do Senhor Se um homem se ajuntar com um animal, será punido com a morte, e matareis o animal, e também disse Maldito o que peca com um animal qualquer, Disse isso tudo o teu Senhor, Sim, e eu digo-te que te afastes de mim, abominação, criatura que não és de Deus, mas do Diabo. Pastor ouviu e não se moveu, como se estivesse a dar tempo a que as iradas palavras de Jesus produzissem todo o seu efeito, fosse ele qual fosse, assombração de raio, corrosão de lepra, morte súbita do corpo e da alma. Nada aconteceu. Um vento veio correndo entre as pedras, levantou uma nuvem de poeira que atravessou o deserto, e depois nada, o silêncio, o universo calado contemplando os homens e os animais, à espera, talvez, ele próprio, de saber que sentido lhe atribuem, ou encontram, ou reconhecem, uns e outros, e nessa espera se consumindo, já rodeado de cinzas o fogo primordial, enquanto a resposta se busca e tarda. De súbito, Pastor levantou os braços e clamou, em estentórea voz, virado para o rebanho, Ouvide, ouvide, ovelhas que aí estais, ouvide o que nos vem ensinar este sábio rapaz, que não é lícito fornicar-vos, Deus não o permite, podeis estar tranquilas, mas tosquiar-vos, sim, maltratar-vos, sim, matar-vos, sim, e comer-vos, pois para isso vos criou a sua lei e vos mantém a sua providência. Depois deu três longos assobios, agitou por sobre a cabeça o cajado, Andai, andai, gritou, e o rebanho pôs-se em movimento, na direcção por onde tinha desaparecido a coluna de poeira. Jesus ficou ali, parado, a olhar, até quase se perder na distância a alta figura de Pastor e se confundirem com a cor da terra os dorsos resignados dos animais. Não vou com ele, dissera, mas foi. Acomodou o alforje ao ombro, ajustou as correias das sandálias que tinham sido do pai e seguiu de longe o rebanho. Juntou-se a ele quando a noite caiu, apareceu da escuridão para a luz da fogueira, e disse, Aqui estou.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS (Capítulo XIV)



Havia já muita gente na esplanada que entestava com a íngreme escadaria de acesso. Dos dois lados, ao longo dos muros, encontravam-se as tendas dos bufarinheiros, outras onde se vendiam os animais para o sacrifício, aqui e além, dispersos, os cambistas com as suas bancas, grupos que conversavam, gesticulantes mercadores, guardas romanos a pé e a cavalo vigiando, liteiras a ombros de escravos, e também os dromedários, os jumentos ajoujados de carga, por toda a parte um vozear frenético, agora logo débeis balidos de cordeiros e cabritos, alguns que iam transportados ao colo ou às costas, como crianças cansadas, outros, arrastados, de corda ao pescoço, mas todos a caminho da morte no cutelo e da consumição do fogo. Jesus passou pelo balneário para purificar-se, depois subiu a escadaria e, sem parar, atravessou o Átrio dos Gentios. Entrou no Átrio das Mulheres pela porta entre a Sala dos Óleos e a Sala dos Nazarenos, e encontrou o que tinha vindo buscar, os anciãos e os escribas que, segundo o antigo costume, ali dissertavam sobre a Lei, respondiam a questões e davam conselhos. Havia alguns grupos, o rapaz aproximou-se do menos numeroso no preciso momento em que um homem levantava a mão para fazer uma pergunta. O escriba assentiu com um sinal e o homem disse, Explica-me, peço-te, se devemos entender, palavra por palavra, sentido por sentido, como está escrito, as leis que o Senhor deu a Moisés no Monte Sinai, quando prometeu fazer reinar a paz na nossa terra e que ninguém perturbaria o nosso sono, quando anunciou que faria desaparecer de entre nós os animais nocivos e que a espada não passaria pela nossa terra, e também que, perseguindo nós os nossos inimigos eles cairiam sob a nossa espada, cinco dos vossos perseguirão um cento, e cem dos vossos perseguirão dez mil, disse o Senhor, e os vossos inimigos cairão diante da vossa espada. O escriba olhou com expressão desconfiada o perguntador, se seria um intrometido rebelde aqui mandado por Judas Galileu para alvoroçar os espíritos com malévolas insinuações sobre a passividade do Templo perante o poder de Roma, e respondeu, brusco e breve, Essa palavra disse-a o Senhor quando os nossos pais estavam no deserto e eram perseguidos pelos egípcios. O homem tornou a levantar a mão, sinal doutra pergunta, Devo entender que as palavras do Senhor ditas no Monte Sinai só valeram para aqueles tempos, quando os nossos pais buscavam a terra da promissão, Se assim o entendeste, não és um bom israelita, a palavra do Senhor valeu, vale e valerá por todos os tempos passados e futuros, a palavra do Senhor estava na mente do Senhor antes que ele falasse e nela continua depois que ele se calou, Tu foste quem disse o que a mim me proíbes de pensar, Que pensas tu, Que o Senhor consente que as nossas espadas não se levantem contra a força que nos está oprimindo, que cem dos nossos não ousem atrever-se contra cinco dos deles, que dez mil judeus tenham de encolher-se diante de cem romanos, Estás no Templo do Senhor e não num campo de batalha, O Senhor é o deus dos exércitos, Mas, lembra-te, o Senhor impôs as suas condições, Quais, Se cumprirdes as minhas leis, se guardardes os meus preceitos, disse o Senhor, Que leis não cumprimos e que preceitos não guardamos para que tenhamos de aceitar por justa e necessária, como castigo de pecados, a dominação de Roma, O Senhor o saberá, Sim, o Senhor o saberá, quantas vezes o homem peca sem saber, mas explica-me por que se serve o Senhor do poder de Roma para castigar-nos, em vez de o fazer directamente, cara a cara com aqueles a quem elegeu para seu povo, O Senhor conhece os seus fins, o Senhor escolhe os seus meios, Queres então dizer que é vontade do Senhor que os romanos mandem em Israel, Sim, Se é como dizes, temos de concluir que os rebeldes que andam a lutar contra os romanos estão também a lutar contra o Senhor e a sua vontade, Concluis mal, E tu contradizes-te, escriba, O querer de Deus pode ser um não querer, o seu não querer a sua vontade, Só o querer do homem é verdadeiro querer, e não tem importância perante Deus, Assim é, Então, o homem é livre, Sim, para poder ser castigado. Correu um murmúrio entre os circunstantes, alguns olharam o que fizera as perguntas, sem dúvida pertinentes à pura luz dos textos, mas politicamente inconvenientes, olharam-no como se ele, justamente, é que devesse assumir os pecados todos de Israel e por eles pagar, aliviados os suspeitosos, de qualquer modo, pelo triunfo do escriba, que recebia, com um sorriso complacente, os cumprimentos e os louvores. Seguro de si, o mestre olhou em redor, solicitando outra interpelação, como o gladiador que, tendo-lhe calhado um adversário fraco, reclama outro de maior porte que lhe dê maior glória. Mais um homem levantou a mão, outra pergunta se apresentava, O Senhor falou a Moisés e disse-lhe, O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros nas terras do Egipto, isto disse o Senhor a Moisés. Não acabou, porque o escriba, quente ainda da primeira vitória, interrompeu com ironia, Presumo que não é tua ideia perguntar-me por que não tratamos nós os romanos como nossos compatriotas, uma vez que são estrangeiros, Perguntar-to-ia se os romanos nos tratassem a nós como compatriotas seus, sem cuidarmos, nós e eles, doutras leis e outros deuses, Também tu vens aqui provocar a ira do Senhor com interpretações diabólicas da sua palavra, interrompeu o escriba, Não, quero apenas que me digas se em verdade pensas que cumprimos a palavra santa quando os estrangeiros o forem, não à terra onde vivemos, mas à religião que professamos, A quem te referes, em particular, A alguns hoje, a muitos no passado, talvez a muitos mais amanhã, Sê claro, por favor, que não posso perder tempo com enigmas nem parábolas, Quando viemos do Egipto, viviam na terra a que chamamos de Israel outras nações que tivemos de combater, naqueles dias os estrangeiros éramos nós e o Senhor deu-nos ordem para que matássemos e aniquilássemos os que se opunham à sua vontade, A terra foi-nos prometida, mas tinha de ser conquistada, não a compramos nem nos foi oferecida, E hoje é sob um domínio estrangeiro que estamos vivendo, a terra que havíamos tornado nossa deixou de o ser, A ideia de Israel mora eternamente no espírito do Senhor, por isso, onde quer que esteja o seu povo, reunido ou disperso, aí estará o Israel terrestre, Daí se deduz, suponho, que em toda a parte onde nós, judeus, estivermos, sempre os outros homens serão estrangeiros, Aos olhos do Senhor, sem dúvida, Mas o estrangeiro que viva connosco será, segundo a palavra do Senhor, nosso compatriota e a ele devemos amar como a nós mesmos porque fomos estrangeiros no Egipto, O Senhor o disse, Concluo, então, que o estrangeiro que devemos amar é aquele que, vivendo connosco, não seja tão poderoso que nos oprima, como é, nos tempos de hoje, o caso dos romanos, Concluis bem, Agora vais dizer-me, segundo o que te aconselhem as tuas luzes, se, chegando nós um dia a ser poderosos, permitirá o Senhor que oprimamos os estrangeiros que o mesmo Senhor mandou amar, Israel não poderá querer senão o que o Senhor quer, e o Senhor, porque escolheu este povo, quererá tudo quanto for bom para Israel, Mesmo que seja não amar a quem se devia, Sim, se essa for, finalmente, a sua vontade, De Israel ou do Senhor, De ambos, porque são um, Não violarás o direito do estrangeiro, palavra do Senhor, Quando o estrangeiro o tiver e lho reconheçamos, disse o escriba. Novamente se ouviram murmúrios de aprovação que fizeram brilhar os olhos do escriba como os de um vencedor de pancrácio, um discóbolo, um retiário, um condutor de carros. A mão de Jesus levantou-se. Nenhum dos presentes estranhou que um rapaz desta idade se apresentasse a interrogar um escriba ou um doutor do Templo, adolescente com dúvidas sempre os houve, desde Caim e Abel, em geral fazem perguntas que os adultos recebem com um sorriso de condescendência e uma palmadinha nas costas, Cresce, cresce, e vais ver como isso não tem importância, os mais compreensivos dirão, Quando eu tinha a tua idade também pensava assim. Uns tantos dos presentes afastaram-se, outros preparavam-se já para o fazer também, perante a mal encoberta contrariedade do escriba que via escapar-se lhe um público até aí atento, mas a pergunta de Jesus fez voltar atrás alguns que ainda a ouviram, O que quero saber é sobre a culpa, Falas de uma culpa tua, Falo de culpa em geral, mas também da culpa que eu tenha mesmo não tendo pecado directamente, Explica-te melhor, Disse o Senhor que os pais não morrerão pelos filhos nem os filhos pelos pais, e que cada um será condenado à morte pelo seu próprio delito, Assim é, mas deves saber que se tratava de um preceito para aqueles antigos tempos em que a culpa de um membro duma família era paga pela família toda, incluindo os inocentes, Porém, sendo a palavra do Senhor eterna e não estando à vista o fim das culpas, lembra-te do que tu próprio disseste há pouco, que o homem é livre para poder ser castigado, creio ser legítimo pensar que o delito do pai, mesmo tendo sido punido, não fica extinto com a punição e faz parte da herança que lega ao filho, como os viventes de hoje herdaram a culpa de Adão e Eva, nossos primeiros pais, Assombrado estou que um rapaz da tua idade e da tua condição pareça saber tanto das Escrituras e seja capaz de discorrer sobre elas com tanta fluência, Sei apenas o que aprendi, Donde vens, De Nazaré de Galileia, Já me parecia, pela maneira como falas, Responde ao que te perguntei, por favor, Podemos admitir que a principal culpa de Adão e Eva, quando ao Senhor desobedeceram, não tenha sido tanto haverem provado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, mas a consequência que daí fatalmente teria de resultar, impedirem, com o seu pecado, que o Senhor viesse a cumprir o plano que tinha em mente ao criar o homem e depois a mulher, Queres tu dizer que todo o acto humano, a desobediência no paraíso ou qualquer outro, sempre interfere com a vontade de Deus, e que, finalmente, poderíamos comparar a vontade de Deus a uma ilha no mar, cercada e assaltada pelas revoltas águas das vontades dos homens, esta pergunta lançou-a o segundo dos questionadores, a tal ousadia não se atreveria o filho do carpinteiro, Não será tanto assim, respondeu cautelosamente o escriba, a vontade do Senhor não se contenta com prevalecer sobre todas as coisas, ela é o que faz que tudo seja o que é, Mas tu próprio disseste que a desobediência de Adão é causa de que não conheçamos o projecto que Deus tinha concebido para ele, Assim é, segundo a razão, mas na vontade de Deus, criador e regedor do universo, estão contidas todas as vontades possíveis, a sua, mas também a de todos os homens nascidos e por nascer, Se isso fosse como dizes, interveio Jesus, numa súbita iluminação, cada um dos homens seria uma parte de Deus, Provavelmente, mas a parte representada por todos os homens juntos seria como um grão de areia no deserto infinito que Deus é. O homem presunçoso que até aí o escriba havia sido desapareceu. Está sentado no chão, como antes, na sua frente, em redor, os assistentes olham-no com um sentimento em que há tanto de respeito quanto de temor, como diante de um mago que, involuntariamente, tivesse convocado e feito aparecer forças de que, a partir deste momento, só poderia ser súbdito. Descaídos os ombros, estiradas as feições, as mãos abandonadas sobre os joelhos, todo o corpo dele parecia pedir que o deixassem entregue à sua angústia. Os circunstantes começaram a levantar-se, alguns encaminharam-se para o Átrio dos Israelitas, outros chegavam-se aos grupos onde prosseguiam debates. Jesus disse, Não respondeste à minha pergunta. O escriba endireitou lentamente a cabeça, olhou-o com a expressão de quem acabasse de sair de um sonho, e, após um longo, quase insuportável silêncio, disse, A culpa é um lobo que come o filho depois de ter devorado o pai, Esse lobo de que falas já comeu o meu pai, Então só falta que te devore a ti, E tu, na tua vida, foste comido ou devorado, Não apenas comido e devorado, mas vomitado.
Jesus ergueu-se e saiu. A caminho da porta por onde tinha entrado, parou e olhou para trás. A coluna de fumo dos sacrifícios subia a direito para o céu e ia dissipar-se e desaparecer nas alturas, como se a aspirassem os gigantescos foles do pulmão de Deus. A manhã estava em meio, a multidão crescia, e no interior do Templo ficava um homem roto e dilacerado pelo vazio, à espera de sentir que se lhe reconstituía o osso do costume, a pele do hábito, para poder responder, daqui a pouco ou amanhã, tranquilamente, a alguém que venha com a ideia de querer saber, por exemplo, se o sal em que a mulher de Lot se transformou tinha sido o sal-gema ou o sal marinho, ou se a embriaguez de Noé foi de vinho branco ou de vinho tinto. Já fora do Templo, Jesus perguntou qual era o caminho para Belém, seu segundo destino, por duas vezes se perdeu na confusão das ruas e da gente, até que encontrou a porta por onde, transportado na barriga da mãe, tinha saído treze anos antes, já prestes a vir ao mundo. Não se suponha, porém, que Jesus pensa este pensamento, é por de mais conhecido que as evidências da obviedade cortam as asas ao pássaro inquieto da imaginação, um exemplo daremos, e basta, olhe o leitor deste evangelho um retrato da sua mãe, que a represente grávida dele, e diga-nos se é capaz de se imaginar ali dentro. Jesus desce em direcção a Belém, poderia agora reflectir nas respostas dadas pelo escriba, não apenas à sua pergunta, às outras antes da sua também, mas o que o perturba é a embaraçosa impressão de que todas as perguntas eram, afinal, uma só, e que a resposta dada a cada uma a todas servia, principalmente a última, que resumia tudo, a fome eterna do lobo da culpa, que eternamente come, devora e vomita. Muitas vezes, graças às debilidades da memória, não sabemos, ou sabemos como quem desejasse esquecê-lo, a causa, o motivo, a raiz da culpa, ou, para falar figuradamente, à maneira do escriba, o fojo donde o lobo saiu para caçar-nos. Jesus sabe-o e é para lá que caminha. Não tem nenhuma ideia do que cá vem fazer, mas ter vindo é como ir avisando para um lado e outro da estrada, Aqui estou, à espera que alguém lhe saia ao caminho, que queres, castigo, perdão, esquecimento. Como o pai e a mãe haviam feito em seu tempo, parou diante do túmulo de Raquel para orar. Depois, sentindo que se lhe aceleravam as pancadas do coração, seguiu para diante. As primeiras casas de Belém estavam ali, esta era a entrada da aldeia por onde todas as noites irrompiam, no sonho, o pai assassino e os soldados da companhia, em verdade não parece sítio para tais horrores, já não é apenas o céu que o nega, este céu onde passam nuvens brancas e tranquilas como benévolos acenos de Deus, a própria terra parece dormir ao sol, talvez o melhor fosse dizer, Deixemos as coisas como estão, não removamos os ossos do passado, e, antes que uma mulher, com uma criança ao colo, aparecesse num destes postigos perguntando, A quem procuras, tornar atrás, apagar o rasto dos passos que aqui nos trouxeram e rogar que o movimento perpétuo da peneira do tempo cubra de uma rápida e insondável poeira até a mais tênue memória destes acontecimentos. Demasiado tarde. Há um momento, quase a roçar a teia, em que a mosca ainda estaria a tempo de escapar à armadilha, mas, se chegou a tocar-lhe, se o visco filou a asa doravante inútil, qualquer movimento apenas servirá para que o insecto mais se enrede e paralise, irremediavelmente condenado, mesmo que a aranha desprezasse, por insignificante, esta peça de caça. Para Jesus, o momento já passou. No centro de um largo, onde, a um canto, há uma figueira ramalhuda, vê-se uma pequena construção cúbica que não precisa ser olhada segunda vez para se perceber que é um túmulo. Aproximou-se dela Jesus, deu-lhe uma vagarosa volta, deteve-se a ler as inscrições meio apagadas que havia numa das faces, e, feito tudo isto, compreendeu que tinha encontrado o que viera procurar. Uma mulher que atravessava o largo, trazendo uma criança de uns cinco anos pela mão, parou, olhou com curiosidade o forasteiro e perguntou, Donde vens, e como se achasse necessário justificar a pergunta, Não és daqui, Sou de Nazaré de Galileia, Tens família nestes lugares, Não, vim a Jerusalém e, como estava perto, decidi ver como é Belém, Estás de passagem, Sim, volto para Jerusalém quando a tarde principiar a refrescar. A mulher levantou a criança, sentou-a no braço esquerdo, disse, Que o Senhor fique contigo, e fez um movimento para retirar-se, mas Jesus reteve-a perguntando, Este túmulo, de quem é. A mulher apertou a criança contra o peito, como se a quisesse proteger de alguma ameaça, e respondeu, São vinte e cinco meninos que foram mortos há muitos anos, Quantos, Vinte e cinco, já te disse, Falo dos anos, Ah, vai para catorze, São muitos, Devem ser, calculo, mais ou menos os que tu tens, Assim é, mas eu estava a falar dos meninos, Ah, um deles era meu irmão, Um irmão teu está ali dentro, Sim, E esse que levas ao colo, é teu filho, É o meu primogênito, Por que é que os meninos foram mortos, Não se sabe, nessa altura eu tinha só sete anos, Mas com certeza ouviste contar aos teus pais e às outras pessoas crescidas, Não era preciso, eu mesma vi serem mortos alguns, O teu irmão, também, Também o meu irmão, E quem foi que os matou, Apareceram uns soldados do rei à procura de meninos varões até aos três anos e mataram-nos a todos, E dizes que não se sabe porquê, Nunca se soube, até hoje, E depois da morte de Herodes, não tentaram averiguar, não foram ao Templo pedir aos sacerdotes que indagassem, Isso não sei, Se os soldados fossem romanos, ainda se percebia, mas assim, o nosso próprio rei a mandar matar os seus súbditos, meninos de três anos, alguma razão há-de ter havido, A vontade dos reis não é para o nosso entendimento, fique o Senhor contigo e te proteja, Já não tenho três anos, À hora da morte os homens têm sempre três anos, disse a mulher, e afastou-se. Quando ficou sozinho, Jesus ajoelhou-se no chão, ao lado da pedra que fechava a entrada do túmulo, tirou do alforje um resto de pão que lhe ficara, já endurecido, esfarelou um bocado nas palmas das mãos e espalhou-o ao longo da porta, como uma oferenda às invisíveis bocas dos inocentes. No instante em que o fazia, apareceu, saída da esquina mais próxima, outra mulher, mas esta era muito velha, curvada, que caminhava ajudando-se com um bastão. Confusamente, porque a vista não lhe dava maiores alcances, percebera o gesto do rapaz. Parou, atenta, depois viu-o levantar-se, inclinar a cabeça, como se recitasse uma prece pelo descanso dos infortunados infantes, que, embora seja esse o costume, não nos atreveremos a desejar eterno, por ter-nos falhado a imaginação quando, uma única vez, tentamos representar-nos o que poderia ser isso de descansar eternamente. Jesus acabou o seu responsório e olhou em redor, muros cegos, portas fechadas, apenas, ali parada, uma velha muito velha, vestida com uma túnica de escrava, e demonstração viva, apoiada ao seu bastão, da terceira parte do famoso enigma da esfinge, qual é o animal que anda sobre quatro patas de manhã, duas à tarde e três ao anoitecer, é o homem, respondeu o espertíssimo Édipo, não se lembrou, então, que alguns nem ao meio-dia conseguem chegar, só em Belém, de uma assentada, foram vinte e cinco. A velha veio vindo, veio vindo, e agora está diante de Jesus, torce o pescoço para poder olhá-lo melhor, e pergunta, Procuras alguém. O rapaz não respondeu logo, em boa verdade não andava à procura de pessoas, as que tinha encontrado estão mortas, aqui a dois passos, e nem se podia dizer delas que eram pessoas, uns tantos putos de fraldas e chupeta, chorões e ranhosos, subitamente a morte viera e tornara-os em gigantescas presenças que não cabem em ossários e gavetas, e todas as noites, se há justiça, saem para o mundo a mostrar as feridas mortais, as portas por onde lhes saiu a vida, abertas à ponta de espada, Não, disse Jesus, não ando à procura de ninguém. A velha não se retirou, parecia esperar que ele continuasse, e essa atitude foi o que tirou da boca de Jesus palavras que não tinha pensado dizer, Nasci nesta aldeia, numa cova, e gostava de ver o sítio. A velha recuou um difícil passo, afirmou o olhar tanto quanto podia, e, tremendo-lhe a voz, perguntou, Tu, como te chamas, donde vens, quem são os teus pais. A uma escrava só terá de responder quem quiser, mas o prestígio da última idade, mesmo em inferior condição, tem muita força, aos velhos, todos eles, deve-se responder-lhes sempre, porque, sendo já tão pouco o tempo que têm para fazer perguntas, extrema crueldade seria deixá-los privados de respostas, lembremo-nos de que uma delas bem pode ser a que esperavam. Chamo-me Jesus e venho de Nazaré de Galileia, disse o rapaz, e outra coisa não anda dizendo desde que saiu de casa. A velha avançou o passo que recuara, E os teus pais, como se chamam, Meu pai chamava-se José, minha mãe é Maria, Quantos anos tens, Vou aos catorze. A mulher olhou em redor, como se buscasse onde sentar-se, mas uma praça em Belém de Judeia não é o mesmo que o jardim de São Pedro de Alcântara, com bancos e vista aprazível para o castelo, aqui sentamo-nos na poeira do chão, quando muito nas soleiras das portas, ou, se há um túmulo, na pedra que se deixa ao lado da entrada para repouso e desafogo dos vivos que vêm chorar os entes queridos, ou ainda, sabe-se lá, dos fantasmas que dos seus próprios túmulos saem para chorar as lágrimas que sobejaram da vida, como é o caso de Raquel, aqui tão perto, em verdade está escrito, É Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada, porque já não existem, não é preciso ter a argúcia de Édipo para ver que o sítio condiz com a situação e o choro com a causa. A velha sentou-se custosamente na pedra, o rapaz ainda fez um gesto para ajudá-la, mas não foi a tempo, os gestos não totalmente sinceros vão sempre atrasados. Eu conheço-te, disse a velha, Deves estar enganada, respondeu Jesus, eu nunca estive aqui e a ti nunca te vi em Nazaré, As primeiras mãos que te tocaram não foram as de tua mãe, mas as minhas, Como pode isso ser, mulher, O meu nome é Zelomi e fui a tua parteira. No impulso de um instante, assim se demonstrando a autenticidade caracterológica dos movimentos feitos a tempo, Jesus foi ajoelhar-se aos pés da escrava, inconscientemente hesitando entre uma curiosidade que parecia à beira de receber satisfação e um simples dever de polidez social, o dever de manifestar reconhecimento a alguém que, sem mais responsabilidade que ter estado presente na ocasião, nos extraiu de um limbo sem memória para largar-nos numa vida que seria nada sem ela. Minha mãe nunca me falou de ti, disse Jesus, Não tinha de falar, teus pais apareceram em casa de meu amo a pedir ajuda, e como eu tinha experiência, Foi no tempo da matança dos inocentes que estão neste túmulo, Foi, tu tiveste sorte, não te encontraram, Porque morávamos na cova, Sim, ou então porque havíeis partido antes, isso não o cheguei a saber, quando fui para ver o que vos teria sucedido, achei a cova vazia, Lembras-te do meu pai, Sim, lembro-me, nessa altura era um homem novo, boa figura, e uma boa pessoa, Já morreu, Pobre dele, que curta lhe saiu a vida, e tu, sendo o primogênito, por que deixaste a tua mãe, suponho que ainda estará viva, Vim para conhecer este lugar onde nasci, e também para saber dos meninos que foram mortos, Só Deus saberá por que morreram, o anjo da morte, tomando a figura de uns soldados de Herodes, desceu em Belém e condenou-os, Crês então que foi vontade de Deus, Não sou mais do que uma escrava velha, mas, desde que nasci, ouço dizer que tudo quanto tem acontecido no mundo, mesmo o sofrimento e a morte, só pôde acontecer porque Deus, antes, o quis, Assim é que está escrito, Compreendo que Deus queira, um destes dias, a minha morte, mas não a de crianças inocentes, A tua morte decidi-la-á Deus, a seu tempo, a morte dos meninos decidiu-a a vontade de um homem, Pode bem pouco, afinal, a mão de Deus, se não chega para interpor-se entre o cutelo e o sentenciado, Não ofendas ao Senhor, mulher, Quem, como eu, nada sabe, não pode ofender, Hoje, no Templo, ouvi dizer que todo o acto humano, por mais insignificante que seja, interfere com a vontade de Deus, e que o homem só é livre para poder ser castigado, Não é de ser livre que o meu castigo vem, mas de ser escrava, disse a mulher. Jesus calou-se. Mal tinha ouvido as palavras de Zelomi porque o pensamento, como uma súbita fresta, abriu-se para a ofuscante evidência de ser o homem um simples joguete nas mãos de Deus, eternamente sujeito a só fazer o que a Deus aprouver, quer quando julga obedecer-lhe em tudo, quer quando em tudo supõe contrariá-lo.
O sol descaía, a sombra maléfica da figueira aproximava-se. Jesus recuou um pouco e chamou a mulher, Zelomi, ela ergueu a custo a cabeça, Que queres, perguntou, Leva-me à cova onde nasci, ou diz-me onde é, se não podes andar, Custa-me caminhar, sim, mas tu não a encontrarias se eu não te levasse lá, É longe, Não, há outras covas, parecem todas iguais, Vamos, Pois sim, vamos, disse a mulher. Em Belém, as pessoas que neste dia viram passar Zelomi e o rapaz desconhecido perguntavam-se umas às outras donde se conheceriam eles. Nunca chegariam a sabê-lo porque a escrava guardou silêncio durante os dois anos que ainda teve de vida, e Jesus não mais voltará à terra em que nasceu. No dia seguinte Zelomi foi à cova onde deixara ficar o rapaz. Não o encontrou. No seu íntimo, ia a contar que assim fosse. Não teriam nada para dizer um ao outro se ele ainda lá estivesse.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS (Capítulo XIII)



Passados dois dias, Jesus foi-se embora de casa. Durante esse tempo foram contadas as palavras que pronunciou e as noites passou-as em claro, apenas porque não podia dormir. Imaginava a horrível matança, os soldados entrando nas casas e rebuscando os berços, as espadas golpeando ou cravando-se nos tenros corpinhos descobertos, as mães em loucos gritos, os pais bramindo como touros acorrentados, e imaginava-se a si próprio também, numa cova que nunca vira, e nesses momentos, a espaços, como densas e lentas vagas que o submergissem, sentia o desejo inexplicável de estar morto, de não estar vivo, ao menos. Obsidiava-o uma pergunta que não fizera à mãe, quantas haviam sido as crianças mortas, na sua ideia tinham sido muitas, umas sobre as outras amontoadas, como cordeiros degolados e atirados a monte, à espera da grande fogueira que os iria consumir e levar ao céu feitos em fumo. Porém, não tendo perguntado na altura da revelação, parecia-lhe agora feia acção de mau gosto, se então a expressão já se usasse, ir-se à mãe e dizer, Ó mãe, esqueci-me de perguntar-te no outro dia quantos tinham sido os putos que passaram desta a melhor vida lá em Belém, e ela responderia, Ai filho, não penses nisso, que nem a trinta chegaram, e se eles morreram foi porque o Senhor assim quis, que estava no seu poder evitá-lo se conviesse. A si mesmo, incessantemente, Jesus perguntava, Quantos, olhava os irmãos e perguntava, Quantos, queria saber que quantidade de corpos mortos fora preciso pôr no outro prato para que o fiel da balança declarasse equilibrada a sua vida salva. Na manhã do segundo dia, Jesus disse à mãe, Não tenho paz nem descanso nesta casa, fica com os meus irmãos, que eu vou partir. Maria levantou as mãos ao céu, chorosa e escandalizada, Que é isto, que é isto, abandonar um filho primogênito a sua mãe viúva, onde é que já se viu, adeus mundo cada vez a pior, e porquê, porquê, se esta é a tua casa e a tua família, como vamos nós viver se aqui não estás, Tiago tem só menos um ano que eu, ele proverá, como eu teria de prover faltando o teu marido, O meu marido era teu pai, Não quero falar dele, não quero falar de mais nada, dá-me a tua bênção para a viagem, se quiseres, eu vou de qualquer maneira, E para onde queres tu ir, filho meu, Não sei, talvez a Jerusalém, talvez a Belém, para ver a terra onde nasci, Mas lá ninguém te conhece, Ainda bem para mim, diz-me, mãe, o que achas que me fariam se soubessem quem eu sou, Cala-te, que te ouvem os teus irmãos, Um dia também eles saberão a verdade, E agora, por esses caminhos, com os romanos que andam à procura dos guerrilheiros de Judas, vais ao encontro dos perigos, Os romanos não são piores que os soldados do outro Herodes, decerto não virão sobre mim de espada em punho para me matarem nem me espetarão numa cruz, não fiz nada, sou inocente, Teu pai também o era, e vê lá o que sucedeu, Teu marido morreu inocente, mas não viveu inocente, Jesus, o demônio fala pela tua boca, Como podes tu saber que não é Deus o que pela minha boca fala, Não pronunciarás o nome do Senhor em vão, Ninguém pode saber quando o nome de Deus é pronunciado em vão, não o sabes tu, não o sei eu, só o Senhor fará a distinção e nós não compreenderemos as suas razões, Meu filho, Diz, Não sei onde foste, tão novo, buscar essas ideias, essa ciência, E eu não saberia dizer-to, talvez os homens nasçam com a verdade dentro de si e só não a digam porque não acreditam que ela seja a verdade, É verdade que te queres ir embora, É, E voltas, Não sei, Se quiseres, se isso te atormenta, vai a Belém, vai a Jerusalém, ao Templo, fala com os doutores, pergunta-lhes, eles te iluminarão, e tu voltarás para a tua mãe e para os teus irmãos que precisam de ti, Não prometo voltar, E de que viverás, teu pai não durou o bastante para ensinar-te o ofício todo, Trabalharei no campo, farei de pastor, pedirei aos pescadores que me deixem ir com eles ao mar, Não queiras ser pastor, Porquê, Não sei, é um sentir meu, O que tiver de ser, serei, e agora, minha mãe, Não podes ir assim, tenho de preparar-te comida para o caminho, dinheiro há pouco, mas algum se arranjará, levas o alforje do teu pai, felizmente que ele o deixou ficar, Levarei a comida, mas o alforje não, É o único que temos em casa, teu pai não tinha lepra nem sarna que se te peguem, Não posso, Um dia hás-de chorar por teu pai e não o terás, Já chorei, Chorarás mais, e então não quererás saber que culpas ele teve, a estas palavras da mãe Jesus já não respondeu. Os irmãos mais velhos aproximaram-se dele, perguntaram, Vais-te mesmo embora, nada sabiam das razões secretas da conversa entre a mãe e ele, e Tiago disse, Gostava bem de ir contigo, a este apetecia-lhe a aventura, a viagem, o risco, um horizonte diferente, Tens de ficar, respondeu Jesus, alguém deverá cuidar da nossa mãe viúva, saiu-lhe a palavra sem querer, ainda mordeu o lábio como para retê-la, mas o que não pôde reter foram as lágrimas, a lembrança viva do pai, inesperada, atingira-o como um jorro de luz insuportável.
Foi depois de terem comido, toda a família reunida, que Jesus partiu. Despediu-se dos irmãos, um por um, despediu-se da mãe que chorava, disse-lhe, sem compreender porquê, Duma maneira ou doutra, sempre voltarei, e, acomodando o alforje ao ombro, atravessou o pátio e abriu a cancela que dava para a rua. Ali parou, como se reflectisse no que estava a ponto de fazer, deixar a casa, a mãe, os irmãos, quantas e quantas vezes, no limiar duma porta ou duma decisão, um súbito e novo argumento, ou que a ansiedade do momento como tal configurou, nos faz emendar a mão, dar o dito por não dito. Assim o pensou também Maria, e já uma jubilosa surpresa se lhe vinha espelhando na cara, mas foi sol de pouca dura, porque o filho, antes de voltar atrás, pousou o alforje no chão, ao cabo duma longa pausa durante a qual parecera debater no seu íntimo um problema de resolução difícil. Jesus passou entre os seus sem os olhar e entrou em casa. Quando tornou a sair, instantes depois, trazia na mão as sandálias do pai. Calado, mantendo os olhos baixos, como se o pudor ou uma escondida vergonha não o deixassem enfrentar-se com outro olhar, meteu as sandálias no alforje e, sem mais palavra ou gesto, saiu. Maria correu para a porta, foram com ela todos os filhos, os mais velhos dando-se o ar de não dar muita importância ao caso, mas não houve acenos de despedida porque Jesus nem uma só vez se voltou para trás. Uma vizinha que, passando, presenciou a cena, perguntou, Aonde vai o teu filho, Maria, e Maria respondeu, Arranjou trabalho em Jerusalém, vai lá ficar uns tempos, descarada mentira é ela, como sabemos, mas isto de mentir e dizer a verdade tem muito que se lhe diga, o melhor é não arriscar juízos morais peremptórios porque, se ao tempo dermos tempo bastante, sempre o dia chega em que a verdade se tornará mentira e a mentira se fará verdade. Nessa noite, quando todos na casa dormiam, menos Maria que cismava em como e onde estaria àquela hora o filho, se a salvo num caravançarai, se a coberto duma árvore, se entre as pedras dum barrocal tenebroso, se em poder dos romanos, que o Senhor o não permita, ouviu ela ranger a cancela da rua, e o coração deu-lhe um salto à boca, É Jesus que volta, pensou, a alegria deixou-a, no primeiro momento, paralisada e confusa, Que devo fazer, não queria ir abrir-lhe a porta assim com modos como de triunfadora, Afinal, tanta crueza contra a tua mãe e nem ao menos uma noite aguentaste fora, seria uma humilhação para ele, o mais próprio era ficar quieta e calada, fingir que dormia, deixá-lo entrar, e se ele quiser deitar-se de mansinho na esteira sem dizer, Aqui estou, fingirei amanhã assombro perante o regresso do filho pródigo, que não é por serem breves as ausências que a alegria será menor, afinal a ausência é também uma morte, a única e importante diferença é a esperança. Mas ele tarda tanto a chegar à porta, quem sabe se nos derradeiros passos se deteve e hesitou, ora este pensamento não o pôde Maria suportar, ali está a frincha da porta por onde poderá ver sem ser vista, terá tempo de voltar à esteira se o filho se decidir a entrar, irá a tempo de retê-lo se ele se arrepende e volta para trás. Nos bicos dos pés, descalça, Maria aproximou-se e espreitou. A noite estava de lua, o chão do pátio refulgia como água. Um vulto alto e negro movia-se lentamente, avançava em direcção à porta, e Maria, mal o viu, levou as mãos à boca para não gritar. Não era o filho, era, enorme, gigantesco, imenso, o mendigo, coberto de farrapos como da primeira vez e também como da primeira vez, agora quiçá por efeito do luar, subitamente vestido de trajes sumptuosos que um sopro poderoso agitava. Maria, apavorada, segurava a porta, Que quer ele, que quer ele, murmuravam os lábios trêmulos, e de repente não soube o que pensar, o homem que dissera ser um anjo desviou-se para um lado, estava rente à porta mas não entrava, apenas o que se ouviu foi a sua respiração e logo um ruído como de rasgamento, como se uma ferida inicial da terra estivesse a ser repuxada cruelmente até se tornar em boca abissal. Maria não precisava abrir nem perguntar para saber o que acontecia por trás da sua porta. O vulto maciço do anjo tornou a aparecer, durante um rápido instante tapou com o seu grande corpo todo o campo de visão de Maria, e depois, sem um olhar para a casa, afastou-se em direcção à cancela, levando consigo, inteira da raiz à folha mais extrema, a planta enigmática que havia nascido, treze anos antes, no sítio onde a tigela fora enterrada. A cancela abriu-se e fechou-se, entre um movimento e outro o anjo transformou-se e apareceu o mendigo, sumiu-se, quem quer que fosse, do outro lado do muro, as longas folhagens arrastando atrás de si como uma serpente emplumada, agora sem sombra de ruído, como se o que sucedera não tivesse sido mais que sonho e imaginação. Maria abriu a porta devagar e, receosa, assomou. O mundo, desde o alto e inacessível céu, era todo claridade. Ali perto, rente à parede da casa, estava o negro buraco donde a planta fora arrancada, e, a partir do bordo, em direcção à cancela, um rasto de luz maior cintilava como uma via láctea, se esse nome tinha então, que o de Estrada de Santiago é que não pode ser, pois quem o nome lhe há-de vir a dar é por enquanto apenas um rapazito da Galileia, mais ou menos da idade de Jesus, sabe Deus onde estarão, um e outro, a estas horas. Maria pensou no filho, mas sem que o coração desta vez se lhe apertasse de medo, nada de mal poderia acontecer-lhe sob um céu assim, belo, sereno, insondável, e esta lua, como um pão só feito de luz, alimentando as fontes e as seivas da terra. Com a alma tranquila, Maria atravessou o pátio, pisando sem temor as estrelas do chão, e abriu a cancela. Olhou para fora, viu que o rasto acabava logo adiante, como se a potência iridescente das folhas se houvesse extinguido ou, delírio novo da fantasia desta mulher que já não poderá invocar a desculpa de estar grávida, como se o mendigo tivesse retomado a figura do anjo, usando enfim, por se tratar duma ocasião especial, as suas asas. Maria ponderou em seu íntimo estes raros sucessos e achou-os simples, naturais e justificados, tanto como estar vendo as suas próprias mãos ao luar. Voltou então para casa, tomou do gancho da parede a candeia e foi alumiar a larga cova deixada pela planta arrancada. No fundo estava a tigela vazia. Meteu a mão no buraco e tirou-a para fora, era apenas a tigela comum de que se lembrava, só com um pouquinho de terra dentro, mas apagados os seus lumes, um prosaico utensílio doméstico regressado às suas funções originais, de agora em diante tornará a servir ao leite, à água ou ao vinho, consoante o apetite e as posses, bem certo é o que se tem dito, que cada pessoa tem a sua hora e cada coisa o seu tempo.
Jesus gozou do abrigo de um tecto nesta sua primeira noite de viajante. O crepúsculo saiu-lhe ao caminho à vista dum pequeno povoado que está logo antes da cidade de Jenin, e a sua sorte, que tão maus anúncios lhe tem andado a prometer e cumprir desde que nasceu, quis, por esta vez, que os moradores da casa onde, sem muita esperança, se apresentou a pedir pousada, fossem de gente compassiva, daquela que levaria o resto da vida com remorsos se deixasse um rapazito como este ao sereno da noite, demais em época tão perturbada de guerras e assaltos, quando por um nada se crucificam almas e se acutilam crianças inocentes. Jesus declarou aos seus bondosos hospedeiros que vinha de Nazaré e ia a Jerusalém, porém não repetiu a mentira envergonhada que ainda ouvira da boca da mãe, de ir trabalhar num ofício, apenas disse que levava recado de interrogar os doutores do Templo sobre um ponto da Lei que à sua família muito interessava. Admirou-se o dono da casa de missão de tal responsabilidade ter sido entregue a mancebo tão jovem, se bem que, como claramente se percebia, já entrado na maturidade religiosa, e Jesus explicou que assim tivera de ser, uma vez que era ele o mais velho varão da família, porém sobre o pai não disse uma só palavra. Ceou com os da casa e depois foi dormir debaixo do alpendre do pátio, porque não havia ali melhores cômodos para hóspedes de passagem. A meio da noite o sonho voltou a acometê-lo, mas com diferença em relação ao que vinha sonhando, e foi que o pai e os soldados não se aproximaram tanto, nem sequer o focinho do cavalo apareceu por trás da esquina, mas que não se iluda quem julgar que por isto foram menores a agonia e o pavor, ponhamo-nos no lugar de Jesus, sonhar que o nosso próprio pai, aquele que nos deu o ser, vem aí de espada nua para nos matar. Ninguém na casa deu pela paixão que a poucos passos se representava, Jesus, mesmo dormindo, já aprendia a governar o medo, a consciência acossada punha-lhe, em último recurso, a mão na boca, e os gritos vibravam terrivelmente, mas em silêncio, dentro da cabeça apenas. Na manhã seguinte, Jesus partilhou da primeira refeição do dia, agradecendo e louvando depois os seus benfeitores com uma compostura tão séria e palavras tão apropriadas que toda a família, sem excepção, se sentiu, por momentos, como participando da inefável paz do Senhor, não obstante não passarem todos eles de uns desconsiderados samaritanos. Despediu-se Jesus e partiu, levando nos ouvidos a última palavra proferida pelo dono da casa, foi ela, Bendito sejas tu, Senhor nosso Deus, rei do universo, que diriges os passos do homem, ao que ele respondera abençoando aquele mesmo Senhor, Deus e Rei que provê a todas as necessidades, demonstração que a experiência da vida vem fazendo todos os dias persuasivamente, conforme a justíssima regra da proporção directa que manda dar mais a quem mais tiver.
O que faltava do caminho para chegar a Jerusalém não foi tão fácil. Em primeiro lugar, há samaritanos e samaritanos, o que quer dizer que já neste tempo uma andorinha não chegava para fazer uma primavera, precisando-se, quando menos, duas, das andorinhas falamos, não das primaveras, com a condição de serem macho e fêmea férteis e terem descendência. As portas a que Jesus foi bater não voltaram a abrir-se e o remédio do viajante foi dormir por aí, sozinho, uma vez, debaixo duma figueira, dessas largas e rasteirinhas como uma saia rodada, outra vez protegido por uma caravana a que se juntara e que, estando cheio o caravançarai próximo, tivera, felizmente para Jesus, de assentar o arraial em campo aberto. Dissemos felizmente porque, neste meio-tempo, quando escoteiro atravessava uns desertos montes, foi o pobre pequeno assaltado por dois meliantes, cobardes e sem perdão, que lhe roubaram o pouco dinheiro que tinha, sendo portanto causa de não poder acolher-se Jesus à segurança das estalagens, as quais, segundo as leis de um são comércio, não dão ponto sem nó nem tecto sem pago. Lástima foi, se lá estivesse alguém para apiedar-se, olhar o desamparo do pobrezinho quando os ladrões se foram, ainda a rir-se dele, com todo aquele céu por cima e as montanhas cercando, o infinito universo desprovido de significação moral, povoado de estrelas, ladrões e crucificadores. E que não nos contraponham, por favor, o argumento de que um mocinho de treze anos nunca teria a sabença científica ou a costela filosófica, sequer a mera experiência de vida, que tais reflexões pressuporiam, e que este, em especial, apesar de informado nos estudos da sinagoga e de alguma declarada agilidade mental, sobretudo nos diálogos em que foi parte, não terá justificado, em ditos e em feitos, a particular atenção de que o fizemos objecto. Filhos de carpinteiros é o que não falta nestas terras, tão-pouco faltam filhos de crucificados, mas, supondo que outro deles tivesse sido o escolhido, não duvidemos que, qualquer que fosse ele, tanta abundância de matérias aproveitáveis nos teria dado esse como nos está este dando. Em primeiro lugar porque, como já não é segredo para ninguém, todo o homem é um mundo, quer pelas vias do transcendente, quer pelos caminhos do imanente, e em segundo lugar porque esta terra sempre foi distinta das outras, basta ver a quantidade de gente de alta, média ou baixa condição que aqui andou pregando e profetizando, a principiar em Isaías e a acabar em Malaquias, nobres, sacerdotes, pastores, de tudo tem havido um pouco, por isso convém que sejamos prudentes em nossas opiniões, os humildes começos do filho de um carpinteiro não nos dão o direito de proferir juízos prematuros, que, ao parecerem definitivos, podem comprometer, desde logo, uma carreira. Este rapaz que vai a caminho de Jerusalém, quando a maioria dos da sua idade ainda não arriscam um pé fora da porta, talvez não seja exactamente uma águia de perspicácia, um portento de inteligência, mas é merecedor do nosso respeito, tem, como ele próprio declarou, uma ferida na alma, e, não lhe consentindo a sua natureza esperar que lha sarasse o simples hábito de viver com ela, até chegar a fechá-la essa cicatriz benévola que é não pensar, foi à procura do mundo, quem sabe se para multiplicar as feridas e fazer, com todas elas juntas, uma única e definitória dor. Porventura parecem tais suposições inadequadas, não só à pessoa, mas também ao tempo e ao lugar, ousando imaginar sentimentos modernos e complexos na cabeça de um aldeão palestino nascido tantos anos antes de Freud, Jüng, Groddeck e Lacan terem vindo ao mundo, mas o nosso erro, permita-se-nos a presunção, não é nem crasso nem escandaloso, se tivermos em conta o facto de abundarem, nos escritos de que estes judeus fazem alimento espiritual, exemplos tais e tantos que nos autorizam a pensar que um homem, seja qual for a época em que viva ou tenha vivido, é mentalmente contemporâneo doutro homem duma outra época qualquer. As únicas e indubitáveis excepções conhecidas foram Adão e Eva, não por terem sido o primeiro homem e a primeira mulher, mas porque não tiveram infância. E não venham cá a biologia e a psicologia protestar que na mentalidade de um homem de Cromagnon, para nós inimaginável, já estavam principiados os caminhos que tinham de levar à cabeça que hoje carregamos sobre os ombros, é um debate que aqui nunca poderia caber, porquanto daquele mesmo homem de Cromagnon não se fala no livro do Gênesis, que é a única lição sobre os começos do mundo por onde Jesus aprendeu.
Distraídos por estas reflexões, não de todo despiciendas em relação às essencialidades do evangelho que vimos explicando, esquecemo-nos de acompanhar, como seria nosso dever, o que ainda faltava da viagem do filho de José a Jerusalém, à vista da qual agora mesmo acaba de chegar, sem dinheiro, mas a salvo, com os pés castigados da longa jornada, mas tão firme de coração como quando saiu a porta de sua casa, há três dias. Não é esta a primeira vez que aqui vem, por isso não se lhe exalta o coração mais do que a conta que se espera de um devoto para quem o seu deus já se tornou familiar ou disso vai a caminho. Deste monte, chamado Gethsemane, que é o mesmo que dizer das Oliveiras, avista-se, desdobrado magnificamente, o discurso arquitetônico de Jerusalém, templo, torres, palácios, casas de viver, e tão próxima a cidade parece estar de nós que temos a impressão de lhe chegar com os dedos, sob condição de haver subido a febre mística tão alto que o crente e padecente dela acabe por confundir as fracas forças do seu corpo com a potência inexaurível do espírito universal. A tarde vai no fim, o sol descai para o lado do mar distante. Jesus começou a descer para o vale, a si mesmo perguntando onde dormirá esta noite, se dentro, se fora da cidade, das outras vezes que veio com o pai e a mãe, no tempo da Páscoa, ficou a família em tendas fora dos muros, mandadas armar benevolamente pelas autoridades civis e militares para acolhimento dos peregrinos, separados todos, nem seria preciso dizê-lo, os homens com os homens, as mulheres com as mulheres, os menores igualmente divididos por sexos. Quando Jesus chegou às muralhas, já com o primeiro ar de noite, estavam as portas a ser fechadas, ainda lhe permitiram os guardiões que entrasse, atrás de si retumbaram as trancas nos grossos madeiros, tivesse Jesus alguma aflita culpa na consciência, daquelas que em tudo vão encontrando indirectas alusões aos erros cometidos, e talvez lhe viesse à ideia uma armadilha no momento de fechar-se, uns dentes de ferro filando a canela da presa, um casulo de baba envolvendo a mosca. Porém, aos treze anos, os pecados não podem ser muitos nem temíveis, ainda não é a altura de matar ou roubar, de levantar falso testemunho, de desejar a mulher do próximo, nem a sua casa, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem nada que lhe pertença, e, assim sendo, este moço vai puro e sem mancha de erro próprio, embora leve já perdida a inocência, que não é possível ver a morte e continuar como antes. As ruas vão ficando desertas, é a hora da ceia das famílias, só quedam ainda fora os pedintes e vagabundos, mas mesmo esses já se vão recolhendo, têm lá as suas guildas, os seus fojos corporativos, daqui a pouco começarão a percorrer a cidade as patrulhas de soldados romanos, à procura dos fautores de desordem que até à própria capital do reino de Herodes Ântipas vêm cometer os seus malefícios e iniquidades, apesar dos suplícios que os esperam se são apanhados, como em Séforis se viu. Ao fundo da rua, aparece uma dessas rondas da noite alumiando-se com archotes, desfilando entre um tinir de espadas e de escudos, a compasso dos pés calçados de sandálias de guerra. Oculto num desvão, o rapaz esperou que a tropa desaparecesse, depois foi à procura de um sítio para dormir. Veio a encontrá-lo, como calculava, nas sempiternas obras do Templo, um espaço entre duas grandes pedras já aparelhadas, por cima das quais uma grande laje estava a fazer às vezes de tecto. Ali comeu o último bocado de pão duro e bafiento que lhe restava, acompanhando-o com uns poucos figos secos que desencantou no fundo do alforje. Tinha sede, mas resignou-se a passar sem beber. Enfim, estendeu a esteira, tapou-se com a pequena manta que fazia parte da sua bagagem de viajante, e, todo enroscado para proteger-se do frio que entrava de um lado e do outro do precário abrigo, pôde adormecer. Estar em Jerusalém não o impediu de sonhar, mas não foi benesse de pouca monta que, talvez por causa da tão próxima presença de Deus, o sonho se tivesse limitado à repetição das conhecidas cenas, confundidas com o desfile da rolda que tinha encontrado. Acordou quando o sol mal tinha acabado de nascer. Arrastou-se para fora do buraco, frio como um túmulo, e, enrolado na manta, olhou na sua frente o casario de Jerusalém, as casas baixinhas, de pedra, tocadas pela luz rosada. Então, com uma solenidade maior, por serem proferidas, afinal, pela boca da criança que ainda é, disse as palavras da bênção, Graças te dou, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que, pelo poder da tua misericórdia, assim me restituíste, viva e constante, a minha alma. Certos momentos há da vida que deviam ficar fixados, protegidos do tempo, não apenas consignados, por exemplo, neste evangelho, ou em pintura, ou modernamente em foto, cine e vídeo, o que interessava mesmo era que o próprio que os viveu ou tinha feito viver pudesse permanecer para todo o sempre à vista dos seus vindouros, como seria, neste dia de hoje, irmos daqui até Jerusalém para vermos, com os nossos olhos visto, este rapazito, Jesus filho de José, enroladinho na curta manta de pobre, a olhar as casas de Jerusalém e a dar graças ao Senhor por não ter sido ainda desta vez que perdeu a alma. Estando a sua vida no princípio, que são treze anos, é de prever que o futuro lhe haja reservado horas mais alegres ou tristes que esta, mais felizes ou desgraçadas, mais amenas ou trágicas, mas este é o instante que escolheríamos para nós, a cidade adormecida, o sol parado, a luz intangível, um rapazinho a olhar as casas, enrolado numa manta e com um alforje aos pés, e o mundo todo, o de perto e o de longe, suspenso, à espera. Não é possível, ele próprio já se moveu, o instante veio e passou, o tempo leva nos até onde uma memória se inventa, foi assim, não foi assim, tudo é o que dissermos que foi. Jesus caminha agora pelas estreitas ruas que se vão enchendo de gente, por enquanto é cedo para ir ao Templo, os doutores, como em todas as épocas e lugares, só começam a aparecer mais tarde. Já não sente frio, mas o estômago dá sinais, dois figos que ainda tinha só serviram para abrir-lhe os fluxos da saliva, o filho de José tem fome. Agora, sim, faz-lhe falta o dinheiro que lhe roubaram os malvados, pois a vida de cidade não é como a boa-vai-ela de andar assobiando pelos campos à mira do que neles teriam deixado os lavradores que cumprem as leis do Senhor, verbi gratia, Quando procederes à ceifa do teu campo, e te esqueceres de algum feixe, não voltes atrás para levá-lo, quando varejares as tuas oliveiras, não voltes a colher o resto que ficou nos galhos, quando vindimares a tua vinha, não rabisques o que ficou, a tudo isto deverás deixar para que o recolham o estrangeiro, o órfão e a viúva, lembra-te de que foste escravo na terra do Egipto. Ora, por ser cidade maior, e apesar de ter sido nela que Deus mandou edificar a sua morada terrestre, a Jerusalém não chegam estes humanitários regulamentos, razão por que, para quem não traga dinheiros na bolsa, nem trinta, nem três, o remédio sempre será pedir, com o provável risco de se ver repelido, por importuno, ou então roubar, com o certíssimo perigo de vir a sofrer castigo de flagelação e cárcere, senão punição pior. Roubar, este rapaz não pode, pedir, este rapaz não quer, vai pousando apenas os olhos aguados nas pilhas de pães, nas pirâmides de frutos, nas comidas cozinhadas expostas em bancas ao longo das ruas, e quase desmaia, como se todas as insuficiências nutritivas destes três dias, descontando a mesa do samaritano, se tivessem reunido nesta hora dolorosa, é verdade que o seu destino é o Templo, mas o corpo, ainda que defendam o contrário os partidários do jejum místico, receberá melhor a palavra de Deus se o alimento tiver fortalecido nele as faculdades do entendimento. Felizmente, um fariseu que vinha passando deu pelo desfalecido moço e dele se apiedou, o injusto futuro encarregar-se-á de criar uma péssima reputação a esta gente, mas no fundo eram boas pessoas, como neste caso ficou provado, Tu quem és, perguntou ele, e Jesus respondeu, Sou de Nazaré de Galileia, Tens fome, o rapaz baixou os olhos, não precisava falar, lia-se-lhe na cara, Não tens família, Sim, mas vim sozinho, Fugiste de casa, Não, e realmente não tinha fugido, recordemos que a mãe e os irmãos vieram despedir-se dele, com muito amor, à porta da casa, o não se ter voltado ele para trás uma única vez não era sinal de ir fugido, assim são as nossas palavras, dizer um Sim ou um Não é, de tudo, o mais simples e, em princípio, o mais convincente, mas a pura verdade mandaria que se começasse por dar uma resposta assim meio dubitativa, Bom, fugir, fugir, o que se chama fugir, não fugi, contudo, e neste ponto teríamos de voltar a ouvir toda a história, o que, tranquilizemo-nos, não sucederá, em primeiro lugar porque o fariseu, não tendo de voltar a aparecer, não precisa conhecê-la, em segundo lugar porque a conhecemos melhor nós do que ninguém, basta pensar no pouco que sabem umas das outras as personagens mais importantes deste evangelho, veja-se que Jesus não sabe tudo da mãe e do pai, Maria não sabe tudo do marido e do filho, e José, estando morto, não sabe nada de nada. Nós, pelo contrário, conhecemos tudo quanto até hoje foi feito, dito e pensado, quer por eles quer pelos outros, embora tenhamos de proceder como se o ignorássemos, de certa maneira somos o fariseu que perguntou, Tens fome, quando a pálida e emagrecida cara de Jesus, só por si, significava, Não me perguntes, dá-me de comer. Foi o que fez, por fim, o compadecido homem, comprou dois pães, que ainda vinham quentes do forno, e uma tigela de leite, e sem dizer palavra entregou-os a Jesus, acontecendo que na passagem de um para o outro um pouco do líquido se lhes derramou sobre as mãos, então, num gesto igual e simultâneo, vindo certamente da distância dos tempos naturais, ambos levaram a mão molhada à boca para sorver o leite, gesto como o de beijar o pão quando caiu ao chão, é pena não voltarem a encontrar-se nunca mais estes dois, se tão formoso e simbólico pacto parecia haverem firmado. Foi-se o fariseu à sua vida, mas antes tirou de dentro da bolsa duas moedas, dizendo, Toma este dinheiro e volta para casa, o mundo ainda é grande de mais para ti. O filho do carpinteiro segurava nas mãos a tigela e o pão, de súbito deixara de ter fome, ou tinha-a, mas não a sentia, olhava o fariseu que se afastava e só então é que agradeceu, porém em voz tão baixa que o outro não o poderia ter ouvido, fosse ele homem de esperar agradecimentos e pensaria que tinha feito o bem a um garoto ingrato e sem educação. Ali mesmo, no meio da rua, Jesus, cujo apetite regressara de um salto, comeu o seu pão e bebeu o seu leite, depois foi-se a entregar a tigela vazia ao vendedor, que lhe disse, Está paga, fica com ela, É costume em Jerusalém comprar o leite com as tigelas, Não, mas esse fariseu quis assim, nunca se sabe o que um fariseu tem na cabeça, Então posso levá-la, Já te disse, está paga. Jesus envolveu a tigela na manta e meteu-a no alforje enquanto pensava que tinha de dar atenção, a partir de agora, à maneira de lidar com ela, estes barros são frágeis, quebradiços; não passam de uma pouca de terra a que a fortuna deu, precariamente, consistência, como ao homem, afinal. Alimentado o corpo, despertado o espírito, Jesus orientou para o Templo os seus passos.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS (Capítulo XII)



Quando esta guerra acabar, e não tarda, que já a estamos vendo em seus derradeiros e fatais estertores, far-se-á a contagem final dos que nela perderam a vida, uns tantos aqui, uns tantos além, uns mais perto, outros mais longe, e, se é certo que, com o correr do tempo, o número daqueles que foram mortos em emboscadas ou batalhas campais acabou por perder importância ou esquecer de todo, já os crucificados, à roda de uns dois mil, segundo as estatísticas mais merecedoras de fé, permanecerão na memória das gentes da Judeia e da Galileia, a ponto de ainda deles se falar bastantes anos depois, quando um novo sangue for derramado em nova guerra. Dois mil crucificados é muito homem morto, mas mais haveriam de parecer-nos se os imaginássemos plantados a intervalos de um quilômetro ao longo duma estrada, ou rodeando, é um exemplo, o país que há-de chamar-se Portugal, cuja dimensão, na sua periferia, anda mais ou menos por aí. Entre o rio Jordão e o mar, choram as viúvas e os órfãos, é um antigo costume seu, para isso mesmo é que são viúvas e órfãos, para chorarem, depois é só esperarmos o tempo de os meninos crescerem e irem à guerra nova, outras viúvas e outros órfãos virão tomar-lhes a vez, e se entretanto mudaram as modas, se o luto, de branco, passou a ser negro, ou vice-versa, se sobre os cabelos, que antes eram arrancados, se põe agora uma mantilha bordada, as lágrimas, quando sentidas, são as mesmas.
Maria ainda não chora, mas na sua alma já leva um pressentimento de morte, pois o marido não voltou a casa e em Nazaré diz-se que Séforis foi queimada e há homens crucificados. Acompanhada do filho primogênito, Maria repete o caminho que José fez ontem, com toda a probabilidade, num ponto ou noutro, pousa os pés nas marcas das sandálias do marido, não é estação de chuva, o vento não passa duma brisa suave que mal toca o solo, mas já as pegadas de José são como vestígios de um antigo animal que tivesse habitado estas paragens numa extinta era, dizemos, Foi ontem, e é o mesmo que dizermos, Foi há mil anos, o tempo não é uma corda que se possa medir nó a nó, o tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar. Com Maria e Jesus vão moradores de Nazaré, alguns impelidos pela caridade, outros só curiosos, e há também uns vagos outros parentes de Ananias, mas esses regressarão às suas casas com as dúvidas com que saíram delas, como não o encontraram morto, bem pode ser que esteja vivo, não se lembraram de ir procurar nos escombros do armazém, e, se se lembrassem, quem sabe se reconheceriam o seu morto entre os mortos, todos o mesmo carvão. Quando, a meio do caminho, estes nazarenos se cruzaram com uma companhia de soldados enviada à sua aldeia para buscas, alguns voltarão para trás, preocupados com a sorte dos seus haveres, que nunca se pode prever o que farão soldados a quem, tendo batido eles à porta duma casa, de dentro ninguém lhes respondeu. Quis saber o comandante da força o que ia fazer aquela caterva de rústicos a Séforis, responderam-lhe, A ver o fogo, explicação que satisfez o militar, pois desde a aurora do mundo sempre os incêndios atraíram os homens, há mesmo quem diga que se trata de uma espécie de chamamento interior, inconsciente, uma reminiscência do fogo original, como se as cinzas pudessem ter memória do que queimaram, assim se justificando, segundo a tese, a expressão fascinada com que contemplamos até a simples fogueira a que nos aquecemos ou a luz duma vela na escuridão do quarto. Fôssemos nós tão imprudentes, ou tão ousados, como as borboletas, falenas e outras mariposas, e ao fogo nos lançaríamos, nós todos, a espécie humana em peso, talvez uma combustão assim imensa, um tal clarão, atravessando as pálpebras cerradas de Deus, o despertasse do seu letárgico sono, demasiado tarde para conhecer-nos, é certo, porém a tempo de ver o princípio do nada, agora que tínhamos desaparecido. Maria, embora com uma casa cheia de filhos deixados sem protecção, não voltou atrás, mas vai, ainda assim, relativamente descansada, pois não é todos os dias que numa aldeia entram soldados de peito feito a matar crianças, sem contar que estes nossos romanos, no geral, não só lhes permitem como até as animam a crescer quanto possam, e então logo se vê, depende de terem dócil o coração e em dia os impostos. Já vão sozinhos na estrada a mãe e o filho, os da família de Ananias, por serem uma meia dúzia e virem de conversa, foram-se ficando para trás, e como Maria e Jesus nada mais teriam para dizer-se que palavras de inquietação, o resultado é ir cada um deles calado para não afligir o outro, e o estranho silêncio que parece cobrir tudo, não se ouvem cantar aves, o vento parou de todo, apenas o rumor dos passos, e até este se retrai, intimidado, como um intruso de boa fé que entra numa casa deserta. Séforis apareceu de repente na última volta da estrada, nalgumas casas ainda a arder, tênues colunas de fumo aqui e além, paredes enegrecidas, árvores de alto a baixo queimadas mas conservando a folhagem, agora cor de ferrugem. Deste lado, à nossa mão direita, as cruzes.
Maria largou a correr, mas a distância é demasiada para que possa vencê-la de um fôlego, não tarda que abrande a carreira, com tantos e tão seguidos partos o coração desta mulher facilmente desfalece. Jesus, como filho respeitador, quereria acompanhar sua mãe estar ao lado dela, agora e lá adiante, para gozarem juntos a mesma alegria ou juntos sofrerem o mesmo desgosto, mas ela avança tão devagar, custa-lhe tanto mexer as pernas, assim nunca mais chegamos, minha mãe, ela faz um gesto que significa, Se queres, vai tu, e ele, cortando através do campo, para atalhar caminho, lança-se numa corrida louca, Pai, pai, di-lo com a esperança de que ele ali não esteja, di-lo com a dor de quem já o encontrou. Chegou às primeiras filas, alguns crucificados ainda estão dependurados, a outros retiraram-nos, estão no chão, à espera, são poucos os que têm família a rodeá-los, é que estes rebeldes, na sua maior parte, vieram de longe, pertencem a uma tropa diversa que neste lugar travou a sua última e unida batalha, neste momento estão definitivamente dispersos, cada um por si, na inexprimível solidão da morte. Jesus não vê o pai, o coração quer encher-se-lhe de alegria, mas a razão diz, Espera, ainda não chegamos ao fim, e realmente o fim é agora, deitado no chão está o pai que eu procurava, quase não sangrou, só as grandes bocas das chagas nos pulsos e nos pés, parece que dormes, meu pai, mas não, não dormes, não poderias, com as pernas assim torcidas, já foi caridade terem-te descido da cruz, mas os mortos são tantos que as boas almas que de ti cuidaram não tiveram tempo para endireitarte os ossos partidos. O rapazinho chamado Jesus está ajoelhado ao lado do cadáver, chorando, quer tocar-lhe, mas não se atreve, porém chega o momento em que a dor é mais forte que o temor da morte, então abraça-se ao corpo inerte, Meu pai, meu pai, diz, e outro grito se junta ao dele, Ai José, ai meu marido, é Maria que enfim chegou, exausta, vinha chorando já de longe porque já de longe, vendo parar-se o filho, sabia o que a esperava. O choro de Maria redobra quando ela repara na cruel torção das pernas do marido, na verdade não se sabe, depois de morrer, o que acontece às dores sentidas em vida, principalmente as últimas, é possível que com a morte se acabe realmente tudo, mas também nada nos garante que, ao menos durante umas horas, uma memória de sofrimento não se mantenha num corpo que dizemos morto, não sendo mesmo de excluir ser a putrefacção o último recurso que resta à matéria para, definitivamente, se libertar da dor. Com uma doçura, com uma suavidade que em vida do marido não se atreveria a usar, Maria tentou reduzir os lastimáveis ângulos das pernas de José, que, tendo-lhe ficado a túnica, ao descerem-no da cruz, um pouco arregaçada, lhe davam o aspecto grotesco de um fantoche partido nos engonços. Jesus não tocou no pai, ajudou apenas a mãe a puxar-lhe a túnica para baixo, mesmo assim ficaram à vista as magras canelas do homem, talvez, no corpo humano, a parte que mais pungente impressão de fragilidade nos dá. Os pés, por estarem as tíbias rotas, descaíam lateralmente, mostrando as feridas dos calcanhares, donde era preciso enxotar constantemente as moscas vindas ao cheiro do sangue. As sandálias de José tinham caído ao lado do grosso tronco de que fora o fruto final. Gastas, cobertas de pó, ali poderiam ter ficado ao abandono se Jesus as não tivesse recolhido, fê-lo sem pensar, como se tivesse recebido uma ordem estendeu o braço, Maria nem deu pelo movimento, e prendeu-as no cinto, acaso deveria ser esta a herança simbólica mais perfeita dos primogênitos, há coisas que começam de uma maneira tão simples como esta, por isso se diz ainda hoje, Com as botas do meu pai também eu sou homem, ou, segundo versão mais radical, Com as botas do meu pai é que eu sou homem.
Um pouco afastados, estavam soldados romanos vigiando, prontos a intervir no caso de haver atitudes ou gritos sediciosos por parte daqueles que, chorando e lamentando, cuidavam dos supliciados. Mas esta gente não era de febra guerreira, ou não o demonstravam agora, o que faziam era dizer as suas preces fúnebres, iam de crucificado em crucificado, e nisto tardaram mais de duas horas das nossas, nenhum destes mortos ficou sem o bento viático das orações e das rasgaduras de vestes, do lado esquerdo sendo parentes, do lado direito não o sendo, na tranquilidade da tarde ouviam-se as vozes entoando os versículos, Senhor, que é o homem para que te interesses por ele, que é o filho do homem para que com ele te preocupes, o homem é semelhante a um sopro, os seus dias passam como a sombra, qual é o homem que vive e que não vê a morte, ou poupa a sua alma escapando à sepultura, o homem nascido de mulher é escasso de dias e farto de inquietação, aparece como a flor e como ela é cortada, vai como vai a sombra e não permanece, que é o homem para que te lembres dele, e o filho do homem para que o visites. Contudo, depois deste reconhecimento da irremediável insignificância do homem perante o seu Deus, proferido num tom tão profundo que mais parecia vir da própria consciência do que da voz que serve as palavras, o coro subia e atingia uma espécie de exultação, para proclamar à face do mesmo Deus uma inesperada grandeza, Porém, lembra-te de que pouco menor fizeste o homem do que os anjos, e de glória e honra o coroaste. Quando chegaram a José, a quem não conheciam, e porque era o último dos quarenta, não foram tão demorados, no entanto o carpinteiro levou para o outro mundo tudo quanto precisava, e a pressa justificava-se porque a lei não permite que os crucificados fiquem até ao dia seguinte sem sepultura, e o sol já lá vai descaindo, daqui ao crepúsculo não tarda. Sendo ainda tão novo, Jesus não tinha de rasgar a túnica, estava dispensado dessa demonstração de luto, mas a sua voz, fina, vibrante, ouviu-se por cima das outras quando entoou, Bendito sejas tu, Senhor, nosso Deus, rei do universo, que com justiça te criou, que com justiça te manteve a vida, que com justiça te alimentou, que com justiça te fez conhecer o mundo, que com justiça te há-de fazer ressurgir, bendito sejas tu, Senhor, que os mortos ressuscitas. Deitado no chão, José, se ainda sente as dores dos cravos, talvez possa também ouvir estas palavras, ele saberá que lugar ocupou verdadeiramente a justiça de Deus na sua vida, agora que nem de uma nem de outra pode esperar mais nada. Terminadas as preces, era preciso sepultar os mortos, mas, sendo tantos e vindo tão próxima a noite, não é possível procurar para cada um o seu próprio lugar, túmulos a sério, que se pudessem tapar com uma pedra rodada, e quanto a envolver os corpos com as faixas mortuárias, ou mesmo a simples mortalha, nem pensar. Deliberaram, pois cavar uma vala comprida onde todos coubessem, não foi esta a primeira vez nem há-de ser a última, os corpos descerão à terra vestidos como se encontram, a Jesus deram também uma enxada e ele trabalhou valentemente a terra ao lado dos homens adultos, quis até o destino, que em tudo é mais sábio, que no terreno por ele cavado fosse sepultado o pai, assim se cumprindo a profecia, O filho do homem enterrará o homem, mas ele próprio ficará insepulto. Que estas palavras, à primeira vista enigmáticas, não vos levem a pensamentos superiores, o que aí fica pertence à escala do óbvio, quis apenas dizer que o último homem, por último ser, não terá quem lhe dê sepultura. Ora, não será tal o caso deste rapaz que acaba de enterrar o pai, com ele não se vai acabar o mundo, ainda cá ficaremos milênios e milênios em constante nascer e morrer, e se o homem tem sido, com igual constância, lobo e carrasco do homem, com mais razões ainda continuará a ser o seu coveiro.
O sol já passou para o outro lado da montanha. Há grandes nuvens escuras levantadas sobre o vale do Jordão, movendo-se devagar na direcção do poente, como atraídas por essa última luz que lhes tinge de vermelho o nítido bordo superior. O ar refrescou de repente, é bem possível que esta noite chova, mesmo não sendo o próprio da estação. Os soldados já se retiraram, aproveitam a última luz do dia para regressar ao acampamento que está por aí algures e onde provavelmente já chegaram os seus camaradas de armas que a Nazaré foram de investigadores, uma guerra moderna assim é que se faz, com muita coordenação, não como tem andado a fazê-la o Galileu, o resultado está à vista, trinta e nove guerrilheiros crucificados, o quadragésimo era um pobre inocente, vinha por bem e mal lhe saiu. A gente de Séforis irá procurar ainda na cidade queimada um lugar onde ficar de noite, e amanhã cedo cada família passará revista ao que restar da sua casa, se alguns bens escaparam ao incêndio, e depois ala a buscar vida, que Séforis não foi apenas queimada, tão cedo não vai Roma permitir que a cidade seja reconstruída. Maria e Jesus são duas sombras no meio duma floresta só feita de troncos, a mãe puxa o filho para si, dois medos à procura duma coragem, o céu negro não ajuda, e os mortos debaixo do chão parece quererem reter os pés dos vivos. Jesus disse à mãe, Dormimos na cidade, e Maria respondeu, Não podemos, teus irmãos estão sozinhos e têm fome. Mal viam o chão que pisavam. Finalmente, depois de muito tropeçar e uma vez cair, alcançaram a estrada, que era como o leito seco de um rio abrindo um pálido rasto na noite. Quando já tinham deixado Séforis para trás, começou a chover, primeiro umas gotas pesadas que faziam na poeira espessa do caminho um ruído macio, se tais palavras, emparelhadas, fazem sentido. Depois a chuva carregou, contínua, insistente, em pouco tempo a poeira tornou-se lama, Maria e o filho tiveram de descalçar-se para não perderem as sandálias nesta jornada. Vão calados, a mãe cobrindo a cabeça do filho com o seu manto, não têm nada para dizer um ao outro, talvez até pensem, confusamente, que não é certo estar José morto, que em chegando a casa o irão encontrar atendendo aos filhos o melhor que pode, e que perguntará à mulher, Que ideia foi a vossa de irem à cidade sem que eu vos desse licença, porém já voltaram aos olhos de Maria as lágrimas, e não foi apenas por causa do desgosto e do luto, é também esta infinita canseira, este castigo da chuva, impiedoso, esta noite sem remédio, tudo triste e negro de mais para que José possa estar vivo. Um dia, alguém irá dizer à viúva que um prodígio se deu às portas de Séforis, terem ganho raízes novas e folhas os troncos que serviram ao suplício, e dizer prodígio não é abusar da palavra, em primeiro lugar porque, contra o costume, os romanos não os levaram consigo quando se foram, em segundo lugar por ser impossível que troncos assim cortados, no pé e na cabeça, ainda tivessem dentro seiva e rebentos capazes de tornar paus grosseiros e ensanguentados em árvores vivas. Foi o sangue dos mártires, diziam os crédulos, foi a chuva, rebatiam os cépticos, mas nem o sangue derramado nem a água caída do céu haviam podido fazer verdejar, antes, tantas cruzes abandonadas nos cerros das montanhas ou nas chapadas do deserto. O que ninguém ousou foi dizer que havia sido a vontade de Deus, não só por ser essa vontade, qualquer que ela seja, inescrutável, mas também por não se reconhecerem razões e méritos particulares aos crucificados de Séforis para serem beneficiários de tão singular manifestação da graça divina, muito mais própria de deuses pagãos. Por muito tempo aqui ficarão estas árvores, e o dia chegará em que se terá perdido a memória do que aconteceu, então, dado que os homens para tudo querem explicação, falsa ou verdadeira, inventar-se-ão umas quantas histórias e lendas, ao princípio ainda conservando alguma relação com os factos, depois mais tenuemente, até tudo se transformar em pura fábula. E outro dia chegará em que as árvores morrerão de velhice e serão cortadas, e outro ainda em que, por causa duma autoestrada, ou duma escola, ou duma casa de morar, ou dum centro comercial, ou dum fortim de guerra, as escavadoras revolverão o terreno e farão sair à luz do dia, assim outra vez nascidos, os esqueletos que por dois mil anos ali jazeram. Virão então os antropólogos e um professor de anatomia examinará os restos, para mais tarde anunciar ao mundo escandalizado que, naquele tempo, os homens, afinal, eram crucificados com as pernas encolhidas. E porque o mundo não podia exautorá-lo em nome da ciência, aborreceu-o em nome da estética.
Quando Maria e Jesus chegaram a casa, sem um fio de roupa enxuto em cima do corpo, emporcalhados de lama e tiritando de frio, as crianças estavam mais sossegadas do que se podia ter imaginado, graças ao desembaraço e iniciativa dos mais velhos, Tiago e Lísia, que, percebendo que a noite arrefecera, se lembraram de acender o forno, e assim se aconchegaram todos, tentando compensar os apertos da fome de dentro pelo conforto do calor de fora. Ouvindo o bater da cancela no pátio, Tiago foi abrir a porta, a chuva tornara se num dilúvio donde vinham fugindo a mãe e o irmão, e quando eles entraram foi como se a casa tivesse ficado de repente inundada. As crianças olharam, souberam que o pai não viria quando a porta voltou a fechar-se, mas calaram, e foi Tiago quem fez a pergunta, O pai. O barro do chão absorvia lentamente a água que pingava das túnicas encharcadas, ouvia-se no silêncio o estalar da lenha úmida que ardia na entrada do forno, as crianças olhavam a mãe. E Tiago tornou a perguntar, O pai. Maria abriu a boca para responder, mas a palavra fatal, como o baraço da forca, apertou-lhe a garganta, e foi Jesus quem teve de dizer, O pai morreu, e, sem saber bem por que o fazia, ou por ser essa a prova insofismável da definitiva ausência, retirou do cinto as sandálias molhadas e mostrou-as aos irmãos, Aqui estão. Já as primeiras lágrimas tinham saltado dos olhos dos mais crescidos, mas foi a vista das sandálias vazias que fez alastrar o choro, agora estavam chorando todos, a viúva e os seus nove filhos, e ela não sabia a qual acudir, ajoelhou-se enfim no chão, exaurida de forças, e as crianças vieram para ela e rodearam-na, um cacho vivo que não precisava ser pisado para verter esse branco sangue que é a lágrima. Apenas Jesus se mantivera de pé, apertando as sandálias contra o peito, vagamente pensando que um dia as calçará, neste instante mesmo, se fosse capaz de ousar. Aos poucos, as crianças foram deixando a mãe, os mais crescidos, por essa espécie de pudor que quer que soframos sozinhos, os mais pequenos, porque os irmãos se tinham ido e porque eles próprios não podiam atingir um real sentimento de desgosto, choravam apenas, nisto são as crianças como os velhos, que choram por coisa nenhuma, mesmo quando já deixaram de sentir, ou porque deixaram de sentir. Durante algum tempo ali ficou Maria, de joelhos no meio da casa, como se esperasse uma decisão ou uma sentença, deu-lhe o sinal um longo arrepio, a roupa molhada no corpo, então levantou-se, abriu a arca e tirou uma túnica velha e remendada que fora do marido, entregou-a a Jesus, dizendo, Despe o que tens vestido, põe isto e vai sentar-te ao pé do lume. Depois chamou as duas filhas, Lísia e Lídia, fê-las levantar e segurar uma esteira, a fazer de biombo, e por trás dela mudou também de roupa, após o que, com o pouco de comer que havia em casa, começou a preparar a ceia. Jesus, junto ao forno, aquecia-se com a túnica do pai, que lhe ficava comprida de mangas e de fralda, já se sabe que noutra ocasião os irmãos se teriam rido dele, espantalho que devia parecer, mas hoje não se atreveriam, não só em virtude do grande desgosto, mas também por aquele ar de adulta majestade que se desprendia do rapaz, como se de uma hora para outra tivesse crescido até à sua máxima altura, e esta impressão tornou-se ainda mais forte quando ele, em movimentos lentos e medidos, colocou as úmidas sandálias do pai a jeito de receberem o calor da boca do forno, gesto que não serviria a qualquer fim prático, se já não era deste mundo o dono delas. Tiago, o irmão que vinha a seguir, foi sentar-se ao lado dele, e perguntou em voz baixa, Que foi que aconteceu ao nosso pai, Crucificaram-no com os guerrilheiros, respondeu Jesus também sussurrando, Porquê, Não sei, estavam lá quarenta, e o pai era um deles, Talvez fosse um guerrilheiro, Quem, O pai, Não era, sempre estava aqui, entregue ao seu trabalho, E o burro, encontraram-no, Nem vivo, nem morto. A mãe tinha acabado de preparar a ceia, sentaram-se todos à volta da malga comum e comeram do que havia. No fim, os mais novinhos já cabeceavam de sono, é certo que o espírito ainda estava agitado, mas o corpo cansado reclamava descanso. As esteiras dos rapazes foram estendidas ao longo da parede do fundo, Maria dissera às filhas, Deitem-se aqui comigo, ficou cada uma de seu lado para não haver ciúmes. Pela frincha da porta entrava um ar frio, mas a casa mantinha-se aquecida, havia o calor remanescente do forno, o dos corpos próximos, a família, aos poucos, apesar da tristeza e dos suspiros, ia caindo no sono, Maria dava o exemplo, segurava as lágrimas, queria que os filhos adormecessem depressa, por eles próprios, mas também para poder ficar sozinha com o seu desgosto, de olhos bem abertos para a sua futura vida sem marido e nove filhos para criar. Mas também a ela, em meio de um pensamento, se lhe foi a dor da alma, o corpo indiferente recebeu o sono sem resistir, e agora todos dormem.
A meio da noite, um gemido fez despertar Maria. Pensou que havia sido ela própria, a sonhar, mas não estivera sonhando, e o gemido repetira-se agora, mais forte. Endireitou-se, com cuidado para não acordar as filhas, olhou em redor, mas a luz da candeia não alcançava o fundo da casa, Qual deles será, pensou, mas em seu coração sabia que era Jesus que estava gemendo. Ergueu-se sem ruído, foi buscar a candeia ao prego da porta e, levantando-a acima da cabeça para alumiar melhor, passou em revista os filhos adormecidos, Jesus, é ele que se mexe e murmura, como se estivesse lutando num pesadelo, de certeza que sonha com o pai, um menino desta idade ter visto o que viu, morte, sangue e tortura. Pensou Maria que devia acordá-lo, interromper esta outra forma de agonia, mas não o fez, não queria ouvir o filho contar-lhe o que sonhava, mas esta razão mesma lhe esqueceu quando reparou que Jesus tinha calçadas as sandálias do pai. O insólito do caso desconcertou-a, que estúpida ideia, sem justificação, e também que falta de respeito, usar as sandálias do próprio pai no próprio dia da sua morte. Voltou para a esteira, sem saber já o que pensar, talvez o filho estivesse a repetir em sonho, por obra das sandálias e da túnica, a mortal aventura do pai desde que de casa saiu, e, sendo assim, passara ao mundo dos homens, a que já pertencia pela lei de Deus, mas onde agora se instalava por um novo direito, o de suceder ao pai nos bens, fossem eles somente uma túnica velha e umas sandálias cambadas, e nos sonhos, mesmo para apenas reviver os últimos passos dele na terra. Não pensou Maria que o sonho pudesse ser outro.
O dia amanheceu límpido, sem nuvens, o sol veio quente e luminoso, não havia que temer um retorno da chuva. Maria saiu de casa cedo, com todos os seus filhos varões em idade de ir à escola, e também Jesus, que, como foi dito na altura, já acabou a sua instrução. Ia à sinagoga dizer da morte de José e das presumíveis circunstâncias que para ela teriam concorrido, acrescentando que, apesar de tudo, a ele como aos outros infelizes, ponto não despiciendo, tinham sido feitas as encomendações fúnebres que a pressa e o lugar permitiam, em todo o caso bastantes, em teor e em número, para poder afirmar-se que, no geral, o ritual fora cumprido. No regresso a casa, enfim a sós com o filho mais velho, pensou Maria que era uma boa ocasião para perguntar-lhe por que havia calçado ele as sandálias do pai, mas no último momento um escrúpulo a reteve, o mais provável seria não saber Jesus que explicação dar-lhe e, assim humilhado, ver, pelos olhos da mãe, confundido o seu acto, sem dúvida excessivo, com a falta trivialíssima que é levantar-se de noite uma criança para ir, às escondidas, comer um bolo, podendo sempre, se apanhada, alegar a fome como desculpa, o que do episódio das sandálias não poderá ser dito, salvo tratando-se duma outra espécie de fome, que não saberíamos, nós, explicar. Na cabeça de Maria surgiu depois outra ideia, que o filho era agora o chefe da casa e da família, e, sendo assim, estava bem que ela, sua mãe e sua dependente, se empenhasse em mostrar-lhe respeito e atenção condizentes, como fosse, por exemplo, interessar-se por aquele mal de espírito que lhe afligira o sono, Sonhaste com teu pai, perguntou, e Jesus fez que não ouvira, virou a cara para o outro lado, mas a mãe, firme no propósito, insistiu, Sonhaste, não esperava que o filho lhe respondesse primeiro, Sim, logo a seguir, Não, e que se lhe carregasse a expressão daquela maneira, que parecia que tinha outra vez diante dos olhos o pai morto. Prosseguiram calados o caminho, e em chegando a casa foi-se Maria a cardar uma lã, pensando já que por necessidade do sustento da família deveria começar a fazê-lo mais para fora, aproveitando a boa mão que continuava a ter para o mester. Por sua vez, Jesus, que olhara o céu, a confirmar as boas disposições do tempo, chegou-se ao banco de carpinteiro que fora de seu pai e que estava no alpendre, começando por verificar, uma por uma, as obras interrompidas, e depois o estado das ferramentas, com o que Maria se alegrou muito em seu coração, ao ver que o filho tomava tão a sério, desde este primeiro dia, as suas novas responsabilidades. Quando os mais novos voltaram da sinagoga e todos se juntaram para comer, só um observador atentíssimo notaria que esta família sofrera há poucas horas a perda do seu chefe natural, marido e pai, e, a não ser Jesus, cujas negras sobrancelhas, crispadas, seguem um pensamento escondido, os mais, incluindo Maria, parecem tranquilos, de uma serenidade composta, porque está escrito, Chora amargamente e irrompe em gritos de dor, observa o luto segundo a dignidade do morto, um dia ou dois por causa da opinião pública, depois consola-te da tua tristeza, e escrito está também, Não entregues o teu coração à tristeza, mas afasta-a e lembra-te do teu fim, não te esqueças dele porque não haverá retorno, em nada aproveitarás ao morto e só causarás dano a ti mesmo. Ainda é cedo para o riso, que a seu tempo virá, como os dias vêm após os dias e as estações após as estações, mas a melhor lição é a do Eclesiastes, que disse, Por isso louvei a alegria, visto não haver nada de melhor para o homem, debaixo do sol, do que comer, beber e divertir-se, é isto que o acompanha no seu trabalho, durante os dias que Deus lhe outorgar debaixo do sol. À tarde, Jesus e Tiago subiram à açoteia da casa para tapar com palha amassada em barro as fendas do tecto, pelas quais, durante a noite inteira, a água gotejara, a ninguém há-de surpreender que então não se tenha falado de tão humildes pormenores da nossa vida quotidiana, a morte de um homem, inocente ou não, sempre deverá prevalecer sobre todas as coisas.
Outra noite chegou, outro dia começava, ceou a família como pôde e foi-se deitar nas esteiras. Lá pela madrugada, Maria acordou espavorida, não era ela quem sonhava, não, mas o filho, e agora com choros e gemidos de cortar o coração, de tal modo que acordaram também os irmãos mais velhos, aos outros seria preciso muito mais para os arrancar do sono profundo que é o da inocência nestas idades. Maria correu a acudir ao filho que se debatia, com os braços levantados, como se tentasse defender-se de golpes de espada ou de lança, aos poucos esmoreceu, ou por se terem retirado os salteadores ou por se lhe estar acabando a vida. Jesus abriu os olhos, agarrou-se com força à mãe como se não fosse o homenzinho que é, patrão da sua família, até um homem adulto, se chora, se transforma em criancinha, não o querem confessar, pobres tontos, mas o dorido coração embala-se nas lágrimas. Que tens, meu filho, que tens, perguntou Maria, inquieta, e Jesus não podia responder, ou não queria, uma crispação em que já não havia nada da criança selava-lhe os lábios, Diz-me o que sonhaste, insistiu Maria, e, como tentando abrir-lhe um caminho, Viste o pai, o rapaz fez um brusco gesto negativo, depois soltou-se-lhe dos braços e deixou-se recair na esteira, Vai dormir, disse, e, dirigindo-se aos irmãos, Não é nada, durmam, eu estou bem. Maria voltou para junto das filhas, mas ficou, quase até ao amanhecer, de olhos abertos, atenta, esperando a cada momento que o sonho de Jesus se repetisse, que sonho teria sido esse para tão grande aflição, porém nada veio a acontecer. Não pensou Maria que o filho poderia estar acordado só para impedir-se de voltar a sonhar, o que sim pensou foi na coincidência, em verdade singular, de Jesus, que sempre gozara de sonos tranquilos, ter começado com os pesadelos a seguir à morte do pai, Senhor meu Deus, que não seja o mesmo sonho, implorou, o senso comum dizia-lhe, para sua tranquilidade, que os sonhos não se legam nem se herdam, bem enganada está, que não têm precisado os homens de comunicar uns aos outros os sonhos que sonham para que os andem sonhando iguais de pais em filhos e às mesmas horas. Enfim, amanheceu, iluminou-se a frincha da porta. Quando acordou, Maria viu que o lugar do filho mais velho estava vazio, Aonde terá ido, pensou, levantou-se rapidamente, abriu a porta e espreitou para fora, Jesus estava sentado debaixo do alpendre, na palha do chão, com a cabeça sobre os braços e os braços sobre os joelhos, imóvel. Arrepiada pelo ar frio da manhã, mas também, embora disso mal tivesse consciência, pela visão da solidão do filho, a mãe aproximou-se, Sentes-te doente, perguntou, o rapaz levantou a cabeça, Não, doente não estou, Então, que se passa contigo, São estes meus sonhos, Sonhos, dizes, Um sonho só, o mesmo esta noite e a outra, Sonhaste com o pai na cruz, Já te tinha dito que não, sonho com o pai mas não o vejo, Havias-me dito que não sonhaste com ele, Porque não o vejo, mas tenho a certeza de que está no sonho, E que sonho é esse que te anda a atormentar. Jesus não respondeu logo, olhou a mãe com uma expressão desamparada, e Maria sentiu como se um dedo lhe tocasse o coração, ali estava o seu filho, com aquela cara ainda de menino, o olhar mortiço de não haver dormido, e o primeiro buço de homem, ternamente ridículo, era o seu filho primogênito, a ele se confiava e entregava para o resto dos seus dias, Conta-me tudo, pediu, e Jesus disse, enfim, Sonho que estou numa aldeia que não é Nazaré e que tu estás comigo, mas não és tu porque a mulher que no sonho é minha mãe tem uma cara diferente, e há outros rapazes da minha idade, não sei quantos, e mulheres que são as mães, não sei se as verdadeiras, houve alguém que nos reuniu a todos na praça, e estamos à espera de uns soldados que nos vêm matar, ouvimo-los na estrada, aproximam-se mas não os vemos, nessa altura ainda não estou com medo, sei que é um sonho ruim, nada mais, mas de repente tenho a certeza de que o pai vem lá com os soldados, viro-me para ti, para que me defendas, embora não esteja seguro de que sejas tu, mas tu foste-te embora, e as mães todas foram-se embora, apenas ficamos nós, que então já não somos rapazes, mas meninos muito pequenos, eu estou deitado no chão e começo a chorar, e os outros choram todos, mas eu sou o único cujo pai vem com os soldados, olhamos para a entrada da praça, sabemos que entrarão por ali, e não entram, estamos à espera de que entrem mas não entram, e é ainda pior, os passos aproximam-se, é agora, e não é, não chega a ser, então vejo-me a mim mesmo, como sou agora, dentro da criancinha que também sou, e começo a fazer um grande esforço para sair dela, é como se estivesse atado de pés e mãos, chamo por ti, que te foste, chamo pelo pai, que me vem matar, e assim foi que acordei, esta noite e a outra. Maria arrepiava-se de horror, logo às primeiras palavras, mal percebeu o sentido do sonho, baixara os olhos aflitos, afinal, estava a acontecer o que tanto temera, contra todo o senso comum e a razão Jesus herdara o sonho do pai, não exactamente da mesma maneira, mas como se o pai e o filho, cada um em seu lugar, o estivessem, ao mesmo tempo, sonhando. E tremeu de verdadeiro pavor quando ouviu o filho perguntar-lhe, Que sonho era aquele que o pai tinha todas as noites, Ora, um sonho mau, como qualquer pessoa, Mas esse sonho, que era, Não sei, nunca mo contou, Mãe, não deves esconder a verdade ao teu filho, Não seria bom para ti sabê-lo, Que podes tu saber do que é bom ou mau para mim, Respeita a tua mãe, Sou teu filho, tens o meu respeito, mas agora estás a ocultar de mim o que é da minha vida, Não me obrigues a falar, Um dia perguntei ao pai qual a razão do seu sonho, e ele disse-me que nem eu podia fazer-lhe todas as perguntas, nem ele podia dar-me todas as respostas, Aí tens, aceita as palavras de teu pai, Aceitei-as enquanto viveu, mas agora sou o chefe da família, herdei dele uma túnica, umas sandálias e um sonho, com isto já poderia ir-me ao mundo, porém preciso saber que sonho levaria comigo, Meu filho, talvez não tornes a sonhá-lo. Jesus olhou a mãe de frente, forçou-a a olhá-lo também, e disse, Renunciarei a sabê-lo se na próxima noite o sonho não voltar, se não voltar nunca mais, mas, se ele se repetir, jura-me tu que me dirás tudo, Juro, respondeu Maria, que não sabia já como defender-se da insistência e da autoridade do filho. No silêncio do seu angustiado coração, um apelo subiu para Deus, sem palavras, ou, se as tivesse, poderiam ser, Passa-me, Senhor, a mim, este sonho, que até ao dia da minha morte tenha eu de sofrê-lo em todos os instantes, mas o meu filho, não, o meu filho, não. Disse Jesus, Lembrar-te-ás do que prometeste, Lembrar-me-ei, respondeu Maria, mas consigo mesma ia repetindo, O meu filho, não, o meu filho, não.
O meu filho, sim. Veio a noite, de madrugada um galo preto cantou, e o sonho repetiu-se, o focinho do primeiro cavalo apareceu na esquina. Maria ouviu os gemidos do filho, mas não foi consolá-lo. E Jesus, a tremer, banhado no suor do medo, não precisou perguntar para saber que a mãe também acordara, Que irá ela contar-me, pensou, enquanto Maria, por seu lado, cismava, Como lho contarei, e buscava maneiras de não dizer tudo. De manhã, quando se levantaram, Jesus disse à mãe, Vou contigo levar os meus irmãos à sinagoga, depois virás tu comigo ao deserto, pois temos de falar. A pobre Maria, enquanto preparava a comida dos filhos, caíam-lhe as coisas das mãos, mas o vinho da agonia fora servido, agora havia que bebê-lo. Deixados os mais novos na escola, mãe e filho saíram da aldeia, e ali, no descampado, sentaram-se debaixo duma oliveira, ninguém, a não ser Deus, se por estes lados andar, poderá ouvir o que disserem, as pedras sabemos que não falam, mesmo se as batemos umas contra as outras, e quanto à terra profunda, ela é o lugar onde todas as palavras se tornam em silêncio. Jesus disse, Cumpre o que juraste, e Maria respondeu sem rodear, Teu pai sonhava que ia de soldado, com outros soldados, a matar-te, A matar-me, Sim, Esse é o meu sonho, Sim, confirmou ela, aliviada, Afinal foi simples, pensou, e em voz alta, Agora já sabes, voltemos para casa, os sonhos são como as nuvens, vêm e vão, foi só por muito quereres a teu pai que lhe herdaste o sonho, mas ele não te matou, nem nunca te mataria, e ainda que tivesse sido por uma ordem do Senhor, no último momento o anjo lhe deteria a mão, como fez a Abraão quando ia sacrificar seu filho Isaac, Não fales do que não sabes, cortou secamente Jesus, e Maria viu que o vinho amargo teria de ser bebido até ao fim, Consente, meu filho, que ao menos eu saiba que nada se pode opor à vontade do Senhor, qualquer que seja, e que se o Senhor teve agora uma vontade e logo a seguir vai ter outra, contrária, nem tu nem eu somos parte na contradição, respondeu Maria, e, cruzando as mãos no regaço, ficou à espera. Jesus disse, Responderás a todas as perguntas que eu te fizer, Responderei, disse Maria, Desde quando começou meu pai a ter o sonho, Há muitos anos, Quantos, Desde que nasceste, Todas as noites o sonhou, Sim, creio que todas as noites, nos últimos tempos já não me fazia acordar, uma pessoa acostuma-se, Nasci em Belém de Judeia, Assim é, Que foi que aconteceu no meu nascimento para que meu pai sonhasse que me ia matar, Não foi no teu nascimento, Mas tu disseste, O sonho apareceu umas semanas depois, Que foi que se passou nessa altura, Herodes mandou matar os meninos de Belém com menos de três anos, Porquê, Não sei, O pai sabia, Não, Mas a mim não me mataram, Vivíamos numa cova fora da aldeia, Queres dizer que os soldados não me mataram porque não chegaram a ver-me, Sim, Meu pai era soldado, Nunca foi soldado, Que fazia então, Trabalhava nas obras do Templo, Não compreendo, Estou a responder às tuas perguntas, Se os soldados não chegaram a ver-me, se vivíamos fora da aldeia, se o pai não era soldado, se não tinha responsabilidade, se nem sequer sabia por que motivo mandou Herodes matar os meninos, Sim, teu pai não soube por que motivo Herodes mandou matar os meninos, Então, Nada, se não tens mais perguntas a fazer-me, eu não tenho mais respostas a dar-te, Ocultas-me qualquer coisa, Ou és tu que não és capaz de ver. Jesus ficou calado, sentia sumir-se, como água num chão seco, a autoridade com que falara à mãe, ao mesmo tempo em que, num canto qualquer da sua alma, lhe parecia ver desenroscar-se uma ideia ignóbil, de linhas que se moviam ainda, mas monstruosa logo ao nascer. Na encosta duma colina em frente passava um rebanho de ovelhas, tanto elas como o pastor tinham a cor da terra, eram terra movendo-se sobre terra. O rosto tenso de Maria descobriu-se numa expressão de surpresa, aquele pastor alto, aquele modo de caminhar, tantos anos depois e neste justo momento, que sinal será, afirmou melhor os olhos e duvidou, que agora era um vulgar vizinho de Nazaré levando as suas poucas ovelhas ao pasto, tão enfezadas elas como ele. No espírito de Jesus a ideia acabou de formar-se, quis sair para fora do corpo mas a língua travou-lhe a passagem, enfim, com uma voz temerosa de si mesma disse, O pai sabia que os meninos iam ser mortos. Não perguntou, por isso Maria não teve de responder. Como soube ele, agora sim que era uma pergunta, Estava a trabalhar nas obras do Templo, em Jerusalém, quando ouviu uns soldados que falavam do que iam fazer, E depois, Veio a correr para te salvar, E depois, Pensou que não seria preciso fugirmos e deixamo-nos ficar na cova, E depois, Mais nada, os soldados fizeram o que lhes tinham mandado e foram-se embora, E depois, Depois voltamos para Nazaré, E o sonho começou, A primeira vez foi na cova. As mãos de Jesus subiram de repente até ao rosto como se o quisessem rasgar, a voz soltou-se num grito irremediável, O meu pai matou os meninos de Belém, Que loucura estás dizendo, mataram-nos os soldados de Herodes, Não, mulher, matou-os o meu pai, matou-os José filho de Heli, que sabendo que os meninos iam ser mortos não avisou os pais deles, e quando estas palavras ficaram todas ditas ficou também perdida a esperança de consolação. Jesus lançou-se para o chão, a chorar, Os inocentes, os inocentes, dizia ele, parece incrível que um simples rapaz de treze anos, idade em que o egoísmo facilmente se explica e desculpa, possa ter sofrido tão forte abalo por causa duma notícia que, se tivermos em conta o que sabemos do nosso mundo contemporâneo, deixaria indiferente a maior parte da gente. Mas as pessoas não são todas iguais, excepções há-as para o bem e para o mal, e esta é sem dúvida das melhores, um rapazito a chorar por um antigo erro cometido por seu pai, e que talvez esteja chorando também por si próprio, se, como tem parecido, amava a esse pai duas vezes culpado. Maria estendeu a mão para o filho, quis tocar-lhe, mas ele furtou o corpo, Não me toques, a minha alma tem uma ferida, Jesus, meu filho, Não me chames teu filho, tu também tens culpa. São assim os juízos da adolescência, radicais, na verdade Maria estava tão inocente como os meninos assassinados, os homens, minha irmã, é que decidem de tudo, chegou aqui o meu marido e disse, Vamo-nos embora, depois emendou, Afinal não vamos, e sem mais explicações, foi preciso eu perguntar-lhe, Que gritos são aqueles. Maria não respondeu ao filho, seria tão fácil demonstrar-lhe que não era culpada, mas pensou no marido crucificado, também ele morto inocente, e sentiu, com lágrimas e vergonha, que o amava agora, mais do que quando fora vivo, por isso calou-se, a culpa que um levou pode levá-la outro. Disse Maria, Vamos para casa, não temos mais nada a dizer aqui, e o filho respondeu-lhe, Vai tu, eu fico. Parecia que se perdera o rasto de ovelha ou pastor, o deserto era de facto um deserto, e até as casas além, soltas ao acaso pela encosta abaixo, pareciam grandes pedras talhadas, de um estaleiro abandonado, que aos poucos se fossem enterrando no chão. Quando Maria desapareceu na fundura cinzenta de um vale, Jesus, de joelhos, gritou, e todo o seu corpo lhe ardia como se estivesse a suar sangue, Pai, meu pai, por que me abandonaste, que isto era o que o pobre rapaz sentia, abandono, desespero, a solidão infinda de um outro deserto, nem pai, nem mãe, nem irmãos, um caminho de mortos principiado. De longe, sentado no meio das ovelhas e confundido com elas, o pastor olhava-o.